Retalhos da nossa história – LXXXIX
No Centenário da República Portuguesa (19)

Sucedeu, em plena “República Nova”, ao poderoso dr. Manuel Francisco das Neves Júnior, tomando posse do cargo em 17 de Abril de 1918, oito dias após a tragédia de La Lys e onze dias antes das eleições presidenciais e legislativas que legitimariam Sidónio Pais e a sua política de regeneração da nação portuguesa.
O novo chefe do distrito da Horta, naturalmente acreditava na prometida reconciliação nacional, em que o regime, sem deixar de ser republicano, se tornaria também “acessível a católicos, monárquicos e sindicalistas”[1]. Daí não ser estranha a sua escolha para líder distrital do Partido Nacional Republicano (de Sidónio Pais) bem como o empenho posto na campanha eleitoral: O que já se estranha é o comunicado por ele subscrito em 25 de Abril de 1918, onde abertamente mistura a opção partidária com o cargo oficial que exercia. E fê-lo assim: “Alberto Goulart de Medeiros, governador civil do distrito da Horta, inspirado na política de conciliação nacional, pede a manifestação unânime da população deste distrito a favor da eleição para Presidente da República do Exmo. Sr. Sidónio Pais, cujos relevantíssimos serviços à Pátria são de todos sobejamente conhecidos, e igualmente pede que o acompanhe na eleição dos candidatos a Senadores e a Deputado por este círculo.”[2] Estas eleições, realizadas em 30 de Abril por sufrágio directo e universal, constituíram um êxito pessoal para Sidónio Pais e para o seu Partido Nacional Republicano, que se tornou largamente maioritário no Parlamento. Entretanto, e não obstante a acentuada diminuição do esforço de guerra, a verdade é que ainda morriam militares portugueses nos campos de batalha, ainda continuava a falta de alimentos, a agitação das ruas e os tumultos políticos sucediam-se. Sidónio assumiu a Presidência da República em 11 de Maio de 1918, e, uma semana depois, fez uma profunda remodelação do Governo, ficando o capitão Tamagnini Barbosa com a pasta do Interior. Talvez se encontre aqui a razão do súbito abandono de Alberto Goulart de Medeiros, que, a 22 de Maio, inesperadamente “pediu a demissão de governador civil deste distrito, sendo nomeado para exercer aquele cargo o sr. Manuel da Câmara, tesoureiro da Fazenda Pública”[3], o qual foi empossado nesse mesmo dia pelo seu antecessor.
Esteve na chefia do distrito da Horta pouco mais de um mês. E, passados oito anos, voltaria a ser breve a sua passagem por esse elevado cargo. Na sequência do triunfo da Revolta do 28 de Maio de 1926, o dr. Alberto Goulart de Medeiros, foi empossado governador da Horta a 18 de Julho, tendo de enfrentar as consequências da prolongada crise sísmica que, de 6 de Abril a 31 de Agosto assolou o Faial, (com abalos mais intensos nesses dias), provocou mortos e feridos, destruiu grande parte das habitações e reduziu à miséria grande número de famílias. A escassez de meios e a dimensão da catástrofe acabaram por determinar a vinda para a Horta, com o cargo de Alto-Comissário, o coronel Fernando Mouzinho de Albuquerque, restringindo naturalmente o campo de acção do governador civil que a 13 de Novembro terá cessado as suas funções, que foram absorvidas por aquele.
As sequelas e indefinições da Revolução do 28 de Maio e a tragédia do terramoto de 31 de Agosto tornaram, como facilmente se imagina, aqueles tempos tremendamente difíceis. Às extremas carências que atingiam milhares de sinistrados, juntavam-se as desavenças e guerrilhas provocadas por apoios injustamente concedidos, pela prática de actos de corrupção e pela falta de meios humanos e financeiros que acudissem a tantas necessidades. Estes factos e a indefinição sobre o verdadeiro rumo que tomaria a Ditadura Militar, originaram cisões e mal-entendidos. E a eles não escapou o governador Medeiros, sendo vítima de críticas violentas e de sérios ataques políticos. Entre estes, e como exemplo, está o da sua própria nomeação para governador civil, o que despertou no espectro político local a satisfação dos democráticos, dadas as suas afinidades com elementos locais do Partido Republicano, cujo chefe era o ex-deputado Manuel José da Silva, e a revoltosa perplexidade dos conservadores liderados pelo dr. Neves e que iriam aderir maciçamente ao novo regime. Para mais, na constituição das comissões administrativas das Câmaras e das Juntas Gerais a ordem ministerial era para que delas fizessem parte os elementos das comissões executivas saídos das eleições de 1925, desde que estas não houvessem sido vencidas pelos democráticos. Ao contrário dos distritos de Angra e Ponta Delgada, a situação era mais complexa no da Horta, já que as administrações concelhias e as distritais tinham sido, nos últimos anos da I República, conquistadas pelas forças mais à direita do Partido Democrático, isto é, o Partido Nacionalista e, depois, o Partido Regionalista. Segundo acusava a imprensa conservadora, o governador Alberto Medeiros parecia esquecer este facto e, ao nomear as comissões administrativas, concedia aos democráticos uma preponderância política exagerada, eles que dantes não haviam tido força eleitoral para lá conquistarem as maiorias, “para lá foram agora conduzidos pela mão amiga e paternal do chefe do distrito na nomeação das novas comissões administrativas”[4].
Alguma razão tinham estas observações, pois a avaliar pela comissão administrativa da Câmara Municipal da Horta nomeada pelo governador Medeiros, vemos a par de alguns oficiais do Exército – coronel Francisco Augusto da Costa Martins e capitão Tito Lívio Raposo da Ponte – os civis Manuel Agostinho Fernandes da Fonseca, António Pereira Leal, António Maria de Brito e Melo e, sobretudo, os destacados democráticos dr. Gabriel Baptista de Simas e o engenheiro técnico António Marcelino Gonçalves. Estes dois cidadãos, conjuntamente com o dr. Manuel José da Silva, o professor António Pinheiro de Faria, o tenente Augusto Carlos Pinheiro e o dr. Joaquim Gualberto da Cunha Melo, seriam presos a 2 de Março de 1927 e, sem culpa formada, deportados para Angra do Heroísmo no dia imediato.
O dr. Alberto Goulart de Medeiros terminou assim, na segunda metade de 1926, a vida política activa, continuando, porém, a trabalhar na sua profissão de médico, curso que concluíra na Escola Médico-Cirúrgica do Porto em 1891.
Ingressou na Marinha como médico naval no posto de 2.º tenente e reformou-se com a patente de capitão-tenente em 1909, ano em que, definitivamente, fixou residência na Horta, exercendo clínica nas ilhas do Faial e Pico.
Nascido na Matriz em 10 de Novembro de 1863, era filho do médico conselheiro Manuel Francisco de Medeiros e de Maria Alexandrina Goulart de Medeiros e irmão do deputado, senador e ministro coronel Manuel Goulart de Medeiros, de Maria Palmira Goulart de Medeiros, do médico Pedro Goulart de Medeiros, do chefe de Repartição de Finanças Jaime Constantino Goulart de Medeiros, do funcionário da Fazenda Adolfo Goulart de Medeiros e do governador civil da Horta e do Funchal capitão-de-mar-e-guerra Augusto Goulart de Medeiros.
Casara com Rosalina Campos Goulart de Medeiros em 1895 na Sé de Braga, tendo sido pai de seis filhos, destacando-se de entre eles, o dr. Alberto Campos Goulart de Medeiros que foi médico distinto e cidadão ilustre.
O dr. Alberto Goulart de Medeiros, “dotado de uma resistência invulgar e sempre de mal com o medo, nunca faltou com a sua presença nas crises graves, sendo grande o seu “valimento quando da peste epidémica e estupendo quando da mortífera gripe em 1918”[5].
Faleceu a 14 de Maio de 1945, na sua residência de férias da Madalena do Pico, com 81 anos de idade.
[1] Ramos, Rui – “História de Portugal”, Lisboa, 2009, p. 610
[2] “A Democracia”, 26.4.1918
[3] Idem, 22.5.1918
[4] “Correio dos Açores”, 13.8.1926, in Cordeiro, Carlos, “O Processo de Implantação da União Nacional nos Açores”, revista Arquipélago. História, 2.ª série, IX, 2005, pp. 538-539
[5] Barbo, Rui – “O Telégrafo”, 14.6.1945