Durante a semana de 16 a 20 de Abril decorreram os XXV Encontros Filosóficos com o tema “Estar do mundo: vias para uma sociedade sustentável”. Estes encontros filosóficos tiveram origem na Escola Secundária Manuel de Arriaga, na Horta, mas atualmente desenrolam-se em todas as escolas secundárias das ilhas do triângulo e são um exemplo de descentralização e complementaridade que é importante passar às crianças e jovens das nossas ilhas.
Heroicamente organizados pela professora de filosofia Maria do Céu Brito secundada por diversos professores permitiram que alunos, professores e público em geral pudessem refletir em conjunto sobre a sustentabilidade com investigadores e pensadores como Filipe Duarte Santos, Viriato Soromenho Marques e Álvaro Laborinho Lúcio.
A minha modesta contribuição para estes encontros foi uma comunicação com o título “Sementes para a sustentabilidade” apresentada nas Lajes do Pico e na Horta. Em ambas as escolas tentei transmitir às crianças e jovens a importância das “suas” áreas protegidas e das relações de afeto que se criam com estes espaços, uma vez que é a partir daí que se cria a vontade de os preservar e de deles usufruir sustentavelmente.
No caso das Lajes do Pico conversou-se sobre o valor natural da Área Protegida para a Gestão de Habitats ou Espécies das Lajes do Pico. Os alunos ficaram a saber que esta é a maior plataforma de abrasão marinha dos Açores e tomaram consciência da sua importância como ponto de paragem e descanso para a travessia de uma grande diversidade de aves migratórias provenientes tanto do continente europeu como americano. Transmitiu-se também que os habitats e espécies presentes nesta grande plataforma de “laje” estão dependentes de um delicado equilíbrio entre água doce, proveniente de escorrências e da pluviosidade, da água salgada do mar e dos nutrientes existentes nas diversas poças. Sendo assim é muito importante que não se façam aterros sobre esta plataforma, uma vez que com o peso a rocha vulcânica se quebraria e a água deixaria de circular. Em alternativa, uma estrutura de passadiços aéreos estrategicamente apoiados e amovíveis no inverno poderia permitir um melhor conhecimento ambiental da área e um aproveitamento turístico para a observação de aves.
Aos alunos do Faial falou-se da área protegida mais urbana de todo o arquipélago, a Área de Paisagem Protegida do Monte da Guia. Salientou-se a importância da preservação do sistema dunar presente da Praia do Porto Pim explicando-se que o sistema de passadiços que foi ali implantado serve esse efeito. Falou-se também da importância da erradicação das espécies de vegetação invasora presentes - principalmente a cana (Arundo donax), a silva (Rubus sp.) e a Lantana camara - e da plantação de espécies endémicas como a faia (Morella faya), a urze (Erica azorica) e do pau-branco (Picconia azorica). Relembrei o trabalho de campo concretizado no âmbito do meu doutoramento no Monte da Guia, e que teve como principais conclusões: a possibilidade da erradicação das espécies invasoras sem a utilização de herbicidas; a grande velocidade a que cresceram as espécies endémicas e a sua utilidade para a prevenção da erosão; e a importância do trabalho dos voluntários para estas atividades, que servem simultaneamente para a sensibilização ambiental e para a criação de laços das populações com a sua própria terra. Tentei passar a estas crianças e jovens a ideia da importância de se conhecer a sua própria terra, de se usar os recursos da paisagem sustentavelmente e de agir no sentido dessa sustentabilidade. Porque, no fundo, as sementes para a sustentabilidade somos nós!