À época da descoberta das ilhas a paisagem açoriana caracterizar-se-ia por uma grande densidade e complexidade de vegetação. A uma aparente homogeneidade cromática (já que as florestas do tipo da laurissilva se distinguem pelo seu tom verde-escuro permanente) corresponderiam zonas de floresta densa, com grande complexidade em termos de andares de vegetação e com trepadeiras fortes que se podiam assemelhar a lianas como a hera (Hedera azorica). A imagem seria aquela que atualmente se associa a uma floresta tropical.
As florestas da laurissilva são caracterizadas pela presença de espécies arbóreas da família das lauráceas. Nos Açores existe apenas uma espécie se enquadra nesta família, o louro-da-terra (Laurus azorica) no entanto existem outras espécies que se aproximam às suas características fisiológicas, como o sanguinho (Frangula azorica), o azevinho (Ilex azorica) e a uva-da-serra (Vaccinium cylindraceum).
Considera-se habitualmente que existem três tipos de laurissilva no nosso arquipélago: a mésica, a húmida e a hiper-húmida. A laurissilva mésica é a mais rara na atualidade e encontrar-se-ia potencialmente desde o nível costeiro até aos 400 metros de altitude, em zonas de clima suave e abrigadas dos ventos, ou seja, nas zonas historicamente mais apetecíveis para a implantação das atividades humanas. As espécies arbóreas características da laurissilva mésica são o louro (Laurus azorica) e o sanguinho (Frangula azorica) mas também a faia (Morella faya) e o pau-branco (Picconia azorica).
A laurissilva húmida surge geralmente entre os 400 e os 500 metros de altitude, em zonas abrigadas dos ventos como grotas e barrancos. As suas espécies requerem mais humidade do que as da laurissilva mésica, e algumas podem suportar o encharcamento permanente. Este tipo de laurissilva surge habitualmente associado aos nevoeiros e mares de nuvens que no nosso arquipélago ocorrem geralmente a partir dos 400 metros de altitude. As espécies arbóreas características são o louro (Laurus azorica), o sanguinho (Frangula azorica) e o azevinho (Ilex azorica). Aqui, sempre que se dá um processo de recolonização de novas áreas a urze (Erica azorica) e o cedro-do-mato (Juniperus brevifolia) surgem como espécies pioneiras.
A laurissilva hiper-húmida surge em redor dos 500-600 metros de altitude, em situações de intensos nevoeiros e de exposição a ventos húmidos. Subsiste em condições de encharcamento permanente e em zonas de solos impermeabilizados. Aqui, “o solo é quase só um suporte, onde toda a estrutura assenta e o sistema vive da água e nutrientes retirados das nuvens.” As espécies arbóreas características são o louro (Laurus azorica), o sanguinho (Frangula azorica), o azevinho (Ilex azorica) e a uva-da-serra (Vaccinium cylindraceum), surgindo também o cedro-do-mato (Juniperus brevifolia). Sobre os solos impermeabilizados encontram-se situações de micro-relevo formadas por pequenas “ilhas” mais elevadas, por um efeito geológico habitualmente denominado “chaminé de fada” onde se criam as condições para o desenvolvimento da vegetação laurissilva. Nas zonas mais baixas encontra-se vegetação capaz de suportar o encharcamento permanente. Forma-se assim uma paisagem ondulada a uma escala diferente daquela a que estamos habituados, com pequenas elevações onde se aglomeram as árvores e os arbustos e zonas mais baixas onde os fetos e musgos têm lugar. O limite ecológico da laurissilva é o início da zona de montanha, aos 700 metros de altitude, onde se encontram os bosques de urze (Erica azorica) e de cedro-do-mato (Juniperus brevifolia).
Eduardo Dias et al - “O elemento insular na estruturação das florestas da Macaronésia” in Joaquim Sande Silva (coordenação) - “Açores e Madeira: a floresta das ilhas” Lisboa: Edição Público Comunicação Social S.A. e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, 2007. Coleção “Árvores e Florestas de Portugal”.