Apesar das naturais diferenças ideológicas entre os partidos políticos portugueses sempre existiu, no que diz respeito à valorização da língua portuguesa e da cooperação com o mundo lusófono, uma certa unidade nos seus respetivos discursos políticos. É essa unidade, de propósitos e de esforços, que deve prevalecer no âmbito da questão da sobrevivência da língua portuguesa na Galiza.
Na Galiza vive-se hoje um drama linguístico que passa desapercebido à maioria da população portuguesa. Depois de vários séculos de extraordinária e difícil sobrevivência no âmbito territorial do Estado Espanhol - apesar das perseguições de que foi alvo, com particular incidência a partir do século XV -, a língua galega está hoje agonizante na Galiza.
De acordo com os dados disponíveis, o galego era a língua materna de 93% da população galega em 1900. No início da década de 80 do século passado, esse número tinha recuado para uns preocupantes 23%. Apesar da autonomia política concedida à Galiza nessa década – uma das três nacionalidades históricas que a própria Constituição Espanhola reconhece – e do galego se ter tornado língua oficial no âmbito territorial da Comunidade Autónoma da Galiza, o número de falantes maternos da língua continuou a regredir, de forma acentuada, ao longo das últimas décadas. Hoje, o galego é a língua materna de apenas 5% da população da Galiza.
O colapso do galego tem várias causas. Nas últimas décadas a Galiza, tal como todas as regiões ibéricas, desenvolveu um sistema de ensino de massas que, no essencial, foi estruturado em torno da língua castelhana, a língua administrativa imposta nos últimos seis séculos.
No País Basco e na Catalunha as respetivas línguas nacionais (o basco e o catalão) conheceram idêntico declínio até ao advento das autonomias político-territoriais que foram criadas no contexto da transição espanhola que ocorreu após a morte do General Franco. Nestas nacionalidades o declínio das línguas nacionais foi travado através de políticas linguísticas determinadas, exigentes e competentes.
Na Galiza o poder político, muito menos interveniente na defesa da sua língua nacional, estruturou uma norma linguística do galego eivada de influências castelhanas morfossintáticas e lexicais. O resultado foi a satelização do galego em torno do castelhano, processo que acelerou a sua decadência e perda de identidade à luz da intrusão imparável do castelhano.
Os reintegracionistas – sector muito dinâmico, mas ainda minoritário no âmbito do contexto da questão linguística na Galiza – defendem a unidade da língua galaico-portuguesa. Na sua perspetiva, a evolução natural do galaico-português, sem as amarras de um Estado dominante que sempre tentou impor o castelhano, foi a que se processou no secularmente independente Estado português.
Nesse sentido defendem a adoção de uma norma linguística que – com naturais e desejáveis especificidades – corresponda ao atual sistema linguístico galaico-luso-brasileiro-africano-timorense.
Registe-se, neste âmbito, que a pertença da Galiza à área linguística lusófona foi reconhecida, pelas outras nações de língua oficial portuguesa em diversos documentos internacionais, nomeadamente aquando da realização dos Encontros de Unificação Ortográfica do Rio de Janeiro (1986) e de Lisboa (1990), em que a Comissão Galega do Acordo Ortográfico – integrada por entidades não-governamentais com capacidade legal para decidirem em questões de ortografia – foi convidada oficialmente para participar, como observadora, tendo participado na elaboração dos respetivos Acordos e aderido aos documentos oficialmente aprovados junto das delegações dos países de língua oficial portuguesa na altura: Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.
O colapso dramático da língua galega, no âmbito da vigência da atual da norma isolacionista, demonstrou, de forma insofismável, que a língua galega só logrará sobreviver no contexto proposto pelos reintegracionistas e com a solidariedade ativa do resto do mundo lusófono.
A questão da sobrevivência da língua portuguesa na Galiza passou a ser uma dramática corrida contra o tempo. Se o galego vier a sucumbir, isso significará a morte de uma parte de nós próprios. Do nosso ADN original e do irmão que nos acompanhou, ao longo do último milénio, na extraordinária aventura da língua galaico-portuguesa.