Apesar do céu estrelado, o mar chocalhava na baía de Porto Pim. Na rua do Castelo, àquela hora tardia, batiam as ondas contra o muro e os tacões das minhas botas no passeio. A luz de um carro descia o monte, do outro lado da baía.
Eu trazia o casaco de inverno, mesmo não sendo preciso. Nesta quadra, a ilha só arrefece por consideração ao espírito natalício dos que cá moram, e eu estava muito aconchegada por dentro. Tinha-me aquecido o jantar de onde estivera, em casa da Gina Macedo, cheio daquilo que se espera do Natal: amigos, alegria, calor, boa comida e bebida, abraços, gargalhadas. Vinha a recordar o serão com carinho e a pensar na pena que tinha de ter que acordar hoje cedo para uma aula. A rua, deserta. Poder atravessar a noite a pensar no que se quiser é uma bênção dos países em paz. O Natal tem a ver com isto.
Dos lados da praia, a seguir ao Portão de Porto Pim, surge vida. Um grupo animado de duas, três pessoas. Olho melhor, à distância. Conto três. São homens, estão animados, seguros de si. Numa noite normal eu seguia o meu caminho e eles o deles e isto nunca iria virar conto nenhum. Mas já estamos quase no Natal e por isso tudo tem um teor diferente. Passo pelo grupo, eu do outro lado da estrada, não vejo quem são. Já estou quase de costas quando oiço um cumprimento: “Boa noite, Aurora”. Aí viro-me, reconheço a cara. Digo olá e peço desculpa por não o ter reconhecido. Entretanto, reparo melhor nos seus companheiros: conheço um e também conheço o outro. Afinal conhecia os três, todos boa gente. Peço desculpa pela minha distração, digo boa noite, pergunto se está tudo bem. Está. Depois continuo a andar.
Mas vou a pensar. Sei perfeitamente porque é que não os reconheci e que não foi por distração. Passei a dois metros das únicas almas vivas daquela noite, como poderia não ter visto quem eram? Olho para o relógio, é uma e meia da manhã. Revejo mentalmente a cena, com pormenor, e aquilo que se passou na camada semi-inconsciente do meu pensamento: eu ia na rua deserta e vi um grupo de pessoas. Percebi que eram homens, três homens na força da idade. Notei a sua energia animada, a confiança e o espírito de grupo. Mesmo que nunca ninguém mo tivesse dito, a experiência ensina que, a meio da noite, para evitar chatices de qualquer ordem, o mais simples num caso destes é não olhar, seguir em frente, fingir que nem vimos ninguém. É uma forma de, com sorte, nenhum deles dizer nada, e com um pouco menos de sorte serem só ligeiramente insolentes. Nós então fingimos que somos surdas e, geralmente, numa terra assim pacífica, fica tudo por aí.
Ponho então a hipótese: se ele tivesse dito só “Boa noite”, sem o meu nome à frente, eu nem me tinha virado. E se não me tivesse virado e visto que os conhecia a todos e não tivesse sentido o dever de pedir desculpa, eu tinha ido para casa sem ter reparado numa coisa que é importante. É que quando contava hoje de manhã a amigos este pequeno encontro, um deles, homem, diz-me que só passaria por eles sem olhar se tivessem ar de bandidos. Não tinham. Tinham ar de homens, só isso. E, no entanto, sei que qualquer amiga minha faria o mesmo que eu fiz. Fica então claro que apesar de o nosso país em paz permitir às mulheres andar na rua a pensarem no que quiserem, ainda pensamos que qualquer homem pode ser um bandido, sobretudo à noite, mesmo que seja uma noite cheia de espírito natalício. O conto termina aqui, a mensagem era só esta. Feliz Natal a todos e paz na terra aos homens de boa vontade.
Aurora Ribeiro