“Viajar pelo deserto é navegar.”
Ruy Duarte de Carvalho, em “Como se o mundo não tivesse Leste"
Tenho um apreço especial pelos correios, não só por minha mãe ter ai trabalhado durante muitos anos, mas porque sinto um fascínio romântico por cartas, aquelas escritas à mão em papel e que se enviam dentro de um envelope com selos, indicação do remetente e endereço do destinatário. Nos dias de agora com o advento e afirmação do email, da internet e das redes sociais a maioria de nós talvez as considere arcaicas ou fora de moda mas confesso que para mim elas continuam a ter um espaço especial e ajudam a espevitar a memória quando vamos ao baú e as reencontramos, por vezes sem esperar. Até parece que falo de cartas de amor, essas terão um lugar ainda mais junto ao coração de quem ama, mesmo o Pessoa dizendo que “todas as cartas de amor são ridículas”. Também de sentimentos “ridículos” se faz a pessoa e são frequentemente esses os mais belos e genuínos. Não foram, ainda assim, apenas cartas de amor que motivaram este sentimento agora. Há dias em que a simples chegada do carteiro nos trás uma alegria inusitada e este foi um desses dias pois finalmente recebi, enviados à cobrança por um amigo alfarrabista em Lisboa, uns livros que estavam esgotados nas livrarias e que buscava há anos. O “Costa dos Esqueletos” de Rogério Amorim*, um relato na primeira pessoa de um dos participantes na fuga de portugueses do Namibe (antigo Moçamedes) para a Costa dos Esqueletos, o deserto mais antigo do mundo, durante as peripécias da descolonização em África. Duzentas pessoas, dezenas de carros ligeiros, jipes e camiões numa fuga desesperada de Angola. Tinham sido esquecidos. Fugiam para salvar a vida. No não muito distante ano de 1975, em plena guerra, homens, mulheres e crianças numa desesperada fuga por mais de oitocentos quilómetros no sudoeste africano, sem estradas, atravessando o deserto sem água nem comida, e o receio constante da perseguição. É o relato de um dos homens que passou por esta aventura e nos conta como tudo aconteceu, os perigos passados, as constantes avarias em veículos que não estavam preparados para aquele tipo de viagem. Espero poder nele encontrar mais alguma informação sobre o Ford abandonado que conversava comigo nas profundezas do deserto do Namibe.
Os outros dois livros são o “Manual das Mãos” e “Dos limões amarelos do falo às laranjas vermelhas da vulva” do Eduardo White cujo falecimento ainda não consegui digerir confesso, disse “falecimento” e não “morte” porque há pessoas que não morrem e o Dino era uma delas. Continua vivo, ensurdecedor, brilhante. Talvez a leitura destes dois livros dele, que ainda não conhecia, ajude. Neste exílio atlântico fazem particular falta os livros e a alienação que eles permitem. Procuro no verão, nas oportunidades de viagem, nos amigos em outras latitudes e continentes, ir acumulando os que bastem (e nunca bastam) para alimentar o espírito e enfrentar a bruma do inverno insular. Não sei se isso será coisa de cigarra ou coisa de formiga, talvez ambas. Há quem por esta altura mate porcos de forma a guardar provisões para o inverno que se avizinha e assegurar o reforço calórico e gorduroso ao corpo para enfrentar as agruras do isolamento, do frio e da chuva. Nunca tive jeito nem gosto para matar porcos...
* “Costa dos Esqueletos” de Rogério Amorim. Edições Europa-América na sua colecção ‘Aventuras e Viagens’.
DR
Ford abandonado no deserto do Namibe.