Andava eu no Ciclo Preparatório, no início da década de 70 do século passado, e éramos obrigados a frequentar o Orfeão da Escola. Às quartas-feiras à tarde, lá íamos para a Sala de Canto Coral, quais meninos do coro, cantarmos umas estrofes para conhecermos a voz que integraríamos no Orfeão. E, depois, já no Ginásio Masculino, eram os ensaios em que eu nunca tive de participar porque a minha voz, a minha afinação e o meu timbre não cabiam nos padrões musicais requeridos!
Com o 25 de abril, acabou-se o Orfeão obrigatório. E o treino para meninos do coro desapareceu do ensino público.
Mas persiste em muita gente (e até, paradoxalmente, em muita gente jovem) a mentalidade do “menino do coro”, sempre afinado, pronto a dizer e a repetir os acordes ditados pelo maestro.
E um dos campos onde se instalou essa mentalidade, como um vírus multirresistente, foi nos partidos políticos: quem não está comigo, é contra mim! Quem pensa diferente é meu adversário! Quem reflete outras opiniões é visto como uma espécie rara, tolerado umas vezes, proscrito noutras.
Por isso, pululam, nos partidos, nuns mais do que noutros, os carreiristas. Pululam e vingam. São os “yes men”, os que aos chefes dizem sempre sim. Os que estão sempre prontos a colocar os interesses das suas lideranças à frente dos interesses dos cidadãos e das comunidades que representam. São os “meninos do coro” dos nossos dias: não têm maestros: têm líderes!
Uma das mais recentes manifestações do síndrome do “menino do coro” foi a notícia de que a proposta de Orçamento de Estado (OE) para 2019 inseria uma medida relativa ao aeroporto da Horta e que diz textualmente o seguinte: “Artigo 59º - Aeroporto da Horta – O Governo promove os procedimentos necessários para a viabilização da antecipação da ampliação da pista do aeroporto da Horta, de modo a garantir a sua certificação enquanto aeroporto internacional, de acordo com as normas da Agência Europeia para a Segurança da Aviação”.
Como se pode constatar, tal artigo do OE começa com uma enorme ambiguidade: “procedimentos necessários para a viabilização da antecipação” – preto no branco, o que é isto? Que procedimentos são esses concretamente? E, depois, como se pode referir a antecipação de uma ampliação quando esta nunca esteve decidida, isto é, como se vai antecipar algo que nunca foi assumido? Mais: o que tem, neste contexto, a ampliação da pista a ver com a certificação do aeroporto da Horta como aeroporto internacional, quando, neste momento, sem ter sido ampliado, ele já é detentor dessa certificação? Mais: qual o objetivo de expressamente se remeter para as normas da AESA, quando estas, no caso do nosso aeroporto, se referem à questão das RESA (Runway End Safety Area), cuja construção até já está assumida pela ANA-Vinci? E finalmente: qual é, a verba que está inscrita no OE para esse artigo 59º?
Ora, os “meninos de coro” dos nossos dias, não dando resposta convincente a nenhuma destas questões, e só sabendo o que nós sabemos quando lemos o dito artigo, aprimoraram as suas vozes de barítonos, tenores e baixos e lançaram-se a cantar, antes do tempo, loas a esta grande conquista!
Sim, porque para o ano há eleições! Sim, porque o poder quer-se manter! Sim, porque a ampliação da pista da Horta é eleitoralmente um trunfo decisivo no Faial! Sim, porque se já se prometeu e não se cumpriu que “se a ANA e o Governo da República não procederem à ampliação da pista do aeroporto da Horta, o Governo Regional a eles se substituirá”, prometer, agora, aos faialenses “os procedimentos necessários para a viabilização da antecipação da ampliação da pista do aeroporto da Horta” é, convenhamos, bem menos claro e bem menos comprometedor!
E sim, porque continua a valer tudo para alguns personagens que andam na nossa política…
Objetivamente, é bem melhor constar do Orçamento de Estado aquilo que lá está, do que nada ter! Mas fazer daquelas generalidades, das quais mais nada se conhece, motivo para o inusitado, excessivo e pacóvio gáudio a que temos, com perplexidade, assistido, só mesmo de “meninos do coro” …
Avisado mesmo parece-me ser aguardar-se para conhecer os próximos desenvolvimentos. E, só depois, aplaudir…ou assobiar!
28.10.2018