Há uns anos, durante uma entrevista que tinha como fundo temáticas religiosas, só consegui explicar à jornalista (claramente ateia) o significado de pertencer à Igreja quando a comparei com uma família. Tal como uma família, a fé não se escolhe e a nossa comunidade é uma parte de nós, da qual não nos conseguimos desligar, nem pela distância nem mesmo que ela seja a causa de questionarmos a nossa fé.
Ultimamente tenho-me lembrado várias vezes desse episódio, ao ouvir as notícias sobre a intenção de criação de um novo partido, que tem resultado em vários comentários de militantes do já existente, dizendo, entre outras reacções, que a pertença a um partido político é como a pertença a uma família, da qual não se podem simplesmente desligar e a quem devem fidelidade.
Ora, permitam-me descordar. Pertencer a uma religião é (e deve ser) comparável a uma ligação familiar, dado a espiritualidade e a fé, tal como a afectividade, fazerem parte da esfera íntima de cada um (desde o momento que essa vivência não seja impingida a ninguém, como, infelizmente, sempre aconteceu e continua a acontecer). Pertencer a um clube desportivo ou a qualquer associação recreativa pode ter uma dimensão de pertença semelhante, algo saudável se se tratar de um “vestir de camisola” (também nada dos extremismos desportivos que frequentemente se assistem). Já pertencer a uma organização política, tal como a alguma de cariz social, devendo em qualquer dos casos existir uma fidelidade institucional e um “vestir de camisola” necessário ao seu bom funcionamento, não deve ter um sentido de pertença que em algum momento ou de alguma forma sobreponha a instituição ou os seus membros aos objectivos que defende, pois, ao contrário de uma associação recreativa ou desportiva, cujas actividades constituem um fim em si mesmo, um partido existe para servir a sociedade, não os seus afiliados. Quando se cai no sentido exagerado de pertença ao grupo, o seu interesse e defesa acabam por se sobrepor aos interesses gerais que esse grupo existe para defender. Por isso acho preocupante ouvir políticos a declarar a sua fidelidade inalterável e cega a um partido, pois é isso que leva a situações como políticos serem acerrimamente defendidos pelos respectivos partidos em primeira instância (antes de se apurar se são ou não responsáveis pelo que lhes é imputado) ou haver autarcas e deputados que defendem o governo do mesmo partido com toda a calma, mesmo em matérias em que o seu grupo eleitoral esteja claramente mal defendido ou prejudicado.
Uma das fontes deste problema sofre do mesmo mal. É comum ainda encontrarem-se pessoas que batem com a mão no peito pelo partido (seja ele qual for), dizendo com toda a calma que votaram, votam e votarão no partido, mesmo reconhecendo que está mal dirigido ou que o candidato em quem votam é incompetente ou inadequado. Curiosamente, são muitas dessas pessoas que ouvimos depois a queixarem-se das políticas dos candidatos que apoiaram.
São todos como o moinho, andam à roda, fica tudo na mesma, e pelo caminho o trigo vai moendo. E o joio também.
Fica a reflexão.
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Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o "Acordo Ortográfico" de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).