Eu pertenço a uma geração que não teve o amplo poder de escolha em matéria de leitura infantil, de que hoje os mais novos beneficiam. A produção de livros para crianças não era então abundante, nem particularmente atraente do ponto de vista gráfico. Antes poderia dizer-se que a sua apresentação era sóbria, se não fosse excessivamente pesado classificá-la de austera.
Era o tempo dos livros “aprovados oficialmente” e patrioticamente visados pela censura do Estado Novo (de má memória). Mesmo assim, vivendo nos estreitos limites da minha Graciosa ilha, valeu-me o serviço de bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian que muito contribuiu, através do empréstimo gratuito de livros transportados em cinzentas carrinhas Citroën HY (de boa memória), para a promoção da leitura, num tempo em que o nosso país vivia entre parêntesis e a preto e branco…
Os tempos mudaram, as tecnologias desenvolveram-se e hoje os livros destinados aos mais novos possuem um outro apuro técnico e uma outra qualidade gráfica. É o caso do livro Bennu (APADIF, Horta, 2018) que acabo de ler com doçura enternecida. A sua autora é a faialense Sara Porto, minha ex-aluna e ex-actriz, cuja escrita infanto-juvenil tem vindo a iluminar a sua vida. Recorde-se que ela é licenciada em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve, com pós graduação em Estudos Integrados dos Oceanos pela Univer-sidade dos Açores. Paralelamente, o apelo que sentiu desde cedo pelo yoga e pelas terapias naturais fê-la procurar e direccionar-se para estas áreas. Depois de uma estada na Índia, que a marcou particularmente, ingressou, durante dois anos, no Curso de Medicina Tradicional Chinesa. De regresso à Horta abriu o Centro Tulasi, onde exerce terapias naturais e é professora de yoga e reiki.
Em 2010 Sara Porto fez publicar o livro Finalmente Árvore (APADIF, Horta), uma fábula que dá conta de uma sementinha que cresce e se torna em frondosa árvore. Em 2011 deu à estampa Safira (APADIF, Horta), com um CD acoplado contendo a gravação da história tocante de uma menina, Safira, que desperta para o conhecimento do mundo ouvindo as sábias palavras de um velho e de Samuel, “um menino que não podia ver com os olhos” e a quem a miúda explica a beleza que há num arco-íris. Agora com Bennu, a ave que desejava chegar ao sol, completa-se uma trilogia, toda ela ilustrada por utentes da APADIF que, com os seus desenhos de grande beleza plástica e fascínio encantatório, dão sentido, estética e autenticidade às narrativas dos referidos livros.
Escrever histórias, contar histórias constitui factor decisivo tanto na educação estética da criança, como na ampliação e no enquadramento dos inúmeros apelos do seu imaginário. Há evidência científica que prova e comprova que a educação pela arte constitui mais-valia e contributo decisivo na formação auditiva, psico-motora, intelectual e sócio-afectiva da criança.
Chamaria, a propósito, a atenção dos pais e encarregados de educação para a transmissão do gosto das palavras. Para que, deste modo, a criança adquira hábitos de leitura o mais cedo possível, experimentando mundos novos, sensações e sentimentos.
Numa altura em que assistimos, nas nossas Escolas, à desvalorização das Humanidades e da Cultura Literária, é fundamental que os pais contem histórias aos seus filhos. A fantasia e a imaginação são fundamentais no crescimento da criança. Escreveu Albert Einstein: “Se querem que os vossos filhos sejam inteligentes, leiam-lhes contos de fadas; se querem que os vossos filhos sejam muito inteligentes, leiam-lhes muitos contos de fadas”.
Nesta ordem de ideias, as histórias que são para crianças, destinam-se também aos adultos, ou à criança que existe dentro de cada adulto. E isto porque o sentido mágico das palavras não conhece idades. Sempre assim foi, desde as fábulas de Esopo (que viveu seis séculos antes de Cristo), passando por Fedro, La Fontaine, Daniel Defoë, Emílio Salgari, Júlio Verne, Robert Louis Stevenson, Lewis Carroll, entre muitos outros, até aos nossos dias.
Repito: fantasia e imaginação. Ao escrever Bennu, Sara Porto realizou um trabalho em que precisamente a fantasia e a imaginação têm um papel determinante. Trata-se de uma criação artística, capaz de provocar em nós as mais variadas emoções. Escrevendo histórias para crianças, Sara Porto torna o mundo mais belo, porque uma obra de arte, uma vez feita, constitui beleza objectiva, beleza acrescentada à que há no mundo. E, podem crer, só pode haver nisto uma grande dose de amor e de generosidade.
Por isso, e contrariamente ao que muitos julgam, a literatura infantil não é um género menor. Autores consagrados como Afonso Lopes Vieira, João de Barros, António Sérgio, Jaime Cortesão, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Alves Redol, Adolfo Simões Müller e Sophia de Mello Breyner demonstraram a vitalidade da literatura destinada aos mais novos. Autores contemporâneos como Matilde Rosa Araújo, José Jorge Letria, Maria Alberta Meneres, Alice Vieira, Luísa Dacosta, Ana Maria Magalhães, Isabel Alçada, José Fanha, Alexandre Honrado, Sónia Sousa, entre outros, continuam a reivindicar uma maior atenção à literatura infantil e juvenil.
Mergulhando no universo prodigioso da fábula, Bennu possui claros propósitos ecológicos e óbvias preocupações pedagógicas, didácticas e ambientais. A ação situa-se numa Floresta remota, onde o Homem nunca tinha entrado e vários animais viviam harmoniosamente…
O livro tem como protagonista a ave Bennu, que olha o mundo lá de cima e para quem não há impossíveis, pois o seu desejo maior é o de chegar ao sol (apesar de o astro-rei se encontrar a 149 milhões e 600 mil quilómetros de distância do planeta Terra). Bennu, que gosta de ver o que não existe, tem Hamsa, também ave, como sua melhor amiga. E depois há uma Árvore que canta (Árvore das Canções) e uma Coruja que fala por aforismos… E há o Jogo das Miragens e a procura de tesouros…
Bennu quer alcançar o sol, mas tem dificuldade em se orientar e não faz a mínima ideia como vai lá chegar. A sua aventura revela, afinal de contas, o lado humano dos sentimentos, dos afectos e das emoções. Ou seja, esta é uma história, muito bela e envolvente, sobre a condição humana.
Saudemos, pois, mais esta concretização editorial de Sara Porto, ela que, com sensibilidade e imaginação criadora, continua a acreditar nos sonhos que transformam o mundo.