Nascido na cidade de Ponta Delgada, em 27 de Março de 1875, poucos meses depois veio para esta ilha do Faial na companhia de seus pais, D. Emília Anabela Xavier e António Augusto Xavier por este haver sido colocado como desenhador na Direcção de Obras Públicas da Horta.
Foi aqui que o Ouvidor Xavier realizou todo o percurso escolar, tendo, juntamente com outros treze companheiros, entrado para o Liceu Nacional no ano de 1885 sendo sempre um aluno de excelente aproveitamento. Correspondendo à sua vocação, seguiu a vida eclesiástica, ingressando no Seminário de Angra onde completou o curso teológico, sendo depois ordenado presbítero.
Exerceu o múnus sacerdotal nas paróquias faialenses do Capelo e das Angústias e na da Candelária da ilha do Pico. Foi colocado como vigário da Matriz da Horta no ano da implantação da República e ali se manteve até ao seu prematuro desaparecimento em 1922. Sucedendo na paroquiação da Matriz e na administração da Ouvidoria a um sacerdote “digno e venerando, o Padre José Leal Furtado, soube o reverendo Xavier continuar-lhe as pisadas, impondo-se à consideração dos seus paroquianos que nele viam um pastor solícito e bom”1.
Era ele pároco da Matriz e ouvidor do Faial aquando da sagração episcopal de D. José da Costa Nunes como bispo de Macau em 20 de Novembro de 1921, acontecimento único que passou aos fastos da sociedade açoriana e que uma lápide colocada o assinala ainda hoje.
Em Lisboa, aonde fora submeter-se a uma intervenção cirúrgica, faleceu no dia 20 de Junho de 1922 o Padre Manuel Augusto Xavier, pároco da Matriz da Horta e Ouvidor Eclesiástico do Faial. Informa “O Telégrafo” dessa data que “a inesperada notícia da sua morte circulou nesta cidade com uma rapidez fulminante e cheia de assombro e de pesar”. Estava ele em pleno vigor da vida pois contava apenas 47 anos de idade.
O seu funeral ocorreu no dia 13 de Julho depois de os seus restos mortais chegarem à Horta a bordo do navio “Funchal”. O ofício fúnebre a que se seguiu missa de requiem decorreu na igreja Matriz e foi presidido pelo novo Ouvidor do Faial, o Padre Dr. Francisco Garcia da Rosa, que foi acolitado pelos “reverendos Goulart Cardoso e Francisco Silveira de Ávila, sendo mestre-de-cerimónias o Padre Manuel José de Ávila”. Participaram também nas cerimónias fúnebres outros sacerdotes, as confrarias locais, pessoas das relações da família enlutada, educandas de Santo António e muitos fiéis. “Após as absolvições, usou da palavra o rev. vigário Silveira Grilo, seguindo-se o funeral, sendo o ataúde colocado na carneira do comendador Eduardo Bulcão, no cemitério geral”2. Ali, junto ao sepulcro, o consagrado orador Padre Osório Goulart enalteceu as qualidades morais e intelectuais do extinto. Dessa comovente e notável alocução, arquivada numa brochura de 1923 – hoje naturalmente muito rara - transcrevo as seguintes passagens: “Eu não posso nem devo deixar sumir-se na penumbra sepulcral o cadáver dum amigo desditoso e querido sem dizer algumas palavras de homenagem e de gratidão à sua memória bendita – à memória daquele a quem devi a mais sincera e desinteressada amizade. Não se deve fechar a porta da eternidade sobre o corpo dum homem que foi bom e que foi útil, digno pelo seu carácter e admirado pelo seu espírito, sem que a seu respeito se digam palavras de justiça, de verdade e de paz.
Bem sei que a morte é um mistério insondável e deve contemplar-se como todos os mistérios, em silêncio. E o nosso querido amigo morreu…. Quando a verdade ressalta assim à força de cruel, à força de real, não há palavra tão fecunda como o silêncio. É sentir e calar, suspirar e emudecer … Mas o nosso pesar, a mágoa de todos nós; o pesar, a mágoa de quantos aqui vêm, nesta piedosa romagem dizer o último adeus ao amigo inolvidável, não pode conter-se sem que desafogue a sua dor numa prece que reveste a solenidade dum culto. É que o Padre Xavier deixou após si, com um tesouro de simpatias, um poema de saudades. E morrer desta maneira não é morrer, é viver no coração de todos nós. Conheci-o, estimei-o, admirei-o. O seu perfil debuxa-se instantaneamente: foi um trabalhador infatigável e um perfeito cavalheiro; pulsavam sempre nele duas fibras valentes – a do trabalho e a da honra; teve uma alta compreensão e um primoroso sentir; foi um nobre espírito e um lídimo carácter. (…) Meu Padre Xavier! Amigo e colega saudosíssimo! Tu eras uma alma primorosa, uma alma nobilíssima, deves, pois, gozar a suprema ventura no seio luminoso da paz! Trabalhaste denodadamente, afincadamente, com o coração cheio de fé e a alma a transbordar de esperança, trabalhaste até morrer no serviço do Senhor. Deus será clementíssimo contigo, dando-te o eterno descanso no esplendor da perpétua luz!”3.
Era irmão de Pedro Paulo Xavier que já nascera na Matriz da Horta em 29 de Junho de 1881 que foi pai do brilhante jornalista Raul Xavier (15.9.1909 – 10.10.1977) nascido do seu casamento com D. Leopoldina da Costa Baptista Xavier.
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)
1 “O Telégrafo”, 1922, Junho 22 (8.166), p. 1
2 Idem, 1922, Julho 14 (8.175), p. 1
3 Osório Goulart, “Uma homenagem à saudosa memória do Padre Manuel Augusto Xavier”, Ponta Delgada, 1923, pp. 11 e 12