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20
julho

“Silly season”

Escrito por  Regina Santos
Publicado em Regina Santos
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Fernando Pessoa disse que ‘o mito é o nada que é tudo’. Eu digo que a “silly season” é o tudo que é nada.
Todos queremos e merecemos férias, portanto, sem pretender ser exaustiva, escrevo sobre a “silly season”. É que ela não é verdadeiramente “silly” nem é verdadeiramente “season”, mas uma mistura das duas.
Recorro, pois, à definição constante em Infopedia.pt que nos diz: “Expressão inglesa que designa o período do ano de menor intensidade informativa nos media, geralmente o período de verão. Pode ser traduzida por “estação ridícula”. Nesta altura, os critérios de seleção jornalísticos tornam-se mais flexíveis, passando a considerar como relevantes assuntos que, geralmente, não constituiriam objeto de notícia”.
A “época ou estação ridícula”, tradução literal de “silly season” já não é o que era. Antes chamava-se assim porque as notícias eram frívolas e envolviam pessoas frívolas que sabiam estar a praticar frivolidades. Os alemães chamavam-lhe Sommerloch, ou seja, “buraco de verão” e os franceses la morte saison ou “a estação morta”. Ou seja, não havia notícias
Acontece ano após ano. O tempo aquece, as praias lançam o seu “canto de sereias” e as pessoas vão, a banhos, para o desejado descanso e “recarregar baterias”. Assim, atribui-se a denominação de “silly season” à época do ano, coincidente com o “pico” das férias de Verão. O Parlamento fecha, os deputados saem de circulação, os porta-vozes dos partidos espaçam as conferências de imprensa e os governantes e os políticos trocam o fato e a gravata por uns calções de banho. Geralmente, na política portuguesa não acontece nada de especial. Os jornais, rádios, televisões e diversos meios de comunicação abordando temas light, sobre viagens, férias, descanso, festa e festivais, cuidados a ter com a pele e com as crianças, gastronomia e outros interesses “próprios da estação”.
Nesta altura, devido a escassez informativa, de factos e eventos dignos de cobertura noticiosa, os órgãos de comunicação social, noticiam toda e qualquer banalidade e, os poucos protagonistas que surgem, pensam que as suas declarações são de alto interesse. Mas tão certo como os vendedores de bolas de Berlim, numa praia algarvia, em agosto, a controvérsia acaba por aparecer. A “silly season” – “época parva” das notícias que marcam a atualidade – com uma pontualidade digna de um relógio de cuco suíço, instalou-se.
É, pois, um sentido bizarro que perpassa, o desta expressão da língua inglesa, que permanece no nosso imaginário coletivo e que se confunde com uma estação apática em que praticamente nada acontece, exceto banhos de praia e festas mundanas, para que daí saiamos revigorados e regressemos a atividades mais edificantes.
Em plena silly season, vem-me à memória uma tira de banda desenhada do brilhante cartoonista Quino, em que a famosa personagem Mafaldinha está numa praia, rodeada de gente. Observa as pessoas, à sua volta, e o cartoon termina com ela a dizer para si própria: “é curioso ver as pessoas de férias... é como se ninguém tivesse culpa de nada.”
Após esta estação, incontornável, espero que voltemos às nossas atividades, menos “silly”, não sem antes esvaziarmos os bolsos de areia, sacudirmos o sal das toalhas, e fortalecidos regressarmos ao lar, aos nossos empregos, aos estabelecimentos escolares, a uma vida mais construtiva com debates e abordagens, aos grandes temas que nos preocupam, de forma mais interessada e ativa. Ou tentamos que assim seja, até à próxima estação tola.

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