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24
agosto

Da Graciosa, com afecto

Escrito por  Victor Rui Dores
Publicado em Victor Rui Dores
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Dou-me lindamente bem com o remanso destes dias passados na minha Graciosa ilha. E não há dinheiro que pague esta luz do fim da tarde, este sossego serenado…
Nesta ilha, de 61 Km2, tudo são planuras, montes arredondados cobertos de árvores, campos de cultivo, vinhas entre paredes de pedra negra e vastas pastagens… “Ilha branca” lhe chamaram dada a predominância de traquito, rocha que, vista ao longe, terá dado a impressão de ser branca aos olhos dos primeiros povoadores que a ela aportaram no século XV. Daí a sua toponímia: Barro Branco, Pedras Brancas, Serra Branca.
E é precisamente da Serra Branca que, na companhia de familiares e amigos, avisto o mar a toda à volta da ilha. Apossa-se de nós uma impressão de frescura, de volúpia, uma serenidade melancólica que pacifica o espírito. O conceito de Natureza intacta e em estado puro aplica-se aqui às mil maravilhas. Possuindo um riquíssimo ecossistema, a Graciosa é, desde 2007, Reserva da Biosfera declarada pela UNESCO.
Com tempo e disponibilidade, regalamos e arregalamos os olhos ante a assombrosa cratera do antigo vulcão que deu origem à ilha. Não nos ficamos por Júlio Verne e decidimos fazer uma “viagem ao centro da terra”, apreciando a inquietante beleza da Furna do Enxofre (a maior cúpula vulcânica da Europa), fenómeno vulcanológico raro e geologicamente único no mundo. (“Vulva vulcânica” lhe chamei eu num poema). Grandeza tamanha para uma ilha tão pequena.
Depois subimos à Furna da Maria Encantada (segundo a lenda, a graciosense que, fugindo às lúbricas intenções dos piratas, ali se foi esconder) e todo este vulcanismo me parece etéreo e irreal.
Mais a sul é inevitável banhar o corpo na piscina natural do Carapacho, local onde se faz termalismo de excelência. E após um mergulho rápido na plácida baía da Praia, é tempo de abundante repasto, no restaurante ali defronte, de cracas e cavaco, seguido de queijadas, meloas (as mais doces dos Açores) e a inevitável andaia (bebida licorosa exclusiva da Graciosa e que, diz-se, possui propriedade afrodisíacas…).
E já estamos em Santa Cruz, onde feliz decorreu a minha infância. Deambulamos pelas suas ruas desafogadas e apreciamos o traçado harmonioso da vila: as suas casas solarengas e senhoriais, os dois pauis (que espelham quietude), a Praça (salão de visitas da vila), com as suas araucárias metrosíderos e ulmeiros que oferecem beleza e frescura. Entramos na Igreja Matriz (com vestígios da época manuelina) e detemo-nos junto dos famosos Painéis Quinhentistas. Apesar das suas pequenas dimensões, a Graciosa possui um rico património religiosos: 10 igrejas e 16 ermidas.
Subimos ao Monte da Ajuda e acode-me à memória que foi ali que, em 1969, vi televisão pela primeira vez, e logo para assistir aos primeiros passos de Neil Armstrong em solo lunar.
Mas uma ilha é também feita de gente. E os graciosenses têm a candura e a generosidade dos ilhéus acolhedores e hospitaleiros, pois que aprenderam com os terceirenses a serem festivos e festeiros. Mas há aspectos em que a Graciosa marca a diferença: os animadíssimos bailes de salão; um Carnaval que é caso único em Portugal, já que ali tem a duração de três meses e não de três dias; uma onomástica sui generis; uma forte tradição pianística (150 pianos para uma população de pouco mais de 4.000 habitantes); uma praça de toiros situada na cratera de um vulcão, caso único no mundo. De resto a Graciosa é hoje a capital dos Açores no que à fotografia subaquática diz respeito; o município de Santa Cruz lidera o ranking, a nível nacional, de recolha selectiva de papel e cartão; a ilha está a dar passos decisivos no ecoturismo, na agricultura biológica e nas energias renováveis.
Espreito, no monitor da máquina fotográfica, as imagens que vou captando em catadupa: os vistosos moinhos de vento, as freguesias do Guadalupe e da Luz, as recortadas baías do Filipe e da Folga, os ilhéus da Praia e do Carapacho, o Porto Afonso, a beleza petrificada do Ilhéu da Baleia, a limpidez do céu e a transparência do mar…
E toda esta beleza nos entra pelos olhos dentro. E, ao descermos à Furna do Abel, é como se partíssemos em busca do pote de ouro para lá do arco-íris.
Por mais uns dias andarei por aqui, sentado à beira da minha amada, e sempre gloriosa e graciosa ilha.

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