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07
setembro

Música clássica no Varadouro

Escrito por  Victor Rui Dores
Publicado em Victor Rui Dores
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Ainda não foi prestada a devida homenagem ao tenor austríaco Kurt Spanier, que escolheu o Varadouro para ali viver parte do ano. Durante a existência do (agora extinto) Conservatório Regional da Horta, a Kurt se ficaram a dever dinâmicas musicais determinantes, tendo criado a orquestra Horta Camerata. E é ele que, durante os últimos 19 anos, tem sido o responsável pela direcção musical e artística dos concertos musicais realizados, de forma ininterrupta, na ermida de Nossa Senhora da Saúde daquele aprazível lugar. Recorde-se ainda que foi o carisma deste cantor que colocou o Faial no mapa da alta-roda da música europeia e mundial, já que a reputadíssima revista musical “Der Neue Merker” publicou, por mais de uma vez, textos bastante elogiosos sobre os concertos da Horta Camerata, ilustrados com (belas) fotos da nossa “ilha azul”.
A música propicia um diálogo entre os sentidos e valoriza as nossas relações com a autenticidade das coisas. Bem vistas as coisas, não há uma música dita clássica por oposição a uma música dita contemporânea. As fronteiras que podem separar a música são a da qualidade, pois, independentemente do carácter subjectivo dos julgamentos qualitativos, há que considerar que apenas existe música boa e música má, e tudo o resto não passa de género ou de estilo.
No passado dia 30 de Agosto quem se deslocou à Ermida do Varadouro pôde escutar peças de um valor artístico inquestionável – num concerto, dividido em duas partes, que teve como pedra de toque a música de qualidade. Programa diversificado e repertório adequado numa viagem de quatro séculos de música clássica: Foram interpretadas peças dos seguintes compositores: Jean Baptiste Loeillet (1653-1728), Alessandro Marcello (1673-1747), Johann Christian Bach (1735-1782), Franz Schubert (1797-1828), Cesar Frank (1822-1890), Isaac Albéniz (1860-1909), Claude Debussy (1862-1918), Joaquin Turina (1882-1949), Moritz Moszkowski (1854-1925) e Pietro Mascagni (1863-1945).
Em música não há acompanhamento – há diálogo e partilha. E foi muito interessante a maneira como esse diálogo e essa partilha se fizeram ouvir e sentir durante o concerto perante uma assistência atenta e interessada que ocupava o interior e exterior da referida Ermida.
A organizar, a cantar e a dirigir, Kurt Spanier mantém o objetivo que traçou há mais de duas décadas: trazer até nós músicos e cantores convidados com méritos sobejamente reconhecidos, e aliar a experiência à juventude, ou seja, colocar lado a lado, artistas com carreiras firmadas com jovens talentos açorianos emergentes. E que bom e que bonito foi ver, pela primeira vez, Marcello Guarini (piano e cravo) num mano a mano público com sua filha Giulia Guarini (violino): ele tocando com grande brilhantismo, ela, sereníssima, revelando firmeza e segurança.
Perfeito equilíbrio dos instrumentos. A violoncelista Natália Bauer esteve irrepreensível, com particular destaque para a (virtuosa) interpretação de Bach. (O violoncelo é o prolongamento do seu corpo). Tiago Marques (oboé) deu expressividade interpretativa às peças que lhe couberam em sorte.
Ainda que septuagenário, o incontornável Kurt Spanier mantém ainda um timbre invejável, cantando e encantando o público de forma muito expressiva, fazendo-se valer da muita técnica que foi adquirindo ao longo de uma carreira plena de êxitos.
Uma noite musical de grande nível na Ermida de Nossa Senhora da Saúde, no Varadouro. Um concerto em que a soma das partes enriqueceu o todo. Através dos sons e dos silêncios, souberam os músicos interpretar sentimentos, emoções e estados de alma. Os deles e os nossos.
Viva a Música e haja saúde!

 

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