O programa Prós e Contras desta semana foi dedicado a um tema que tem causado polémica no meio académico nos últimos tempos. Trata-se do novo museu anunciado pela Câmara Municipal de Lisboa, que pretende abordar a temática dos “Descobrimentos” portugueses. E aí começa o problema: o nome apresentado é “Museu da Descoberta”, pretendendo abarcar os cinco séculos de história ultramarina portuguesa. O foco da discórdia, bem patente neste debate, é o nome proposto, pois entende-se que não é adequado (aliás, esse entendimento parece ser o único ponto unânime entre os investigadores, não obstante poderem discordar por razões diferentes). Os “Descobrimentos” (propositadamente entre aspas) referem-se a um período inicial e circunscrito no tempo (essencialmente o século XV e uma parte do XVI), mas o termo é normalmente aplicado de forma genérica, referindo-se a toda a “saga” portuguesa no “além-mar”.
A discussão continuará e muito haveria para pensar e dizer sobre ela. O que parece ficar esquecido da maioria é que o importante, mais que o nome, é saber-se que museu queremos: que conteúdos terá, como os comunicará, como captará o(s) público(s), como se relacionará com os visitantes, que questões podem (e devem) ser colocadas? Estas não são questões novas, são as questões que quem trabalha com museus coloca todos os dias (nos museus com gestão e planeamento, entenda-se, depois há os outros, que ficam fora da equação).
Algumas das questões referidas, mesmo em contextos ou de formas menos felizes, são bastante pertinentes. Todos sabemos quem foi o Infante D. Henrique (mesmo que a maioria saiba mal, e menos do que devia), mais não seja pela quantidade de bustos e “Praças do Infante” (como a nossa) que existem espalhadas por Portugal e outros territórios, mas ninguém pensa nos homens que foram nas “cascas de noz” pelo oceano fora, enquanto o Senhor Infante tinha os pés em terra firme.
A questão mais pertinente (ou questões) que devemos lançar a debate é que tipo de conhecimentos de História temos e que tipo devíamos (ou devemos) ter. E o impacto que o conhecimento (e a ignorância) da História tem nas nossas vidas.
Exemplo prático (próximo de nós): só por falta de conhecimento se explica que a calçada portuguesa em forma ondulada que adornava a Praça do Infante tenha desaparecido. É que este desenho tem (no nosso caso tinha) um forte significado: é o mesmo padrão que está no Rossio (em Lisboa) e noutros locais, como no famoso “Calçadão” de Copacabana (no Rio de Janeiro). Não é apenas um padrão na calçada, é uma referência ao Mar e à sua relação com Portugal. Somos a cidade-mar e apagámos um dos principais símbolos dessa ligação.
Bom, fui parar a um exemplo muito específico, tantos outros haveria, e melhores. Mas o que quero deixar no ar é esta ideia, que me paira no espírito todos os dias: o que sabemos nós e o que deveríamos saber?, o que deveríamos contar da nossa História? (A nós próprios, a quem nos visita e às gerações vindouras – e neste último caso é fundamental deixar-lhes algo e tentar não destruir tudo). Podia entrar em exemplos mais óbvios, mas para bom entendedor meia palavra basta (teria depois de terminar o texto com mais um “desculpe o incómodo”). Fecho então com outra questão, para reflectirmos todos um pouco:
Quando foi a última vez que visitou um museu? (E porquê?)
Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
Veja-se: https://www.rtp.pt/play/p4234/pros-e-contras
Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o "Acordo Ortográfico" de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).