1. Com a vitória do PSD de Passos Coelho nas últimas eleições legislativas, e com o advento de um governo de coligação com o CDS-PP, que garantirá ao País uma maioria estável, Portugal prepara-se para poder entrar numa nova fase da sua história recente.
Não sabemos ainda - e só o tempo o poderá vir a confirmar - se vamos efectivamente entrar num novo ciclo político, ou se vamos apenas ter um governo diferente.
Sobre a dupla Passos Coelho/Paulo Portas e sobre os partidos que dirigem, recai uma responsabilidade histórica, particularmente emergente e sensível devido à situação crítica do País, que se agravou de forma significativa nos últimos anos.
E se os problemas cruciais de Portugal radicam indiscutivelmente nas questões económicas e financeiras, sobre as quais se centram as discussões e os holofotes da comunicação social (e para os quais naturalmente se tornam urgentes soluções viáveis), a verdade, porém, é que Portugal sofre igualmente de um outro problema grave: o da angustiante perversão de valores que se impôs na sociedade portuguesa (e não só!) e que pouco a pouco ganhou estatuto de normalidade.
2. Os dicionários apontam como significados de "valor" qualidades intrínsecas ou princípios morais como "o bom, o belo, a verdade, a dignidade, a honestidade, a justiça".
Mais do que afirmar que "nos dias de hoje não há valores" e que estes desapareceram da vida social, será mais correcto aceitar que valores como os atrás enunciados deixaram de ser considerados importantes ou os mais importantes na vida comunitária contemporânea.
Tomemos o exemplo da honestidade.
Quantos de nós já não ouvimos afirmar que uma pessoa honesta nunca irá longe na riqueza e na política?
Quantos de nós já não apelidámos de ingénuo a quem defende o primado da honestidade?
Quantos de nós não aceitamos com naturalidade que um estudante copie, desde que não seja apanhado?
Quantos de nós ainda há poucos dias achávamos que Passos Coelho estava numa trajectória politicamente suicida...só porque estava a ser honesto e a falar verdade sobre o seu programa?
A desonestidade tornou-se, assim, algo de recomendável na vida social contemporânea. Um político faltou à verdade, prometeu o que sabia que não podia cumprir, omitiu a realidade, mas se ganha as eleições, todos esses censuráveis comportamentos ficam como que legitimados e aceites.
Um futebolista encena uma falta ou uma penalidade, engana o árbitro e se disso resulta uma vitória, ele é transformado em herói e poucos lembram o seu comportamento desonesto.
Um cidadão que trapaceia as regras das declarações fiscais e consegue pagar menos imposto do que devia, é um exemplo a seguir e muitos querem é aprender o truque.
Um executivo que usa ou esconde informações privilegiadas, desumaniza as relações laborais, mas que melhora os lucros da sua empresa, é visto como um homem de sucesso e ninguém questiona os seus métodos.
Impôs-se, assim, uma sociedade em que o que mais importa na vida é vencer e enriquecer; saber como se consegue isso não interessa.
Obter vitórias, aumentar lucros, passar exames, subir na vida, ser reconhecido como vencedor, ter êxito, estes são os valores que de uma forma muito mais generalizada e aceite se impuseram ao valor da honestidade.
E o mesmo se diga também ao valor da verdade.
3. Até agora Portugal foi governado por uma personalidade política que assumia esta lógica, vivia nela e para ela. José Sócrates, nesse aspecto, é um produto do seu tempo e desta sociedade. Vivemos até agora submergidos por esse modelo de que na política como na vida, tudo vale para se conseguir vencer.
E, neste contexto, o resultado eleitoral de Passos Coelho é um prometedor sinal de que uma regeneração nacional é possível.
Passos Coelho venceu claramente as últimas eleições, falando verdade aos Portugueses e não dizendo aquilo que alguns queriam que ele dissesse ou que dele queriam ouvir.
A votação que os portugueses lhe atribuíram é um forte sinal de esperança nos novos tempos que podem vir.
Mas é também uma forte responsabilidade.
Sobre Passos Coelho e sobre o novo governo cai o dever de governar com o povo e para o povo com honestidade, seriedade e verdade.
Se isso for conseguido, este governo e estes políticos poderão ficar na nossa história por terem inaugurado um novo ciclo político, que pôs fim à mistificação, à propaganda e ao espectáculo ao serviço do vazio dos valores.
Se este governo e estes políticos tiverem a coragem e conseguirem impor os valores da verdade, da honestidade e da seriedade no seu relacionamento com os cidadãos, já valeu a pena termos mudado de governo e de protagonista. E não teremos apenas um novo governo, mas verdadeiramente estaremos a iniciar um novo ciclo político de que tanto necessitamos!
Como dizia Sócrates (o filósofo da Antiguidade grega), "Se o desonesto conhecesse as vantagens de ser honesto, seria honesto ao menos por desonestidade".
12.06.2011