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  • O açoriano e a sua relação com a ilha e com o mar
23
fevereiro

O açoriano e a sua relação com a ilha e com o mar

Escrito por  Cláudia Ávila Gomes
Publicado em Cláudia Ávila Gomes
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O mar encontra-se omnipresente na maioria das paisagens açorianas. De facto, num arquipélago como os Açores, isolado no meio do Atlântico e disperso numa vasta extensão oceânica, com algumas ilhas próximas, mas outras relativamente afastadas, o mar é, necessariamente, um elemento que se faz notar. Mesmo em ilhas próximas, como o conjunto Faial - Pico - São Jorge ou o par Flores - Corvo, a relação visual, apesar de centrada nas outras ilhas, não dispensa a matriz do mar. O mar é o horizonte visual de grande parte das paisagens. Excetuando as situações de vales, planaltos baixos interiores e caldeiras, que não as mais comuns como locais habitados, o mar lá está, constante e cheio de personalidade. Esta presença influência o carácter dos açorianos, ainda que muitas vezes de maneira não inteiramente explícita.
Pelos mares chegaram as gentes que povoaram os Açores e muitas das plantas que antecipadamente forjaram a paisagem. Foram estas plantas que permitiram a sobrevivência das gentes, que nutriram os diversos ciclos económicos, que providenciaram os materiais que ajudaram a construir a sociedade e os modos de fazer e de ser que fazem parte da cultura açoriana. O mar, como elo de ligação com o exterior, permitiu a alteração da paisagem das ilhas ao longo dos séculos. No entanto, os perigos associados às tempestades e à pirataria fizeram também dele um elemento a recear. Com o advento das comunicações aéreas, o mar perdeu importância como ele de ligação, passando a ser essencialmente o grande elemento de isolamento. Hoje o mar é visto como uma oportunidade para uns, mas para a maioria começa a reinar uma certa indiferença.
De facto, como referiu no passado Orlando Ribeiro “o mar é o mais poderoso factor das relações geográficas remotas. Caminho aberto para todos os lugares do mundo, nas suas cidades-portos o exótico cabe sempre entre o local. Mas ele marca também o fim da terra habitada: e quando não se vê ou adivinha uma costa fronteira próxima e as suas rotas andam desprezadas, pesa sobre os litorais um destino de isolamento e arcaísmo.” (Ribeiro, p.104).
No entanto, muitos açorianos, como muitos insulares, viraram as costas ao mar e voltaram-se para a terra. As profissões ligadas ao mar foram durante longos anos acessórias ou duma minoria. O maior peso das atividades agrícolas nas ilhas e a diminuta importância com que a pesca era tradicionalmente tratada conduziu a uma certa desvalorização económica e social tradicional do mar. Este processo foi atenuado com as mais recentes formas de exploração marítimo-turística e com a investigação científica de topo que se tem feito.
Tradicionalmente, a separação entre marítimos e agricultores era em parte devida à diferença de hábitos e de modos de pensar. O agricultor, agarrado à terra, com a ambição de se tornar proprietário, não vê com bons olhos a necessidade de liberdade do pescador. Eles não se compreendem. No entanto, o paradoxo do homem comum é que, apesar de virar as costas ao mar quando se encontra na ilha, sente uma profunda atração por este quando, por necessidades várias, se vê obrigado a sair desta.
O mar foi - durante muito tempo - o meio ocasional de ligação a outras terras, mas era, essencialmente, o fator de isolamento quotidiano da ilha e, como tal ignorado. Apesar disso, mesmo que o possa tentar ignorar, o ilhéu vive no meio do mar e este influencia-o de modos que nem imagina. De facto, há em determinadas ilhas e em determinadas pessoas uma maneira de estar que reflete o mar, “parece até que o ritmo cadenciado das ondas e das marés lhe regula os passos e os gestos graves, lhe dá o tom à fala, arrastada e cantada, lhe enruga o semblante e lhe afina a vista.” (Costa, vol. 1, p. 286)

 

Referências bibliográficas
Carreiro da Costa - “Etnologia dos Açores”. Lagoa: Edição da Câmara Municipal de Lagoa, 1989.
Orlando Ribeiro - “Portugal, o mediterrâneo e o atlântico: esboço de relações geográficas.” Lisboa: Sá da Costa Editora, 1967.

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