FACTO HISTÓRICO DAS FLORES
1. Antecedentes históricos do navio
Quando o navio inglês “Slavonia” encalhou nas costas marítima do Lajedo, ilha das Flores, em 10 de Junho de 1909, era quase uma novidade para os florentinos, por diversos motivos. Pela sua dimensão, pelo seu modernismo, e, sobretudo, por se encontrar plenamente iluminado com electricidade e, ainda, por já possuir radiotelegrafia própria. Apesar dos vários transatlânticos que por ali passavam diariamente, embora a distâncias variáveis, não havia na ilha frequentes contactos com eles, contrariamente ao que acontecera com a navegação à vela. Esta precisava do apoio que a ilha lhe podia oferecer.
No início do século XX, poucos eram ainda os grandes paquetes com máquinas a vapor que transitavam pelos mares dos Açores. Nesse tempo ainda havia muito transatlântico à vela. Por exemplo em
O “Slavonia” havia sido construído em 1902 nos estaleiros ingleses da James Laing, em Sundertand, e fora baptizado com o nome de “Yamuna”, tendo ficado concluído em 1903. Destinou-se inicialmente ao transporte entre a Inglaterra e a Índia. Depois de vendido à empresa armadora Cunard Steam Ship Co. Ltd foi remodelado e passou a fazer viagens entre Liverpool e Nova Iorque, transportando essencialmente emigrantes endinheirados, tendo então mudado de nome para “Slavonia”.
Como estamos a escrever essencialmente para açorianos, interessa voltar a evidenciar esse naufrágio com algum pormenor, uma vez que durante alguns anos a sua desventura foi tema importante para a navegação e para as pessoas que conheceram a dimensão da sua tragédia. Efectivamente, o “Slavonia” constituiu, na memória colectiva das gentes destas ilhas, designadamente na ilha das Flores, tema de conversas e de recordações que ainda perduram com algum significado, embora todos os passageiros e tripulantes se tenham salvo. Embora já tenham ocorrido outros naufrágios na ilha das Flores, com elevadas projecções, nenhum terá atingido a dimensão publicitária que este teve.
Durante vários anos, os barcos da empresa armadora Cunard Line quando passavam nas proximidades do local onde ocorreu o naufrágio, vinham ali prestar homenagem ao Lajedo, à ilha das Flores e, certamente, para demonstrar o local onde terminaram as viagens daquele importante paquete. Às vezes navegavam muito próximo, outras paravam alguns minutos. Frequentemente ouvia-se música a bordo. Em criança o lajedense Monsenhor Dr. Francisco Caetano Tomás presenciou esses factos bastantes vezes, sobretudo até à década de 1930, contou-me ele.
Assim, em face do elevado significado histórico que o mesmo teve para aquela freguesia do Lajedo, a sua memória perpetuou-se nela por várias gerações, acontecendo quase o mesmo junto da restante população da ilha. Por outro lado, a “Baixa Rasa” onde o navio bateu continua visível aos olhares de todos, nomeadamente aos que se debruçam ou se abeiram da rocha do mar nas imediações do Lajedo. Ela é mesmo visível da estrada e ninguém a vê que não se lembre do naufrágio do “Slavonia”, pelas diversas razões que o envolveu, como a seguir veremos.
O primeiro trabalho histórico publicado nos Açores sobre o referido naufrágio, para além das notícias da época, terá sido o que Norberto Trigueiro publicou no jornal “Correio da Horta” de 22-10-1960. Álvaro Monteiro de Freitas, cabo-de-mar em Lajes das Flores, em 10-12-1991, também publicou no “Jornal do Ocidente”, dessa vila, um trabalho sobre o mesmo acidente. Alguns anos depois, Félix Martins, no jornal “As Flores”, de 21-06-2001, terá feito o trabalho histórico mais completo que até então analisámos, sobretudo relativamente às características históricas e técnicas do navio, bem como à rota e navegação por ele seguida. Mais recentemente, obtivemos um excelente artigo de Alexandre Monteiro intitulado “O naufrágio do paquete Slavonia (Ilha das Flores, 1909)” inserido na Internet, que nos foi remetido pelo nosso prezado amigo Sr. Gustavo Moura, da cidade de Ponta Delgada, ilustrado com várias fotografias, que já tivéramos oportunidade de observar há anos atrás. Estavam expostas com outras nas paredes da casa da senhora Floripes Rodrigues, lajedense já falecida, que se orgulhava do pai ter colaborado no salvamento dos náufragos do “Slavonia”. Autorizou-me a fotografá-las, mas as fotos perderam-se na revelação. A estes trabalhos históricos juntamos ainda um relatório intitulado “Esboço da Guarda-Fiscal das Ilhas das Flores e do Corvo” – cuja autoria é atribuída ao 1º. Sargento Domingos Antunes – baseado nos relatórios elaborados pelos seus antigos colegas que fiscalizaram o naufrágio.
Embora algumas dessas fontes históricas sejam comuns, não há uniformidade plena nos elementos que caracterizam o navio, nem sobre os factos que se referem à viagem e ao naufrágio. Todavia, na generalidade há coincidência.
Sem pretendermos analisar quem tem razão sobre este ou aquele pormenor do naufrágio, queremos apenas dar uma ideia genérica das leituras que fizemos, quer das notícias, quer dos trabalhos históricos que referimos. E, contrariamente ao que aconteceu com alguns daqueles autores, não entrevistámos nenhum florentino contemporâneo do naufrágio, como aconteceu, por exemplo, com Norberto Trigueiro e anos depois com Álvaro Monteiro de Freitas. (Continua)
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BIBLI: Gomes, Francisco António Nunes Pimentel, “A Ilha das Flores: Da redescoberta à actualidade (Subsídios para a sua História)”, (2003, pp. 423 e 445, 2.ª edição da Câmara Municipal de Lajes das Flores; Trigueiro, Norberto, artigo publicado no jornal “Correio da Horta”, Horta, de 22-10-1960; Martins, Félix, artigo no jornal “As Flores”, Santa Cruz das Flores, de 21-06-2001; Freitas, Álvaro Monteiro de, artigo publicado no “Jornal do Ocidente” de Lajes das Flores, de 10-12-1991; Monteiro, Alexandre, “O Naufrágio do Paquete ‘Slavonia’ (Ilha das Flores, 1909)”, (2009), Internet; Correia, Luís Miguel, “Paquetes Portugueses”, pp. 83 e 215, 1992, Edições INAPA, de Lisboa; Antunes, 1.ª Sargento Domingos (presumido autor), “Esboço Histórico da Guarda Fiscal das Ilhas das Flores e do Corvo (1885-1985)”; jornal “O Telégrafo”, de 19-06-1909; jornal “O Faialense” de 27-7-1909; Trigueiro, José Arlindo Armas, “Retalhos das Flores - Factos Históricos”, 2003, pp. 27-34, Ed. da Câmara Municipal de Lajes das Flores.