Desde menino, que iniciei as travessias entre Faial e Pico, mais propriamente, entre Horta, a Madalena e São Mateus, na companhia de familiares, muito chegados, normalmente por ocasião das festividades do Senhor Bom Jesus Milagroso.
Mais tarde, continuei a atravessar o canal, só que, agora, em sentido inverso.
E, muitas foram, ao longo destes anos todos, as viagens que tive de fazer, algumas com maresias de nos pararem a respiração, particularmente, quando Madalena e Calhau ficavam fechados ao serviço de cabotagem das velhas lanchas, que tão eficientes serviços prestavam, sobretudo, quando surgia um caso de doença, que obrigava a uma urgente deslocação para o Hospital.
Cheguei a levar, da Prainha à Horta, mais de duas horas, tal o estado bravio do mar e, quase sempre, nestas condições, era o velho lobo do mar, Mestre Simão, que conduzia a embarcação, com uma perícia e cautela, deveras impressionante.
Homem muito prático e conhecedor das maresias que enfureciam o canal, era uma personalidade no seu posto de comando, aonde pouco falava e, se o fazia, era, quase sempre para dar orientações dos marinheiros.
Como referi, muitas foram as viagens que fiz, boa parte delas, sentado num “banco” corrido, que se situava, mesmo, por detrás do mestre e registo, aqui, algumas respostas que proferiu na sua voz calma e que denotam o seu específico modo de esclarecer os presentes.
Numa viagem, da Horta para a Madalena, um cavalheiro, que me era desconhecido, a certa altura, perguntou ao Mestre Simão qual seria o melhor porto do Pico.
Com a bonomia que o caracterizava, o Mestre Simão respondeu: - “O mês de Julho”.
Doutra vez, navegando da Prainha para a Horta com maresias de temer, nós, respetivamente, o Padre Raposo, uma senhora que vendia rendas e a minha pessoa, que viajávamos sentados no banco por detrás do Mestre, recebemos ordem de descer, imediatamente, para baixo.
Quando duas horas depois, o Mestre Simão mandou um marinheiro dizer-nos para subirmos ao comando e, ao chegarmos, ele repetia, com entusiasmo e alegria: - “Esta não é uma lancha, é um autêntico navio.”
Aqui, presto sentida homenagem ao Homem merecedor da nossa reconhecida gratidão.
José Azevedo
Janeiro 2018