“Que um povo de escravos folgue indiferente ou durma o sono solto enquanto em cima se forjam as algemas servis, enquanto sobre o seu mesmo peito, como em bigorna insensível se bate a espada que lho há-de trespassar, é triste, mas compreende-se porque esse sono é o da abjecção e da ignomínia. Mas quando é livre esse povo, quando a paz lhe é ainda convalescença para as feridas ganhadas em defesa dessa liberdade, quando começa a ter consciência de si e da sua soberania... que então, como tomado de vertigem, desvie os olhos do norte que tanto lhe custara a avistar e deixe correr indiferente a sabor do vento e da onda o navio que tanto risco lhe dera a lançar do porto; para esse povo é como de morte este sintoma, porque é o olvido da ideia que há pouco ainda lhe custara tanto suor tinto com tanto sangue, porque é renegar da bandeira da sua fé, porque é uma nação apóstata da religião das nações - a liberdade!"
Antero de Quental em Prosas da Época de Coimbra.
Aconteceu recentemente em São Miguel a sexta convenção do Bloco de Esquerda/Açores, com uma única moção de orientação global para a liderança regional apresentada a votos, indicando António Lima como novo coordenador deste partido na região. O biólogo/geólogo micaelense trás frescura e juventude à liderança bloquista, assinalando bem o mar, como desígnio dos Açores. Nas notícias sobre a convenção o anúncio de Zuraida Soares, actual coordenadora e ilustre deputada:
"Vou sair de todos os órgãos dirigentes do BE e ao mesmo tempo de deputada do Bloco de Esquerda da Assembleia Regional, em Setembro, mas há uma coisa de que eu não vou sair: eu não vou sair do Bloco de Esquerda e eu não vou sair dos Açores e eu não vou sair de nenhuma luta. Aqui continuarei."
E continuará com toda a certeza. Deu um contributo histórico para a afirmação da democracia nos Açores, marcou o parlamento regional com o seu empenho e bravura na luta política. Deixa um resultado eleitoral difícil de igualar pelo seu sucessor, particularmente no Faial. As últimas eleições legislativas regionais dos Açores foram as melhores de sempre para o Bloco de Esquerda com um total de 3.410 votos nas 9 ilhas, elegendo dois deputados: Zuraida Soares, pelo círculo de São Miguel, e Paulo Mendes pelo Círculo de Compensação. O Bloco conseguiu assim duplicar o número de deputados e criar um grupo parlamentar. O Faial contribuiu decisivamente para este resultado com 422 votos representando 6,44% dos votos expressos, é a ilha com maior percentagem de votos no BE e onde se observou o seu maior crescimento no país. Zuraida Soares coordenou o Bloco de Esquerda/Açores entre 2004 e 2014, cargo que ocupava actualmente, desde Julho de 2016 quando se anunciou o seu regresso à liderança, substituindo Lúcia Arruda. Testemunhei esse regresso, fui convidado e tomei parte nessa outra convenção, a anterior, do BE Açores. Aqui deixo, para memória presente e futura, o que há dois anos atrás, meses antes das eleições regionais, ali comuniquei.
Disse:
“Agradeço ao Bloco de Esquerda a oportunidade de aqui estar e o convite formulado para convosco “fazer a diferença”*. Não é a primeira vez que estamos juntos nestas lutas eleitorais e vou confessar-vos que a minha abordagem a eleições tem sido um pouco como a daquele candidato que só desiste se for eleito. Nas autárquicas vivi assim a experiência com tranquilidade mas, desta vez, depois de tudo o que vi e ouvi aqui, estou seriamente preocupado. Corremos o risco de eleger mais deputados. Vim a esta convenção do Bloco em São Miguel, não tenho voto aqui, estou mais para ouvir e não tanto para falar mas, como insistem, acho por bem, em jeito de provocação, partilhar convosco as palavras de John Osvald, um pensador inglês do século XVIII, num livro de "achas revolucionárias" que por acaso trago comigo. Também sobre o ser candidato pelo Faial, representante desta ilha, para acompanhar a Zuraida na sua missão à assembleia legislativa regional. No dizer dele tudo isto:
""(...) parece-se muito com aquele estado de coisas fantasma em que os poetas nos pintam a morada dos defuntos nos Campos Elísios, onde as sombras sem substância iludem os olhares.”
Confesso que nunca pude reflectir sobre o sistema de representação sem me espantar com a credulidade, quase diria estupidez, com que o espírito humano engole os absurdos mais palpáveis. Se alguém propusesse seriamente que a nação mijasse por procuração, apelidá-lo-iam de louco e, no entanto, pensar por procuração é uma proposta que entendem, não só sem se espantarem, mas até a acolhendo com entusiasmo. Não seríamos capazes de desempenhar por outros as funções mais baixas da existência animal, estará então no nosso poder exercer por outros as funções mais nobres da existência?
Mas o facto é que, entretanto, embora nos seja impossível pensar por outros, amar por outros, beber e comer por outros, o hábito de delegar noutros a tarefa de pensar por nós fez-nos insensivelmente desaprender por completo de pensar: e isto responde maravilhosamente bem à intenção caritativa daqueles senhores que querem poupar-nos o esforço de pensar por nós próprios. E eis o grande segredo da representação!
Numa palavra, a representação é o véu ilusório à sombra do qual se introduziram todos os géneros de despotismo, à sombra do qual se consumaram todas as fraudes políticas. Um só homem, uma só classe de homens, não seria capaz de ter autoridade suficiente para subjugar a opinião e dominar os seus concidadãos: assim, é sempre em nome de uma qualquer autoridade, de quem os impostores políticos se dizem representantes, que eles levam a cabo os seus desígnios. Um faz os ouvintes imbecis acreditar que tem uma missão da lua, outro, fazendo-se passar por representante do sol, seduz até à cegueira os seus fracos concidadãos. Moisés, na qualidade de representante de um monstro meio-deus, meio-diabo, fez os escravos do Egipto atravessar o deserto e o pontífice da Roma moderna, como lugar tenente de um pobre pescador desmiolado de Jerusalém morto há muitos séculos, manda as almas dos defuntos para o inferno ou para o paraíso a bel-prazer de sua santidade.
Mas de todas as imposturas deste género a mais plausível e a que ao mesmo tempo resulta melhor é o pretexto de representar o povo. O sistema representativo faz-me lembrar os curandeiros dum povoado indiano que receitam a dança para todas as doenças, se o doente não pode dançar dançam eles por ele, afirmam que o efeito é o mesmo. A representação está sempre disposta a dançar pelo seu paciente, o povo, que não pode dançar ele mesmo e tudo quanto pede é que paguem as violas. E foi assim que a representação se apoderou da coisa, que a sombra engoliu a substância, que o governo foi separado da base e o ser político é obrigado a andar sobre a própria cabeça.”
* "Fazer a diferença" foi o slogan do BE nas eleições regionais de 2016.

Local do suicídio de Antero de Quental junto ao Convento de Nossa Senhora da Esperança em Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel.