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01
junho

O culto do Espírito Santo nos Açores

Escrito por  João Paulo Pereira
Publicado em EDITORIAL
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Anualmente realizam-se pelas ilhas da Região Autónoma dos Açores as festas em louvor do Espírito Santo, as quais têm lugar, todas as semanas, após a Páscoa e se prolongam até ao domingo de Pentecostes, embora, em alguns casos, se estendam até ao domingo da Trindade.
É uma tradição coletiva, de inspiração franciscana. O culto dignifica e autonomiza um dos constituintes da Santíssima Trindade, o Espírito Santo, associando-lhe a celebração da fertilidade da terra e a exaltação da fraternidade.
O domingo de Pentecostes, sétimo após a Páscoa, é, sem dúvida, o momento mais alto das comemorações, que, neste dia, se repetem por todas as ilhas. Não admira, por isso, que a segunda-feira seguinte seja considerada feriado regional e o Dia da Região Autónoma dos Açores, sendo também habitual o Governo Regional conceder tolerância de ponto na terça-feira nas ilhas do Pico, Faial e São Jorge.
Não há localidade açoriana que, durante estes dias, não viva a festa do Divino Espírito Santo, todas se esforçam por prestar uma digna homenagem à divindade e em reviver as tradições que herdaram da família e da comunidade.
Constituindo o melhor símbolo da alma açoriana, pela capacidade de conciliação da diversidade real com a unidade, estas comemorações são vividas com intensidade em todo o arquipélago, variando consoante as ilhas e as localidades, mas tendo todas em comum a oração (o terço) e a missa da coroação.
Durante as festividades semanais realizam-se as “alumiações” - um misto de veneração das insígnias do Divino e de convívio alegre - e canta-se o “pezinho” ao mordomo e às pessoas que realizam generosas ofertas ao Espírito Santo.
Em algumas localidades, a sexta-feira é o dia do sacrifício do gado, com vista ao “bodo” que o mordomo, no domingo, oferecerá aos seus convidados. No domingo realiza-se a primeira procissão que vai a casa do mordomo buscar a coroa, o cetro e a salva, que são transportadas ritualmente por jovens vestidas de branco para a igreja, onde se realiza a cerimónia da coroação.
O estandarte do Espírito Santo, de fundo escarlate com a Pomba-branca bordada, segue sempre à frente na procissão, a qual é atualmente acompanhada pelas filarmónicas, mas antigamente era pelos foliões.
No ritual das festas do Espírito Santo é tradição a realização de um conjunto de refeições, dádivas e distribuições de alimentos cerimoniais às populações. Nestas dádivas estão incluídas em alguns locais as Sopas do Espírito Santo, oferecidas pelo mordomo a toda a população, e feitas à base de carne de vaca cozida e de fatias de pão de trigo, diversas variedades de pães e de massa sovada, biscoitos e doces.
Esta partilha de alimentos constitui a principal característica das festas do Espírito Santo, porque corresponde à forma concreta de exteriorização do culto da solidariedade.
Todavia, este ambiente festivo não se confina ao arquipélago, estando hoje presente em cada uma das comunidades açorianas existentes na diáspora, nomeadamente nos Estados Unidos da América, no Canadá e no Brasil. Em cada uma delas expressa-se a devoção ao Divino, transformando-se em vida os traços da identidade cultural açoriana.
Pode dizer-se com verdade que, na diáspora, os Açorianos vivem as Festas do Divino com a mesma alegria como se as celebrassem na sua freguesia natal.
A preocupação com a indumentária para o bodo, a reprodução de todos os pormenores do ritual religioso e a fidelidade nos temperos, para que as Sopas tenham o mesmo gosto que na sua terra natal, fazem com que qualquer filho ou descendente de açorianos, ao participar numa festa do Espírito Santo, se sinta em casa. 

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