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08
fevereiro

Fortuna Escorregadia – sobre um documentário exibido na RTP 1

Escrito por  Francisco Henriques
Publicado em Artigos de opinião
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Fortuna Escorregadia é o nome de um novo documentário sobre o final da baleação nos Açores. O título foi inspirado noutro filme, Barbed Waters (1968), onde surgem muitos baleeiros faialenses, com o mestre José Rufino à proa e a voz de Orson Welles na narração. O famoso Orson Welles que, em 1956, participou no filme Moby Dick, de John Houston, vestido com a batina do padre Mapple no célebre sermão aos baleeiros, em New Bedford.
Neste documentário, realizado por Sandra Cristina Sousa, trata-se da baleação como uma riqueza fugidia, que escapou às ilhas há trinta anos, desvanecida em alguns mitos. Porque é que a baleação terminou nos Açores? Já não havia mais cachalotes? Podia ter continuado, ou a ruptura era inevitável? O documentário levanta hipóteses de investigação e procura escutar, com justiça, as várias partes – os baleeiros, antigos dirigentes políticos e novos empresários do ecoturismo.
Se a baleação tivesse continuado, não sabemos quais seriam as consequências ecológicas. Nos anos cinquenta, o biólogo Robert Clarke defendeu que a caça artesanal não colocaria em risco as populações de cachalote nos Açores. Mas, na década seguinte, os armadores açorianos começaram a denunciar as reduções espontâneas das capturas, enquanto a caça crescia muito noutras paragens do globo com as frotas da União Soviética.
Porém, mais importante do que a evolução das capturas internacionais, foi a proibição do consumo de produtos baleeiros. Em 1973, a Inglaterra deixou de importar óleos de cachalote, seguindo-se outros países europeus. As empresas regionais não conseguiram diversificar a produção. No meio deste processo, houve contrariedades que hoje nos deixam perplexos. Desvalorizados os óleos e farinhas, tornaram-se preciosos os dentes de cachalote, pagos a peso de ouro, como um fetiche decadente. Realidade que foi muito evidente, por exemplo, na ilha das Flores, no final dos anos setenta.
É necessário olhar para os recursos marinhos, mas também para os mercados, a política internacional e as pessoas... a baleação, na sua totalidade, dependeu de muitas forças e a diferentes ritmos. Quando a baleação foi proibida, já estava em extinção, mas o processo ainda é pouco conhecido.
Surgiramalternativas, como a pesca do atum, e um enorme fluxo migratório depois da erupção dos Capelinhos. Ainda assim, como disse recentemente o antropólogo João Carlos Lopes, os últimos baleeiros caçavam para manter viva a memória dos antepassados. E isto não é um misticismo insular. Sucedeu noutros tempos e noutras latitudes, como no Canadá. O ideal de continuidade com o passado é também o que move a dinâmica do património baleeiro.
De todas as entrevistas no documentário, destaca-se a de Vasco Garcia, eurodeputado que negociou o fim da caça no período de adesão à União Europeia. No seu depoimento explica como as organizações conservacionistas quiseram financiar a transição da caça à baleia para o turismo sustentável. Mas essa opção falhou, em 1987, com o protesto dos baleeiros das Lajes do Pico. A transição seria então iniciada por Serge Viallell ecom o apoio de João “Vigia”. É importante registar o precedente das ONG's internacionais nas políticas patrimoniais e turísticas que hoje são aceites por todos.
O final da baleação ajuda-nos a compreender o património baleeiro. A baleação insular teve sempre nos filmes – nas imagens em movimento – um fiel intérprete. O documentário está disponível no arquivo da RTP. 

Francisco Henriques
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