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20
julho

Dans certains cas, continuer...

Escrito por  João Stattmiller
Publicado em João Stattmiller
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"Dans certains cas, continuer, seulement continuer, voilà ce qui est surhumain".

Albert Camus, La Chute.

(“Em certos casos, continuar, somente continuar, aí está o que é sobre-humano”.

Albert Camus, A Queda).

 

O flagelo é planetário mas só acordamos para ele quando acontece no nosso meio, entre nós, com o nosso irmão, o amigo, o colega, o vizinho, aquele a quem conhecemos a mãe, o pai, a avó, tios, primos... As mesas compridas no quintal...
“Ohhhh! Era tão jovem... Desistiu porque porque... Afinal?! Oh Não! Jura?!!! Não me tinha apercebido... Mas ele não deu o toque a ninguém?! Como assim???? Parecia bem?! Falou comigo a respeito do Tony Bourdain que se suicidou de forma bárbara meu, fogo! E disse: "Que coragem"… E foi fazer igual igual?!!!!!! Não acredito?! Porquê???… Vi-o nesta mesma mesa há poucos dias...”
Ele andava a pé horas e horas, dizia que corria e desaparecia. Surgia calado. Não tinha emprego. Nem casa. Nem vontade. As relações amorosas nem sempre são evidentes mas… As outras também não. Andava triste adiando uma conversa.
"Afinal também contigo? Sim... Comigo também".
Com todos fez um laço afinal. Podia ser um livro. Um assunto incomum, que ultrapassava a tal “crise". Filosofava. Até com futebol. Na mochila deixou uma camisa limpa, um caderno e num papel dobrado o "esquema" das probabilidades do mundial de futebol, não teve tempo para o acabar. Era doce. Educado. Abria a porta e deixava passar, nunca tinha pressa. Os outros primeiro. Parecia que o tempo era dele. Falava baixinho, sem asneiras nem palavras com “picos”, um cavalheiro. Dizia que a terra era plana, para provocar a discussão. O debate. Física quântica! Mundos paralelos! O universo! E olhava para o céu com sede de voar. Um colo bom e sempre pronto para os bébés dos amigos. Doce doce... Mesmo quando lhe falavam mal. Ou não lhe falavam… Por amor? Quem sabe... Um sorriso que atravessa o nosso olhar para um outro lugar. Todos diziam gostar dele um “pouquinho” e de forma “especial” porque era mesmo um doce. Sorria. Sabia de tudo um pouco. Música, geografia... magia!!! Distinguia-se dos outros por isso, até os gatos gostavam dele! Um jovem tranquilo, confirmado. Mas... Andava cansado. Fatigado. Desaparecia discreto...
“Mas nem trabalha como se cansa?”
Muito difícil e duro por aqui. As relações, os afectos. Mãe ausente... Os amigos lá onde ele nasceu e aprendeu outras línguas, não se deixou ficar. E na ilha a que escolheu voltar, que vai daqui até ao outro lado de cá, entre um copo, uma festa, o sol... A solidão. A condescendência para ser aceite... O tempo todo. Uma tranquilidade que chegava a “incomodar” no meio do frenesim das correrias, dos projectos impossíveis, utopias. Menos ele. Menos ele aqui e ali. Menos ele na sorte de um trabalho que garantisse. De uma luz que iluminasse. Um criativo por excelência. “Um doutor” disse um amigo em prantos. “Designer”… Gostava de imaginar “logos” para o sonho alheio. E fazia-o bem! Mas… Não lhe pagavam. Os artistas também comem! Enfim… Deixou de cobrar. Desistiu. Engoliu essa injustiça… E outra e outra. Oh tragos amargos! Nem já um trocado para o maldito cigarro. Um saco de pão para contribuir a quem lhe deu uma cama e dignidade. Um prato de sopa com carinho. Um lençol limpo. Uma cama alheia onde deitava a sua dor. Onde tapava o desamor. Onde se cobria para se não ver. Nunca estava, ia não sei aonde, e voltava sempre sem novidades. A mentira como muleta e companheira falsa. A inteligência aguçada a gerir e driblar o mundo.
“ Tá a beber muito. É má companhia!”
E iam todos menos ele. Menos ele que olhou para a corda de um varal de roupa no quintal de um “amigo irmão” e fez uso dela para por termo à vida. Depois da festa. Quando todos dormiam, poupados nos seus sonos sem tempo de sonho também. O pesadelo manifesta-se. É... De manhã cedo quando a vida deve começar. Menos a dele! Gritaram o seu nome...
"Responde irmão!!!”
Ficamos perplexos, indignados, chocados, zangados, tristes. Menos ele. Menos ele que foi com aquele seu olhar de apelo calado que ninguém entendeu, que ninguém perguntou, que ninguém quis saber. Como se fosse assim normal ser torto e triste e doce para ser tolerado. Quem chegou perto? Foram poucos. A indiferença mata calada. Devia ser proibida!
Como se diz a uma mãe, por telefone, que a sua cria desistiu?
Muitas vezes atrás de um “vou andando” há uma tragédia acontecendo. Embrulhada em nevoeiro e fel propaga-se na alma, envenena a esperança. E dói. Fere. E fica e não deixa pensar bem. Tem-se vergonha dela. Porque é feia. Medonha. Uma batalha travada com o escuro, o frio por dentro, o "fundo". Depois, já tarde, cala-nos. Como entender? Aceitar?
“Porquê que ele já não está ??? Digam-me!!! Para onde foi??? Porque não me avisou Deus?????”
Chora num grito magoado uma irmã... E rebenta o nosso coração de tristeza. E pensamos pensamos... Com a sensação de que podíamos ter feito algo mais. E a ilha, a terra, é muitas vezes madrasta. Somos cínicos, cruéis, indiferentes. Oh nosso monstruoso umbigo! E fica essa dor e essa indignação que nos persegue, amedronta. Oh vida! Menos a dele! Menos a ele!… Menos ele... E afinal tantos e tantos jovens, não só, mas muitos jovens numa corrente infernal: Depressão*. Instala-se sem aviso prévio. Cinza chumbo. Muda e calada. Implacável. Gelada. Cruel. Alerta geral! Pode estar ao nosso lado! Como uma sombra... Menos ele! Que já não está.
* Segundo estimativas recentes da Organização Mundial de Saúde (OMS) em todo o mundo mais de 300 milhões de pessoas vivem com depressão. É a principal causa de problemas de saúde e incapacidade. E a segunda principal causa de morte na faixa etária entre os 15 e os 29 anos de idade. Margaret Chan, Diretora-Geral da OMS, afirmou: "Estes novos números são um sinal de alerta para que todos repensem as suas abordagens à saúde mental e a tratem com a urgência que merece". 

DR

Anthony Bourdain, fotografia de autor desconhecido

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