FACTO HISTÓRICO

A independência dos Estados Unidos da América, obtida na sequência da Constituição de 1787, deu origem a uma sequência de guerras e de boicotes comerciais feitos pela “mãe pátria” – a Inglaterra. Possuidora de uma larga vastidão de colónias, custava-lhe a perder um território tão rico e importante como eram os diversos Estados daquele extenso país. Essas lutas mantiveram-se durante grande parte do século XIX. Lembra-se que um dos maiores ataques desses conflitos se registou em Setembro de 1814 na baia do porto da Horta, junto do Castelo de Santa Cruz, entre quatro ou cinco navios de guerra ingleses e o navio corsário americano “General Armstrong”, ali a tomar água e mantimentos. Nesse combate faleceram mais de 120 pessoas, na sua maioria inglesas (1).
Em carta de 14 de Novembro de 1830, escrita da ilha das Flores a Charles W. Dabney, então Cônsul Geral dos Estados Unidos da América nos Açores, sedeado na cidade da Horta, John Britton, Capitão do navio americano “Robert Fulton”, escrevia a seguinte informação (2):
«Caro Senhor, - É com sentimento de profunda mágoa que vos informo da perda
total do navio “Robert Fulton”, propriedade dos Srs. Abraham Bell & Co, de Nova Iorque. Na manhã do dia 18 de Outubro fomos infelizmente perseguidos por uma barca britânica e sofremos danos tão importantes que foi um caso miraculoso conseguirmos chegar aqui. [Às Flores]. Tínhamos, infelizmente, cento e catorze pessoas a bordo (destinadas a Liverpool) que nos puseram numa situação ainda mais difícil. Alguns dias depois da desafortunada ocorrência cruzámo-nos com o navio britânico “Mary Catherine” de Liverpool, em rota para Charleston, Carolina do Sul [EUA]. Pedimos ao Capitão que nos tomasse a bordo, coisa que ele recusou fazer com excepção de três passageiros de cabina [camarote?]. Não tenho dúvidas de que, quando eles chegarem, as notícias da precária situação em que nos deixaram chegarão aos ouvidos dos meus amigos
«Se se oferecer alguma oportunidade para qualquer dos E. U. antes de eu chegar ao Faial, ficarei imensamente agradecido se puderdes ter a bondade de enviar algumas linhas da A. Bell & Co, informando-os da minha situação actual. Do vice-cônsul, Sr. Borges, recebi todas as marcas de atenção e bondade, pelas quais me sentirei para sempre grato. Esperando ter em breve o prazer, etc., etc., sou… John Britton»
Embora não saibamos como e onde se instalaram na ilha das Flores os 114 passageiros e tripulantes do navio “Robert Fulton”, nem durante quanto tempo eles ali terão permanecido, sabe-se que o vice-cônsul americano nessa ilha Sr. Borges lhes prestou a melhor hospitalidade possível. Em 27 de Novembro já todos estavam na Horta e o referido Sr. Borges deve ter seguido com eles para essa cidade. E isto porque aí foi cordialmente convidado para jantar com o cônsul americano Charles W. Dabney, na companhia do Capitão Britton e do escritor inglês Sr. Fawler.
Aquela autora escreveu a seguir a impressão que o passageiro do navio “Robert Fulton”, Sr. Fawler, expressou em livro que publicou em Inglaterra no ano seguinte sobre a sua viagem a Nova Iorque (3). Trata-se de algumas páginas da sua passagem pela Horta, onde se elogiam vários elementos da família Dabney, as suas amplas habitações (Bagatelle e Fredónia) e os respectivos jardins, bem como os passeios que ele fez na ilha do Faial.
Por ela sabe-se também que o Sr. Borges faleceu na ilha de S. Miguel durante o ano seguinte e que acabou por não receber o exemplar daquele livro que, entretanto, o Sr. Fowler lhe remeteu de Inglaterra, acompanhado do exemplar e da carta (de 22 de Setembro de 1831) para Charles W. Dabney. Aquele exemplar foi, contudo, por este enviado para as Flores pelo irmão, mas já não chegou às mãos do referido vice-cônsul americano nas Flores, por este ter falecido
Assim, julgamos que a partir do falecimento do referido Sr. Borges, que possivelmente era florentino, os Estados Unidos da América terão deixado de possuir nas Flores um vice-cônsul, já que pouco tempo depois o escocês Dr. James Mackay – primeiro médico da ilha, ali chegado em 1828 – passou a ter a seu cargo a delegação do consulado americano e era tido como amigo de Charles W. Dabney.
A propósito, esclarece-se que o nome do navio “Robert Fulton”, era uma homenagem ao engenheiro norte-americano Robert Fulton (1765-1815) que se distinguiu como cientista na invenção, em 1803, da embarcação a vapor, bem como no desenvolvimento de submarinos e torpedos navais.
(1). Roxana Dabney, “Anais da Família Dabney no Faial”, Vol. 1, (2004), pp.
(2). Roxana Dabney, “Anais da Família Dabney no Faial”, Vol. 1, (2004), p. 289, edição do IAC - Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta.
(3). O livro intitulava-se “Excursão de Fowler no Estado de Nova Iorque e Naufrágio nas Ilhas Ocidentais”