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19
outubro

Retalhos da nossa história - 295 - Quando a Matriz da Horta se mudou para o majestoso Colégio dos Jesuítas

Escrito por  Fernando Faria
Publicado em Fernando Faria
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Fez ontem 193 anos que se efectuou a trasladação da Matriz da Horta da sua antiga e arruinada igreja para a do Colégio dos Jesuítas, que estava encerrada desde que Pombal expulsara os inacianos do Faial em 1860. Esta transferência deu-se precisamente a 20 de Outubro de 1825.
Fundada poucos anos após o povoamento, já Gaspar Frutuoso escrevia que “tem esta vila [da Horta] em um alto, a igreja principal, da advocação de São Salvador, muito fresca, de três naves, com seis colunas de cada banda”. Localizada na zona do actual Largo do Relógio, a primitiva Matriz deve ter sido construída nos primeiros anos do século XVI, já que se tem conhecimento de um alvará de 28 de Junho de 1514, em que o rei D. Manuel I mandou entregar uma série de alfaias e paramentos “para servirem na igreja do Salvador da ilha do Faial”1. Incendiada, em 29 de Setembro de 1597, pelos corsários do Conde Essex, que vandalizaram outros templos desta ilha, a Matriz foi reconstruída e reabriu ao culto em 20 de Dezembro de 1615. Os periódicos e violentos abalos sísmicos que são uma constante da nossa vivência, foram-na progressivamente arruinando, ao ponto de em finais do século XVIII se encontrar imprópria para o culto. Face ao deplorável estado em que se achava, diligenciaram as autoridades eclesiásticas e autárquicas junto de “El-rei a transferência definitiva da Matriz para a igreja dos extintos jesuítas”. Para tomar uma decisão devidamente fundamentada, D. João VI – que entretanto assumira a regência do Reino por incapacidade de sua mãe D. Maria I – “mandou ouvir o bispo, general e corregedor e em vista da informação destes concedeu a dita transferência por alvará de 5 de Março de 1810, mandando proceder às obras necessárias na nova igreja”.
Demorou a cumprir-se, porém, esta régia autorização. Por isso, em finais de 1819, tanto a colegiada da Matriz como a Câmara Municipal da Horta renovaram a sua pretensão para que se concretizasse a dita transferência. Nessa ocasião o Vigário da Matriz requereu “para a mesma igreja os ornamentos dos jesuítas, que em parte lhe foram concedidos e os restantes mandados ir para a Terceira, sendo a trasladação autorizada novamente”. Esta, porém, demoraria ainda mais cinco anos, que foram de grandes transformações em todo País, desencadeadas com a revolução liberal de 1820. Finalmente, a 20 de Outubro de 1825 realizou-se solenemente a mudança para a igreja do Colégio dos Jesuítas. Dessa cerimónia fez-se uma “memória” que tem a data de 31 desse mês e ano redigida pelo vigário Francisco Xavier da Silva, que a assinou conjuntamente com os beneficiados Manuel Jacinto de Melo e Neves, José Bernardo da Silva, Domingues Guterres Bracamont, José Matos Leal, Francisco Pereira Boim, Tomás Xavier de Sousa, Manuel José Ribeiro e António Silveira Boim e os curas João Vieira de Simas e Francisco de Sousa Machado.
Assinala esse documento que tomaram parte na imponente procissão as autoridades militares, o desembargador da comarca, o juiz de fora, o presidente e vereadores da Câmara, bem “como todo o clero das três freguesias desta vila e corporações religiosas dos conventos do Carmo, S. Francisco e Santo António”, e “toda a nobreza e povo desta vila”. O Santíssimo Sacramento foi trasladado na píxide pelo Vigário da Matriz e a imagem do Santíssimo Salvador, orago da paróquia, foi conduzida num andor por quatro sacerdotes. Após a chegada da procissão à nova Matriz, “a igreja que foi do colégio dos jesuítas expulsos”, e colocada a sagrada píxide num dossel preparado para o efeito sobre o altar-mor, o pároco subiu “ao púlpito e disse o que Deus foi servido inspirar-me sobre a presente acção, demonstrando as vantagens temporais e espirituais que nos advinham desta trasladação e representando a especial graça, que por esta rica como real doação nos havia feito o nosso Pio e Augusto Monarca o Sr. D. João VI, a qual fazia grata e amável a sua memória a todos os paroquianos desta Matriz, assim presentes como futuros”.
Após a homília, cantou-se o Te Deum em acção de graças, foi dada a bênção e recolhida a sagrada píxide no sacrário, “ficando todo o povo gostoso e satisfeito por ver substituída a sua antiga, escassa e arruinada Matriz por um templo situado no centro da freguesia, e o mais vasto, firme e majestoso que tem esta vila”.2 

 

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

 

1“Arquivo dos Açores”, vol. II, p.15
2A.L. Silveira Macedo, “História das Quatro Ilhas”, vol. II, pp. 433 e 434

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