O incómodo. Ter de levantar cedo para ir trabalhar. Pagar contas. Os semáforos. As filas para tudo e para nada. Os atrasos dos aviões. As notícias do costume. Os comentários nas redes sociais...
O incómodo.
Então e as conversas de café, o mexerico, o diz-que-disse, o falar da vida alheia só porque sim?...
O incómodo.
Chateiam. Moem. Incomodam...
O incómodo.
Quem já teve responsabilidade seja no que for sabe bem a chatice que é ter de ouvir críticas negativas, mesmo que sejam construtivas. É um incómodo, mesmo que seja com boa intenção. Um incómodo. Mas é preciso que nos incomodem para podermos melhorar.
O incómodo.
E quem já assistiu de fora seja ao que for (ao incómodo) sabe a frustração de assistir à asneira a ser feita e ver que ninguém se rala com isso. E quem for sensível fica incomodado.
O incómodo?
O ponto de interrogação acima foi sem querer (logo a seguir à palavra “incómo-do”). Será que alguém reparou?... Paciência... agora fica..
O incómodo.
E o nevoeiro? Um verdadeiro incómodo!
(O incómodo.) (Vai assim, a ver se incomoda menos.)
Mas voltemos acima. A uns incomoda haver quem os critique (ter cérebro pode incomodar muita gente). O incómodo. Mas esquecemo-nos que a crítica pode ser positi-va, algo raro entre nós, o que leva a crer que qualquer crítica é necessariamente um “bo-ta-abaixo” (um incómodo).
O incómodo.
E o leitor? Já se sentiu incomodado com alguma coisa? (O incómodo.) Talvez se o incomodasse tivesse resolvido o incómodo. Tentou reclamar?
O incómodo.
Ou já foi criticado? O incómodo. E parou para reflectir se a crítica era bem fun-damentada? O incómodo. Ou achou um incómodo e tentou calar o crítico?
O incómodo.
Se não me criticarem não melhoro (mesmo que seja um incómodo ouvir a crítica; normalmente é). O incómodo. Mas se for boa melhoro (o incómodo), se for má analiso-a criticamente, respondo e passa a ser incómodo de outro.
O incómodo.
O incómodo é o motor da sociedade.
O incómodo.
Saramago (José, o do Nobel, nenhum dos outros), disse numa entrevista que o mundo era feito pelos pessimistas, pois para os optimistas estava tudo bem como está. O incómodo. Não concordo. O incómodo. Acho que temos de ser optimistas, mas optimis-tas críticos. O incómodo. Ser pessimista é, além de depressivo, tendencialmente inútil (como este texto). O incómodo. Devemos ser optimistas de que as coisas vão correr pelo melhor, mesmo quando nos sentimos incomodados e parece que não. O incómodo. Se tudo fosse perfeito não havia sequer necessidade de ser optimista, bastava olhar o vazio. O incómodo. É preciso sentirmo-nos incomodados para querer progredir, para ter vonta-de de alterar qualquer coisa. O incómodo. Mas convém canalizar o incómodo para os lugares certos (não ficar pelas páginas dos jornais, por exemplo...). (O incómodo.) Em suma, se não nos incomodarmos não mudamos nada. O incómodo. (O incómodo é o motor da sociedade.) O incómodo. (Já tinha dito esta frase, que chato...) O incómodo.
O incómodo. Por isso, incomode-se, (o incómodo) incomode-se (o incómodo) e lute para mudar (o incómodo) o que o incomoda. (O incómodo.) Mas, sobretudo, (o in-cómodo) incomode-se!
Será (o incómodo) que (o incómodo) alguém (o incómodo) me (o incómodo) vai (o incómodo) escrever (o incómodo) a (o incómodo) reclamar (o incómodo) deste (o incómodo) texto (o incómodo)?
Achou aborrecido?
Desculpe o incómodo!
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Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o "Acordo Ortográfico" de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).