Na semana passada foi entregue na Assembleia, o Programa Regional para as Alterações Climáticas (PRAC) que o Governo Regional epilogou, onde prevê que o arquipélago registe temperaturas mais elevadas e tempestades mais frequentes até ao final do século.
Estabelecido pela Resolução do Conselho do Governo n.º 93/2014, de 28 de maio de 2014, foram necessários 5 anos para que o programa fosse elaborado e apresentado. Denota-se logo à partida a celeridade de resposta do GRA na mitigação do problema, asseverando que esta proposta é “ um instrumento essencial de planeamento das políticas públicas”.
Sem muita diplomacia da minha parte e depois da leitura integral, tenho que afirmar que esperou-se cinco anos para testemunharmos que foi um TRAQUE que pariu o PRAC.
O mesmo documento que contêm mensagens apocalípticas sobre as mudanças extremas que se irão sentir na nossa região, onde as projecções apontam para um aumento da temperatura entre 1,4 e 3,2 graus Celsius com consequências catastróficas para a fauna, flora e tecido social, ausenta-se inteiramente em sugerir o decréscimo no sector com a maior pegada carbónica - A indústria agro-pecuária. Até pelo contrário, nos cenários apresentados, o documento insinua uma preferência para um crescimento acentuado na fileira do leite e da carne para os últimos anos, mesmo que à data de hoje, 56% do solo ocupado são para os bovinos, seja para pastagens ou para culturas forrageiras, vulgo, a alimentação animal.
Ora, tendo em conta que as emissões de gases com efeito estufa nos Açores aumentaram 62% entre 1990 e 2014 e que a pecuária aumentou 74% na mesma janela temporal, será muito ingénuo não verificar a correlação e proporcionalidade evidente que, quantos mais bovinos existem mais emissões temos. Nem precisamos sequer de investigar , porque o próprio estudo assinala que 41% das emissões de gases na região são provenientes da agricultura. E todos sabemos que género de “agricultura” nós possuímos. Todavia, não sugerem nem o decréscimo da pecuária nem a reconversão do tipo de indústria que deve existir para o futuro emergente dos Açores. Preferem antes “sensibilizar a população” com informação sobre as alterações climáticas de forma académica e etérea, sem nenhum ou quase tipo de acção, passando por condutas tão risíveis como desligar a luz com maior frequência.
Comparando com os 18,6% de emissões de metano e 73% de dióxido de carbono (CO2) nos dados totais nacionais no perfil de expulsões atmosféricas antropogénicas, os Açores sobem a fasquia para uns surpreendentes 36,9% de metano no seu total global, procedentes dos quase 300 mil bovinos no território. Para quem não sabe, no cálculo da unidade de carbono equivalente, o metano aquece o planeta 23 vezes mais que o dióxido de carbono, ou seja, ao emitirmos 1kg de metano tem o mesmo efeito que emitir 23kg de CO2.
No PRAC, além das incongruências infantis e déspotas, também se verifica o impensável. Após análise que não sabemos qual, subsiste uma disponibilidade de água subterrânea muito acima das necessidades da população, dos serviços e da indústria açoriana. Esqueçamos portanto a seca do ano 2018 e dos dois milhões de euros de apoio governamental aos agricultores açorianos por falta de água.
O especialista em climatologia, Eduardo Brito de Azevedo, professor da Universidade dos Açores, que foi ouvido na comissão sobre o relatório e parecer do PRAC, além de considerar o estudo “muito genérico” e “vago” apresentando “erros crassos”, referiu o facto de o Programa mencionar que a Região é excedentária em recursos hídricos, o que, no seu entender, não é verdade.
Vamos ser pragmáticos e honestos. Com estas sugestões governamentais, além de não cumprirmos com o acordo de Paris até 2030, ainda vamos conseguir o impossível ao aumentar as emissões.
É preciso muita incompetência junta.