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27
abril

Os barquinhos e os aviõezinhos

Escrito por  João Paulo Pereira
Publicado em EDITORIAL
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Uma das imagens que percorreu de forma vertiginosa as redes sociais e que ficará na retina de todos os açorianos foi tirada na passada segunda-feira. Nas Portas do Mar, em Ponta Delgada, atracavam às primeiras horas da manhã, ao mesmo tempo, quatro navios de cruzeiro que iriam colocar nas ruas daquela cidade mais de treze mil turistas.
Não me enganei, escrevi bem, desembarcaram naquela ilha quase tantas pessoas quantas aquelas que constituem a população do Faial.
Encheram lojas, compraram “souvenirs”, consumiram em cafés e esplanadas, e visitaram alguns dos principais pontos turísticos da ilha. Mais um forte empurrão às finanças da principal cidade e ilha dos Açores, que também se vai destacando e assumindo preponderância regional ao nível do turismo de cruzeiros.
E se a isto somarmos o facto de no dia 25 de abril a ilha ter voltado a receber quase igual número de turistas, imediatamente nos apercebemos que a relevância assumida pela ilha de São Miguel e, sobretudo, pela cidade de Ponta Delgada como destino turístico de excelência, iniciada com as “low cost” e agora continuada com os navios de cruzeiro, tem relegado para plano secundaríssimo as restantes ilhas.
Contrastando com aquela imagem, no Faial tínhamos o Cruzeiro das Ilhas ancorado no novo Porto. Na verdade, enquanto na maior ilha dos Açores se olha em direcção ao progresso e desenvolvimento económico, no Faial continuamos, como se costuma dizer, a “chover no molhado”.
Mais uma semana de plenário da Assembleia Legislativa e mais recomendações aprovadas acerca da ampliação da pista do aeroporto. Acusações de parte a parte, quem não fez, quem devia ter feito e não fez, quem assumiu compromissos de fazer a obra e não cumpriu, tudo serviu para esgrimir argumentos para o facto de a pista ainda não ter os 2.050 metros pretendidos.
Todavia, por incrível que pareça, aparentemente nenhum dos faialenses ali presentes prestou a devida atenção às palavras que a Secretária Regional dos Transportes proferiu aquele propósito e que a opinião pública açoriana desconhecia.
Segundo esta, até ao ano de 2022, não está previsto no Plano de Ação da Vinci qualquer intervenção na pista do aeroporto, quer seja em termos das áreas de segurança nas cabeceiras da pista, as chamadas RESA (Runway End Safety Area), quer em termos de ampliação da pista propriamente dita.
Por outras palavras, não pensemos no médio prazo em quaisquer obras na pista, porque a concessionária não as vai realizar. Basta colocarmo-nos do lado da Vinci, uma empresa privada que tem como objetivo a maximização do lucro com vista a remunerar os seus acionistas, para nos apercebermos que não quererá investir 30 ou 40 milhões de euros na ampliação da pista de um aeroporto, sabendo que nunca verá o retorno financeiro desse investimento.
Ora, se a responsável por esta área afirma isto de viva voz enquanto continuamos a direcionar as nossas forças exigindo obras quase inalcançáveis, despendendo o dinheiro dos nossos impostos em estudos, num embalamento que nos torna sonolentos, o que estamos à espera para mudarmos a bitola do discurso e o direcionarmos para outras prioridades ainda mais relevantes para o futuro da ilha.
Que passos estão a ser dados no sentido de captar investimento privado, vindo do exterior, criador de riqueza para a ilha? Onde estão as empresas tecnológicas na área do mar e a Smart City que se apregoava? E a criação de emprego especializado? E o novo Porto e a 2.ª fase da Variante? E não se diga que tudo vai mudar com a nova Frente Mar, porque a obra embelezará a cidade, permitirá mais fluidez do trânsito, mas não trará riqueza à ilha.
É preciso estabelecer claramente uma mudança de paradigma, criando um “Think Tank”, um grupo suprapartidário, com intervenientes das mais diversas áreas, que, livremente, pense e projete a ilha para as próximas décadas, porque, se assim não for, continuaremos a ter apenas barquinhos e aviõezinhos.

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