Os baleeiros estão mesmo a desaparecer. Com eles desaparecem formas diferentes de apreender a realidade insular, a organização das comunidades e os profundos conhecimentos sobre o trabalho e a vida do mar. Este projecto está a testemunhar – e a reagir – ao estertor do ‘ciclo da baleia’. Perante as aceleradas transformações económicas e sociais criadas pelo turismo e a integração europeia, a preservação do património baleeiro torna-se cada vez mais premente, nas suas múltiplas formas, materiais e imateriais.
A adaptação da baleação norte-americana às bases costeiras deveu-se, como referiu Nemésio, um tanto à história e um tanto à geografia. Mas, sendo essencialista, a açorianidade não fornece uma explicação total. Por um lado, o sucesso da indústria baleeira dependeu dos industriais que ergueram novas fábricas e aproveitaram as oportunidades dos mercados externos. Mas foi também, sobretudo, uma epopeia de humildes de longa duração, com dinastias locais de baleeiros, que valorizou os ideais de tenacidade e respeito pelo cachalote.
É esta dimensão humana que merece ser aprofundada, contra o esquecimento. A preservação da memória dos baleeiros não implica um sentimento de nostalgia nem um desejo de reabilitação da actividade. Também não supõe um julgamento, ainda que os exercícios de recolha de memórias não sejam assépticos ou neutrais. O seu objectivo fundamental é a reconstrução da realidade histórica da forma mais fiel que nos seja possível. O principal problema coloca-se, portanto, na selecção e interpretação das fontes históricas.
As memórias da baleação são extremamente complexas. São subjectivas, ancoradas em múltiplas histórias de vida diferentes, mas também colectivas e sociais, dependentes das características que a sociedade atribuiu aos baleeiros e a forma como estes se deixam representar. Acresce a isto que as memórias são construídas com uma distância variável entre os indivíduos e estão limitadas pelo processo de recolha, a empatia, a preparação dos entrevistadores e as condições que estes asseguram para realizar o seu trabalho. As memórias remetem-nos, com toda a certeza, para um período em que se possuíam diferentes percepções sobre a vida dos cetáceos e sobre o mar, a morte e a própria comunidade. Visões que foram sendo reveladas na prosa luminosa e instigante de Dias de Melo.
Feita a recolha de cerca de 100 entrevistas a baleeiros de todas as ilhas, é agora necessário realizar o tratamento arquivístico das entrevistas para que, no futuro, quando infelizmente já não existir nenhum testemunho vivo, qualquer cidadão, familiar ou profissional possa aceder às memórias dos baleeiros, consultar os registos audiovisuais, discuti-los e interpretá-los, dispondo de ferramentas de auxílio à pesquisa e análise destas preciosas fontes orais.
E será igualmente importante expor essas memórias como novos conteúdos dos Museus, ajudando-os na sua função interpretativa do passado. Os baleeiros permitem-nos compreender, melhor do que ninguém, todo o circuito da baleação, desde a arreada até à exportação dos óleos e farinhas, bem como a vida familiar, económica e religiosa que circundava a actividade.
Francisco Henriques
Doutorando no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa