FACTO HISTÓRICO DAS FLORES
(Continuação do n.º ????)
Embora os elementos característicos do navio divirjam nalguns autores, como referimos, o “Slavonia” era um grande e luxuoso paquete para o seu tempo. Sobre a quantidade de passageiros e de tripulantes existentes a bordo, os elementos da imprensa da época também não coincidem sempre entre os autores atrás mencionados, nem estes condizem em absoluto nas suas descrições sobre o acidente.
Para além do navio ter passado para terra alguns passageiros e respectivas bagagens, através de um cabo de vaivém, como estava muito bom tempo, vários deles foram sendo a pouco e pouco transportados para o porto da vila Lajes das Flores nos salva-vidas do próprio navio, auxiliados por algumas embarcações locais.
Também dali alguns foram embarcados para o navio “Princesa Irene” que, ao ter conhecimento do acidente por meio da radiotelegráfica ou T.S.F. (telegrafia sem fios) do navio – uma novidade moderna já então a funcionar nalguns paquetes da época – ali acorrera, apesar de estar a navegar a cerca de
Alexandre Monteiro escreve que “O comandante Dunning, abalado pela perda do navio – que comandava interinamente, visto ter pedido a reforma
É que nessa ocasião já teriam colaborado nos esforços frustrados para recuperação do navio, outros navios e rebocadores que compareceram no local do naufrágio, dando-se mais tarde o “Slavonia” como perdido.
Norberto Trigueiro, que entrevistou vários florentinos contemporâneos do naufrágio para o jornal “Correio da Horta”, afirma que de início “uma aragem fresca, soprando do mar, impediu que os passageiros fossem retirados em pequenas embarcações, passando-se então um cabo de vai vem para terra, por onde foram salvos, primeiro as mulheres e as crianças”. O cabo de vaivém terá essencialmente servido para recuperar cargas, especialmente bagagem.
Julgamos que ambas as versões estarão certas, uma vez que o salvamento dos passageiros e tripulantes, devido ao seu elevado número, deverá ter demorado bastante tempo a concluir-se, e o seu transporte do Lajedo para as Lajes ter-se-á feito por via marítima, dadas as dificuldades em fazê-lo por terra.
Depois de salvos todos os passageiros e tripulantes, foram recuperadas as bagagens, bem como muita da carga então existente nos porões do navio, com a ajuda das embarcações e navios que ali acorreram.
Os referidos náufragos enquanto permaneceram nas Flores ficaram instalados em casas particulares de famílias florentinas, designadamente na vila das Lajes, onde foram recebidos com grande hospitalidade.
3. Epílogos do naufrágio
Assim, dias depois, os restantes náufragos, passageiros e tripulantes, incluindo o respectivo comandante Arthur Dunning, embarcaram no paquete “Funchal”, da Empresa Insulana de Navegação, para a cidade de Ponta Delgada, para depois seguirem para os seus destinos. A bordo desse navio, que escalava as ilhas dos Açores do grupo central com regularidade, em reunião específica com tripulantes e passageiros, discursaram diversos oradores, com destaque para o comandante Capitão Carlos Vidinha, o Eng. Domingues Ventura Fernandes, do “Funchal”, e o Dr. Millor Erving, médico do “Slavonia”, que enalteceram a hospitalidade inconfundível do povo das Flores, designadamente do da vila das Lajes.
Na igreja Matriz da vila das Lajes há um cálice oferecido pelo então Papa Pio X, como reconhecimento pela hospitalidade dada naquela vila, gesto este que, para além de ser confirmado pelo lajedense Monsenhor Dr. Caetano Tomás, que refere que o viu quando era seminarista, está mencionado no trabalho de Félix Martins, como adiante se transcreve.
Francisco António Gomes escreve na obra abaixo citada que o navio “Botavia” e o rebocador inglês “Ranger” também prestaram auxílio ao “Slavonia”. Por sua vez, Norberto Trigueiro, para além de referir que o rebocador “Ranger” saíu da Horta para esse efeito, regista que de Ponta Delgada se deslocaram para as Flores, em auxílio do “Slavonia”, os rebocadores “Condor” e “Bérrio”, que ajudaram na recuperação das cargas. Félix Martins confirma essas ajudas, bem como a do navio “Funchal” que acima referimos, pelo que, durante esses dias, o movimento de navegação na ilha das Flores deverá ter sido intenso.
Apesar de ter aberto água em diversos locais, o navio acabou por permanecer à superfície durante alguns dias, no mar visivelmente limpo, entre a rocha da ilha e a ponta leste da Baixa, como consta de fotografias que ilustram o referido documento da Guarda-Fiscal e o trabalho de Alexandre Monteiro. Passados alguns tempo, devido ao vento forte do Oeste, o “Slavonia” afundava-se, ficando a uns
(Continua)