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  • O Assalto ao Navio “Santa Maria” foi há 50 anos
21
janeiro

O Assalto ao Navio “Santa Maria” foi há 50 anos

Escrito por  Foto (Postal) : Lito. Nacional -Porto.
Publicado em José Trigueiro
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Efeméride

 No início de 1961, o navio “Santa Maria” era um dos dois maiores e melhores paquetes portugueses, propriedade da “Companhia Colonial de Navegação”, conjuntamente com o seu “irmão”, o navio “Vera Cruz”. Os paquetes “Infante Dom Henrique” e “Príncipe Perfeito”, seriam inaugurados nesse mesmo ano. O “Santa Maria” havia sido construído em 1952 e comportava 1242 passageiros. Navegava, geralmente, para as Américas do Sul, Central e do Norte. Mais tarde chegou a transportar tropas para as guerras que Portugal mantinha desde 1961 nas antigas Colónias Portuguesas de África.

Assim, foi com imensa surpresa que o Mundo tomou conhecimento de que, na sua viagem de Janeiro desse ano, o navio fora assaltado, no dia 22 de Janeiro de 1961, por um grupo armado de 23 homens, quase todos estrangeiros, comandados pelo Capitão Henrique Galvão, dissidente do regime português. O luxuoso paquete “Santa Maria” navegava nos mares das Baamas, na América Central, sob o comando do Capitão Mário Simões Maia, e havia passado por diversos portos da América do Sul.

Mas quem era o Capitão Henrique Galvão e o que pretendia ele?

Paquete “Santa Maria”, um dos maiores navios portugueses do seu tempo

Figura quase desconhecida do “grande público português”, o Capitão Henrique Costa Mata Galvão (1895-1970), havia sido um fiel servidor do Estado Novo, onde, para além de ter sido Deputado, fora Governador de Huíla, Angola, director da Exposição Colonial do Porto e director da Emissora Nacional. Anteriormente, ainda como cadete, em Dezembro de 1917 participara na revolta que levou Sidónio Pais ao poder, durante a 1.ª República e aderira ao Golpe de Estado do 28 de Maio de 1926. Como militar da confiança do regime instituído, ocupou outros altos cargos, tendo sido, contudo, punido, em 1952, com 18 anos de prisão — donde se evadiu em 15-1-1959. Escrevera um relatório no qual denunciava haver “escravatura” nas Colónias Portuguesas. Era defensor de uma política de liberalização dos territórios ultramarinos que Portugal recusava.

Refugiado na América do Sul, terá sido na Venezuela que Galvão organizou, com outros dissidentes portugueses e estrangeiros, a “Operação Dulcineia” de assalto ao “Santa Maria”. Sabendo que as diversas situações das Colónias Portuguesas estavam numa fase de explosão — como aliás veio a acontecer com os grupos de guerrilhas nacionalistas a organizar-se há alguns anos — diz-se que Galvão, que já tinha 66 anos, só pretendia protagonismo contra o regime de Salazar, de quem era um dos mais importantes dissidentes. Diz-se que se odiavam um ao outro.         

Adriano Moreira (1922-….), que foi Ministro do Ultramar de Oliveira Salazar (1889-1970), viria a afirmar que Galvão era “talvez o português da sua geração mais conhecedor dos territórios e povos” dessas colónias.

Os assaltantes tomaram conta do navio e dominavam-no totalmente. Embora o Presidente Americano, John F. Kennedy, que havia sido empossado 2 dias antes, estivesse contra a política colonial portuguesa, foram os aviões e navios da marinha de guerra americana que descobriram o “Santa Maria” e o escoltaram até ao porto do Recife, no Brasil, onde o navio desembarcou os passageiros em 2 de Fevereiro. Estes seguiram viagem no “Vera Cruz”, da mesma Companhia, a fim de completarem a sua viagem. Os assaltantes receberam asilo político no Brasil. Naquele assalto foi atingido mortalmente, por ter resistido, o 3.º piloto João José do Nascimento Costa.

Ainda o navio não tinha encostado ao cais do Recife, já o General Humberto Delgado, o mais importante dissidente de então ao regime de Salazar, entrava no navio onde esteve a dialogar com o Capitão Henrique Galvão. Delgado pretendia dar a imagem política de que é que estava por detrás do assalto ao “Santa Maria”.

Nas eleições presidenciais de 1958, o General Humberto Delgado havia-se apresentado como candidato da oposição, havendo quem dissesse que havia vencido se as eleições não tivessem sido falsificadas, como era habitual. Tinha como opositor o candidato do regime, o Contra-Almirante Américo Deus Rodrigues Thomaz.

 Depois dessas eleições, Delgado havia-se refugiado na Embaixada do Brasil, país onde passou a residir por aí ter recebido asilo político. E o engraçado é que eu, como estava de passagem em Lisboa, vi o carro dele, que era perseguido por outros carros (que nem pareciam ser da polícia), entrar rapidamente na Embaixada do Brasil, sem parar junto do guarda que vigiava a entrada. Eu ia ali passando a pé e só no dia seguinte, através da imprensa, soube que se tratara do General Humberto Delgado.

Quando se deu o referido assalto ao “Santa Maria”, as autoridades da Horta receberam ordens confidenciais do Governo de Lisboa para estarem atentas e comunicarem quaisquer resultados com urgência, já que os serviços secretos calculavam que aquele General pretenderia instalar nos Açores um Governo Provisório. A ilha mais provável para o efeito era a do Faial, já que seria a mais fácil de ocupar e onde havia material de guerra que poderia ser utilizado para sua defesa imediata, dizia-se à “boca fechada” por causa da censura.  

Assim, o Governador Civil da Horta, Dr. António de Freitas Pimentel (1901-1981), reuniu as principais autoridades do Distrito para deliberarem sobre as medidas adequadas a tomar, face a tal situação. Nessa reunião, onde estavam os principais comandos dos serviços militares e militarizados, o Comandante do Porto da Horta, Capitão-tenente Costa Santos, terá pedido a palavra para informar que, se as forças que viessem a desembarcar na Horta fossem da oposição ao regime, se recusaria a tomar qualquer posição de força contra elas. Então o Governador disse-lhe que era sua obrigação comunicar essa posição ao Ministério do Interior. Assim, Costa Santos, dias depois, deixava a Horta e regressava a Lisboa, onde consta que terá passado à situação de aposentado. Sei que depois do “25 de Abril de 1974”, viria a ocupar importante cargo no Porto de Lisboa, salvo erro, de Comandante do Porto de Lisboa.  

 Como eu no tempo pertencia aos quadros dos guardas da PSP - Polícia de Segurança Pública da Horta, fui escalado, com outros colegas, para subir aos montes mais altos da ilha do Faial, sobretudo durante a noite, a fim descobrirmos qualquer navio que se aproximasse da ilha. Andávamos dois a dois a vigiar esses locais, assistidas periodicamente por graduados. Os Serviços de Justiça da PSP tinham uma motorizada, guiada pelo subchefe Terra, que todas as noites dava a volta à ilha. Soube mais tarde que todos os serviços de segurança das ilhas do Distrito receberam ordens nesse sentido, extensivas aos vigias das baleias que, confidencialmente, deviam informar as Capitanias ou Delegações Marítimas de qualquer navio “estranho” que vissem no mar a aproximar-se.

 De qualquer forma, em 7 de Fevereiro o paquete “Santa Maria” dava entrada no porto de Lisboa, onde se concentrou elevada quantidade de portugueses, comovidos com o ocorrido, tendo ido recebê-lo a bordo o próprio Presidente do Conselho, Prof. Dr. Oliveira Salazar. Terminava assim uma viagem que ficou célebre em todo o Mundo. Dias depois daquela aventura, a vigilância na Horta terminou, quando os boatos davam Angola como provável para o referido desembarque de Humberto Delgado.   

Com aquele “assalto” dava-se início a uma série de acontecimentos que jamais deixou que Portugal fosse um País sem problemas políticos graves, que só terminaram com a queda do regime pelo “Golpe de Estado do 25 de Abril de 1974”.

 Assim, o ano de 1961 viria a ser um dos piores anos por que Salazar passou: em Janeiro foi o referido assalto; em Março, as guerrilhas nacionalistas africanas iniciavam em Angola as suas acções armadas contra Portugal que vieram a resultar nas independências das respectivas Colónias; em Abril, deu-se o “Golpe de Estado” frustrado do General Botelho Moniz; em Dezembro Portugal perdia ingloriamente as colónias de Goa, Damão e Diu, com a vergonhosa invasão da União Indiana. O assalto ao “Santa Maria” foi o início do desmoronar do “salazarismo” e do ultrapassado império.

Bibl: Antunes, José Freire Antunes, “Kennedy e Salazar - o leão e a raposa”, edição do círculo de Leitores; “O Grande Livro dos Portugueses” (1991), pp. 121-144 e 240-241, edição do Círculo de Leitores; Correia, Luís Miguel “Paquetes Portugueses”, (1992), pp. 214 e 215, Edição Inapa.  

 


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