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02
setembro

Gomes Dias de Carvalho

Escrito por  Susana Garcia
Publicado em José Trigueiro
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FLORENTINO QUE SE DISTINGUIU

Povoador, capitão-mor, ouvidor e atribuidor de terrenos na ilha das Flores

Natural do Alentejo, Gomes Dias Rodovalho ficou para sempre ligado à história da ilha das Flores, já que terá sido ele o principal responsável pelo povoamento definitivo da ilha, iniciado por volta de 1504. Terá sido o primeiro capitão-mor, ouvidor e “sesmeiro” (atribuidor de terrenos) na ilha das Flores. Daí, o considerarmos como florentino.

Sabe-se que era de origem francesa e que nasceu em Viana do Alentejo, junto de Évora, por volta de 1480, ou talvez alguns anos depois, descendendo de Diogo Vaz Rodovalho, da Casa de Rodovalho, uma das mais importantes da Baixa Normandia, França (1). Este era casado com Maria Esteves Cansado, natural de Viana do Alentejo.

Sucedendo aos Teives (1352-1475) e aos Telles (1475-1504), que pouca ou nenhuma atenção haviam dedicado às Flores e ao Corvo, João da Fonseca, dado o empenho posto nas descobertas para Ocidente, por carta régia de 1 de Março de 1504, recebeu a capitania daquelas duas ilhas.

Refira-se, a propósito, que Diogo de Teive e o filho João de Teive, que haviam descoberto as ilhas das Flores e do Corvo por volta de 1452, estariam mais interessados em explorar a cana de açúcar na ilha da Madeira do que em efectuar o povoamento das ilhas do grupo ocidental do arquipélago dos Açores. 

A chegada de um grupo de colonos àquelas ilhas terá ocorrido possivelmente nesse mesmo ano – não poderá ter sido muito depois – porquanto, em Março de 1515, o lugar das Lajes já era detentor do foral de Vila (2).

O novo capitão-donatário – João da Fonseca – também continental, de Évora, Alentejo, acompanhou às Flores, com o intuito de a povoar, a primeira leva de colonos, entre os quais se encontrava Gomes Dias Rodovalho. Com eles chegaram, nomeadamente, Diogo Pimentel, Antão Vaz, Lopo Vaz, os irmãos Rodrigo Anes e Álvaro Rodrigues, Pedro Vieira e João Fernandes. Este era conhecido por “o barco longo” e fazia-se acompanhar das suas sete filhas. Chegaram também os irmãos António e Pedro Fraga – com as respectivas mulheres – e Jordão Rodrigues, Gonçalo Anes Malho e João Fernandes, “o roxo”  (3).

Na ocasião em que Gomes Dias Rodovalho veio parar às Flores, seu irmão Aires Pires Rodovalho já estaria na ilha de S. Miguel, certamente integrado noutra leva de colonos alentejanos. Outros do mesmo apelido Rodovalho ficaram no continente, onde obtiveram brasão, tendo passado para a Espanha como sendo de origem portuguesa (4).

Refere o historiador florentino Frei Diogo das Chagas que os citados colonos, ao passarem pela ilha Terceira, se detiveram por alguns dias na Praia, onde Antão Vaz tinha a sua casa. E que Gomes Dias Rodovalho, então ainda mancebo solteiro, ali casou com Beatriz Lourenço Fagundes, filha de Afonso Álvares Antona e de sua segunda mulher, Beatriz (5). Todavia, este grau de parentesco não coincide com o que é referido por Monte Alverne, que diz que a mulher de Rodovalho era neta, e não filha, de Afonso Álvares Antona, o “Velho” de S. Francisco, “que deu para a fundação do convento da Praia – o antigo – a ermida de Nossa Senhora da Conceição, com casas e nove alqueires de terra” (6). Refira-se, a propósito, que Chagas era bisneto de Rodovalho, pelo que é provável que seja ele quem conhecia a sua ascendência.

Quando chegaram às Flores, o capitão-donatário João da Fonseca – e não o filho Pedro da Fonseca, como erradamente escreve Frei Diogo das Chagas, pois este só tomaria posse da capitania em 1528, quando a ilha já estava povoada – logo deu a cada um desses homens a sua “data” ou “sesmaria”, isto é quinhão de terreno. Como regressasse ao Reino na mesma embarcação, a fim de ir mandando novos colonos, deixou na ilha Gomes Dias Rodovalho como seu capitão-mor, ouvidor e “sesmeiro” ou distribuidor de terras.

No dizer de Chagas, seu bisneto, foi Gomes Dias Rodovalho que distribuiu terrenos pelos novos colonos que, entretanto, iam chegando à ilha. Concedeu também aos primeiros colonos “mais largas, conforme lhe parecia e viu, [que] convinha, segundo a prática que já da ilha tinha, que para tudo do dito capitão lhe ficou poder e autoridade” (7).

Criada por Gomes Dias Rodovalho, a vara de ouvidor era prestigiosa e importante, já que tinha como ordenado anual 6 moios de trigo, dez “pedras” de lã e doze carneiros Este ordenado foi, progressivamente, reduzido “pela ambição que foi crescendo nos que queriam servir”, tanto mais que a ilha não tinha por residente o capitão-donatário (8).

Esta figura seria semelhante à fotografia da ilha das Flores, feita por satélite, se tal tivesse sido possível no tempo em que Gomes Dias Rodovalho a ela chegou em 1504. 

Do casamento de Gomes Dias Rodovalho com Beatriz Lourenço Fagundes, o primeiro ouvidor e capitão-mor das Flores, teve os seguintes filhos, todos eles já nascidos na ilha (9): Tomé e Francisco Gomes, ambos casados com filhas de Diogo Pimentel e Catarina Antunes; Gomes Dias Rodovalho, com nome igual ao do pai, casado com Luísa de Mendonça; Henrique Gomes, que casou com Inês Álvares; Ciprião Gomes, casado com Brízia Valadão; Fernão Lourenço, que foi casado em segundas núpcias com Violante Privado e que, por quatro vezes, a última das quais com mais de 80 anos, exerceu o cargo de ouvidor; Gracia Dias Fagundes, que foi mulher de Inácio Fraga (avós de Chagas); Nuno Gomes, casado com Maria Pimentel; Lucrécia Dias e Bárbara Dias, das quais mais nada conseguimos saber.

Francisco António Gomes, de cujo trabalho nos servimos como fonte para este registo, com a devida deferência, escreveu que “desconhece-se a data do falecimento de Gomes Dias Rodovalho, sendo provável, no entanto, que ele tenha ocorrido em meados de quinhentos (10). Efectivamente, não encontramos qualquer informação que nos esclareça em que data e local se verificou o seu falecimento, embora o local mais previsível, segundo a nossa opinião, seja em Santa Cruz das Flores.

___________

BIBLI: Jornal “Correio da Horta”, de 25-9-1984, artigo de Francisco António Gomes; “Crónicas da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores”, de Fr. Agostinho de Monte Alverne; “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores” , de Fr. Diogo das Chagas; “Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura”, V. 16, ed. Verbo; Gomes, Francisco António Nunes Pimentel, “A Ilhas das Flores: da redescoberta à actualidade”, 2003, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores; Trigueiro, José Arlindo Armas, “Florentinos que se Distinguiram”, 2004, pp. 21-23, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores.

(1) - Alverne, Fr. Agostinho de Monte, “Crónicas da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores”, Vol. III, pág. 193; (2) - Peixoto, Pe. Manuel Francisco dos Santos, “Apontamento para a História da Ilha Terceira”, pág. 88; (3) - Chagas, Fr. Diogo das, “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores”, in. Serpa, António Ferreira, “Dois Inéditos”, pág. 125; (4) - “Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura”, V. 16, pág.734, ed. Verbo; (5) - Chagas, Fr. Diogo das, “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores”, in. Serpa, António Ferreira, “Dois Inéditos”, pág. 125; (6) - Alverne, Fr. Agostinho de Monte , Obr. cit, Vol. III, pág. 193; (7) - Chagas, Fr. Diogo das, Obr. cit, pág. 126; (8) - Chagas, Fr. Diogo das, obr. cit, pág. 132;  (9) - Idem, ibid, págs. 134 e 135; (10) - Jornal “Correio da Horta”, de 25-9-1984.

 

 

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