“Sim, em definitivo, é aos poetas, aos artistas, aos escritores, aos homens de cultura,
que remexendo na quotidianidade do sofrimento e da negação da justiça, nas recordações como nas esperanças que incumbe constituir essas grandes reservas de fé,
esses grandes silos de força donde os povos, nos momentos críticos retiram a coragem para se assumir e forçar o futuro.
Alguém disse que o escritor é um engenheiro de almas.
Nós, na conjuntura actual, somos propagadores de almas, multiplicadores de almas, em suma, inventores de almas.”
Aimé Cesaire
Repensar o ensino da História nas escolas e, em particular, a história das ex-colónias. Este é um dos desafios deixados pela Comissão Europeia contra o racismo e a Intolerância (ECRI) no relatório que divulgou a semana passada. No documento é deixado o desafio de rever a “narrativa da descoberta do novo mundo”. “As autoridade deveriam ainda melhorar os manuais escolares seguindo estas linhas de orientação e prosseguir e reforçar as medidas para sensibilizar a sociedade no seu todo para o racismo”*, pode ler-se no relatório.
Entretanto Lisboa sonha com um “Museu das Descobertas”. Deixemos de brincar com termos e significações. A colonização primeiro e depois a independência das ex-colónias foram conseguidas a ferro e fogo. Obriguemos-nos pelo menos ao respeito pela memória dos que deram a vida para por fim ao crime colonial que a “descoberta” dos outros engendrou. Salazar, seus serventes e agentes de propaganda, chamaram terroristas aos guerrilheiros combatentes dos movimentos de libertação, “turras”, omitindo convenientemente a semelhança (no que é essencial) da luta contra o colonialismo português com a resistência à ocupação estrangeira liderada por Viriato, o venerado guerrilheiro luso.
Objectivamente, é a verdade, a colonização consubstanciou um crime hediondo contra a humanidade. Um assalto à mão armada contra povos sem capacidade militar para se defenderem de adversários melhor equipados e dispostos ao uso da violência. A história do colonialismo é um registo sobre a submissão de povos inteiros, esbulhos de terras, apropriação indevida de recursos e de bens, genocídios, imposição de cultura, tráfico de seres humanos etc. Não há maneira de suavizar a percepção desse crime contra a humanidade. Ou se trata dele com objectividade ou será melhor que se calem e disfarcem como têm feito até aos dias que correm, até que a verdade se imponha, e vai acabar por impor-se. A maior glória dum país, seja qual for, não pode ter um crime secular com a dimensão do colonialismo como referência principal da sua história imperial, suavizada por adjectivos que o lavem.
Tratar com objectividade da “descoberta” dos outros, da violência com que os dominou e ocupou os seus territórios, assim como do saque dos seus recursos e da imposição cultural a que submeteu os “descobertos”, obriga a olhar com rigor o cadastro das potências coloniais. Isso, concretamente, será elaborar o próprio registo criminal enquanto país, que, pelos efeitos que ainda decorrem desse crime, se pode aferir que não cessou totalmente e que, também, jamais prescreverá, enquanto não for totalmente assumido pelo seu registo oficial e objectivo na história dos países que nele incorreram. As ex-colónias têm um registo histórico do domínio colonial e da luta de libertação. É o registo duma história comum que têm com as potenciais coloniais e que deve ser estudado por ambas enquanto parte da sua história.
Portanto a história do colonialismo, escrita nas línguas das potencias coloniais, está registada também na memória histórica das ex-colónias e acabará por ser lida pelas cidadãs e cidadãos das novas gerações dos países europeus que colonizaram territórios em África, na América e na Ásia. Percebo e digo a coisa colonial assim, mesmo se sou também descendente de colonos. É ao que obriga a objectividade da percepção e a honestidade que me impede de a retorcer. Ninguém pode ser culpado nem sentir-se culpado pelo que os seus ancestrais fizeram. Não se pode ser culpado mas também não se pode ter orgulho pelos crimes dos nossos antepassados. A verdade na descrição da tal de “descoberta” dos outros e de tudo o que esse encontro desencadeou, isso sim, constitui obrigação e responsabilidade das gerações dos dias que correm. Custa, bem sei, mas tem que ser totalmente assumido pelas “ex” potencias coloniais, para que, a prazo, possam reabilitar-se perante a humanidade e, especialmente, perante os povos que sofreram o crime colonial. De entre os países europeus, como bem sabemos, não é só Portugal que tem essa memória histórica.
* Relatório da ECRI sobre Portugal publicado em 2 de Outubro de 2018.
https://rm.coe.int/fifth-report-on-portugal-portuguese-translation-/16808de7db
Nota: A ilustração é de Pawel-Kuczynski e o texto, em grande medida, do amigo Luiz Araujo, ceramista, músico e activista social.
DR