A nossa experiência do mundo é uma experiência da nossa relação com o outro - família, amigos, vizinhos, conhecidos - e, nesse sentido, pode ser analisada a partir da experiência da amizade e da compreensão, uma vez que o sujeito que compreende a sua situação no mundo partilha com os outros sujeitos a sua circunstância e uma determinada situação histórica.
O conhecimento, entendido como uma construção inteletual, surge associado à escola mas não se confunde nem depende desta. Nas sociedades primitivas, ele era sinónimo de existência, de vida, modo de ser, de criação e recriação do mundo. O conhecimento surgia associado a uma poética do mundo, pois permitia ao ser humano situar-se face ao outro e à complexidade dos fenómenos sociais - a cultura, a comunidade, os costumes e os comportamentos individuais. O conhecimento é inerente ao ser humano e está naturalmente associado à experiência da vida humana. Na perspetiva tradicional de desenvolvimento, este desenvolve-se através da interação da criança com o mundo, pela aquisição da linguagem. Neste sentido, o conhecimento é uma construção; um acontecer da própria existência.
Ao contrário das ferramentas do saber técnico e instrumental, as pessoas são um fim em si mesmas e não estão disponíveis instrumentalmente. A pessoa é essencialmente livre e criativa; realiza escolhas e cria-se ao agir e ao realizar as suas próprias escolhas. Ao construir o seu próprio caminho, não vai só, pois fá-lo numa interação permanente com os outros. O curso da ação que cada pessoa toma é, nesse sentido, um caminho partilhado. Consequentemente, o outro é também corresponsável pelo que essa pessoa virá a ser. Há pois que não confundir o ser com as competências/ferramentas que adquire em contextos de aprendizagem formal.
O reconhecimento da pessoa do outro, a vinculação, a interação e a comunicação são os alicerces da compreensão, do pensamento e da própria visão do mundo. A experiência intersubjetiva pressupõe necessariamente o outro (tu) e o diálogo. Nesta relação constrói-se o conhecimento como sentido, significado, abertura e diálogo com o novo, a compreensão da diferença como condição para se ampliar a visão de mundo.
Quanto à escola, enquanto espaço de construção de conhecimento, há questões que têm de se lhe colocar. Reconhece e integra a diversidade e a singularidade de cada um? Instaura a educação, como experiência de autonomia, de ação e mudança? Reconhece a multiplicidade das experiências e instaura novos conhecimentos? Potencia o desenvolvimento de cada um? Ou, pelo contrário, promove a cristalização dos modos de ensinar, conceber o mundo e das formas de agir? E qual o maior desafio que enfrentamos hoje na escola? Será o desafio da competição, dos rankings, da despersonalização e da exclusão dos mais frágeis? Ou será o desafio da Amizade, da Escuta Empática, do Diálogo e da Compreensão?
Penso que a experiência humana do reconhecimento do outro e da amizade é a experiência fundante em educação.