"Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que? eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que? mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração ‘casinha dos pais’,
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos,? maridos, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva? que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração ‘vou queixar-me pra quê?’
Há? alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração ‘eu já não posso mais!’
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a? pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar."
É esta a letra da nova música dos Deolinda, da autoria de Pedro da Silva Martins, e que em poucos dias se transformou num enorme fenómeno de popularidade.
É fácil perceber a adesão, sobretudo dos jovens, a este tema, e que é sublinhada pelas palmas espontâneas que intercalam a actuação da vocalista Ana Bacalhau (ver o vídeo da música em http://www.youtube.com/watch?v=f8lo82tXbWU), e pelo êxito que o mesmo tem tido nas redes sociais da Internet.
De uma forma directa, simples, sem rodeios, e sublinhada por uma música apropriada, "Parva que sou" fala do que a maioria dos jovens sente e sobre o que eles passam hoje para poderem ter uma vida própria. Nessa medida, esta música é o retrato de uma geração. Uma geração desencantada com o investimento que fez nos seus estudos e do qual sente que verdadeiramente não foi compensada (que? mundo tão parvo/
onde para ser escravo é preciso estudar). Uma geração vítima do endeusamento da flexibilidade laboral, da precariedade e dos esquemas para ocupar os jovens a troco de remunerações reduzidas (já é uma sorte eu poder estagiar). Uma geração que, por isso, vive até cada vez mais tarde dependente material e financeiramente dos seus pais (Sou da geração ‘casinha dos pais’,/se já tenho tudo, pra quê querer mais?). Uma geração que adia até cada vez mais tarde a assumpção de compromissos pessoais e afectivos e a decisão de constituir família (Filhos,? maridos, estou sempre a adiar).
O êxito desta canção está, assim, na sua força em abordar os problemas reais, concretos, vivenciais da geração daqueles que terão menos de 30 anos e que vivem quotidianamente a angústia da precariedade, do desemprego, da exploração laboral e da decepção em relação às expectativas que para si próprios criaram, muitas vezes com o estímulo do mesmo Estado que agora lhes falta.
E o drama é que as perspectivas de futuro não são entusiasmantes. Como escreveu José Manuel Fernandes no Jornal Público de 4 de Fevereiro passado, " ...a minha geração viveu e vive muito melhor do que a dos seus pais. E eles já viveram melhor do que os pais deles. Mas quando olho para a geração dos meus filhos, e dos que são mais novos do que eles, sinto, sei, que já não vai ser assim. E não vai ser assim porque nós estragámos tudo – ou ajudámos a estragar tudo. Talvez aqueles que são um bocadinho mais velhos do que eu, os verdadeiros herdeiros da “geração de 60”, os que ocuparam o grosso dos lugares do poder nas últimas três décadas, tenham um bocado mais de responsabilidade. Mas ninguém duvide que o futuro que estamos a deixar aos mais novos é muito pouco apetecível. E que o seu presente já é, em muitos aspectos, insuportável.
Começámos por lhes chamar a “geração 500 euros”, pois eram licenciados e muitos não conseguiam empregos senão no limiar do salário mínimo. Agora é ainda pior. Quase um em cada quatro pura e simplesmente não encontram emprego (mais de 30 por cento se tiverem um curso superior). Dos que encontram, muitos estão em “call centers”, em caixas de supermercados, ao volante de táxis, até com uma esfregona e um balde nas mãos apesar de terem andado pela Universidade e terem um “canudo”. Pagam-lhes contra recibos verdes e, agora, o Estado ainda lhes vai aplicar uma taxa maior sobre esse muito pouco que recebem. (...) É a geração espoliada. A geração que espoliámos. (...)".
Por isso, o grito desta canção expressa um sentimento colectivo: Sou da geração ‘eu já não posso mais!’/que esta situação dura há tempo demais.
Que os responsáveis políticos percebam a mensagem! E que compreendam que os limites estão a atingir-se. E que se impõe, com urgência, na vida, na política e no mercado de trabalho, o regresso da Ética!
E "Parva que sou" que nunca o seja por ter estudado! Nem ontem, nem hoje, nem amanhã!
07.02.2011