FLORENTINO QUE SE DISTINGUIU
Nasceu na freguesia da Fazenda, concelho de Lajes das Flores, em 16 de Abril de 1946, filho de António Nunes Silva, emigrado para o Brasil em 1953 onde viria a falecer, e de Vitória Nunes Gomes e Silva, doméstica que, octogenária, ainda ali vive com o filho João, na cidade de São Paulo. Era, portando, irmão de João António Nunes Silva, advogado ou jurista
Aí José António começou a vida como empregado num restaurante, onde conheceu um fotógrafo que, ao aperceber-se da sua inteligência, o convidou para trabalhar consigo numa revista literária. Ele pôde assim fazer experiências fotográficas e enveredar pelas máquinas de filmar. Algum tempo depois já fazia filmagens para a Televisão, aproveitando a pouca experiência que tinha nessa área e a muita inteligência para uma aprendizagem rápida de tudo o que se lhe propusesse fazer.
Inicialmente, na cidade de São Paulo, montou estúdios fotográficos próprios para actuar no campo da moda, publicidade e fotonovelas, onde dirigiu trabalhos nessa área, durante dois anos. Depois, na “Editora Saber”, coordenou e dirigiu a revista literária “Jovem-Sex”, que acabou por ser retirada de circulação pela censura. Nessa época já escrevia com o pseudónimo de “Jean Garrett”, que utilizou no resto de toda a sua carreira artística, entrando então no campo cinematográfico que sempre o atraíra. Entre 1968 e 1993, ora como cenógrafo e intérprete, contra-regra ou assistente, ora como director, autor e produtor, actuou em 29 filmes. Desses filmes destaca-se “Sedução”, “A Ilha do Desejo”, “Amadas e Violentadas”, “Possuídas Pelo Pecado” e “Excitação”.
Depois de um curto interregno, voltou aos filmes. Em 1995, “Jean Garrett” passou a dedicar-se ao teatro e ao vídeo, administrando o teatro “Bibi Ferreira”,
Estava nesse trabalho quando, com apenas 50 anos de idade, em Junho de 1996 foi vítima de um traiçoeiro acidente vascular que o vitimou quando seguia no seu carro. Segundo informa a família, terá sido encontrado por uma senhora que passava caído no passeio e, embora ela o tenha levado ao Hospital, já ali chegou sem vida.
Pelo prestígio dos seus filmes recebeu os seguintes prémios: APCA de melhor música; APCA de melhor roteiro; melhor filme no festival de Maringá (PR); melhor direcção no festival de Aruarama (R.J). Sabe-se também que cerca de 10 dos seus filmes foram exportados para a Europa e para a América Latina. Trabalhou com cerca de uma centena de artistas, produtores e demais colegas, muitos deles nossos conhecidos em telenovelas brasileiras, entre os quais recordamos nomes como António Fagundes, Helena Ramos e muitos outros artistas de prestígio, que seria fastidioso evidenciar neste trabalho.
Segundo consta, quando faleceu, preparava-se para vir a Portugal, a fim de estabelecer acordos para a transmissão dos seus filmes, aproveitando a oportunidade para visitar a ilha das Flores, aonde ele jamais voltara. Recorda-se que quando emigrou tinha cerca de 18 anos, tendo deixado na ilha vários familiares e muitos amigos, que ele facilmente sabia fazer.
Refere quem com ele lidou na freguesia da Fazenda que, já em criança, organizava, com outros jovens fazendenses, a improvisação de representações teatrais ou cinematográficas, na casa que o tio José Nunes Silva estava a concluir. Cobrava à rapaziada que assistia às suas brincadeiras teatrais uns centavos para os abonar das “mesadas” que os pais não tinham possibilidade de lhes dar. Recorda ainda que no grupo de companheiros estariam o Hélio Silva e o irmão José do Espírito Santo Silva, bem como outros elementos da sua geração. Representações semelhantes eram feitas para as tias maternas, na casa do lugar da Cova, onde ele improvisava, como sacerdote, a celebração de missas e de outros actos religiosos de que as tias gostavam de ver.
Dotado de características semelhantes às do pai – inconstante e invulgarmente inteligente – era um improvisador nato de tudo o que lhe vinha à cabeça.
Assim, supõe-se que teria ido, certamente, muito mais longe na arte teatral e cinematográfica se não tivesse falecido tão novo.