A RTP Açores foi uma conquista autonómica de um dimensão porventura mais profunda e abrangente do que a maioria das pessoas terá assimilado, no deslumbre da novidade da “caixa que mudou o mundo”. E se mudou o mundo, mudou também os Açores com a marca indelével da história.
Desde logo, ajudou a estancar o ímpeto separatista de 75; encarnou a unidade açoriana não apenas no conhecimento das ilhas umas das outras, mas corporizando o conceito de Região, que era até então praticamente inexistente nos Açores; mostrou imagens de um mundo desconhecido para muitos açorianos, ou seja, integrou o mundo nos Açores e ajudou a integrar os Açores no mundo quando fez de nós, das nossas catástrofes naturais bem como das nossas gentes, notícia e a levou ao continente, à Europa, às Américas e a todo o planeta com sinal de televisão.
A RTP Açores proporcionou também a aceleração da evolução do pensamento nos Açores, aproximando-o – a uma velocidade bem mais acentuada primeiro e depois simultânea - das tendências dos momentos, das correntes filosóficas, das políticas em curso, das reflexões económicas, da arte contemporânea. O contrário não é, no entanto, verdadeiro. Esse terá sido – com algumas honrosas excepções – o grande défice da RTP Açores: não conseguir dar a conhecer a nossa idiossincrasia, a nossa realidade insular, a nossa produção cultural, os nossos órgãos de governo próprios – e explicar por que tudo isto tinha a sua razão de ser.
Se mostrámos um pouco disto ao mundo, através da RTP Internacional, foi principalmente ao mundo da nossa identidade, à extensão dos Açores na diáspora, e não ao mundo que precisaria de nos conhecer em primeiro lugar: Portugal rectangular. Ou continental, se preferirmos.
Pecámos por omissão. Não interessa quem nem quando nem porquê neste preciso momento. Importa, sim, reconquistar o respeito pela diferença que em tempos alcançámos, com as séries “Xailes Negros”, “O Barco e o Sonho” e outras, as co-produções com alemães, austríacos e as Mostras Atlânticas – só para dar alguns exemplos.
Depois fomos sendo asfixiados, aos poucos, e a nossa acção colectiva revelou-se inconsequente – ou não teríamos chegado a ouvir o despautério do Ministro Miguel Relvas.
Importa fazer uma campanha em que se demonstre que a RTP Açores é e será um forte pilar da Autonomia e qualquer redução das suas competências e/ou actividades é e será um duro golpe que se repercutirá na política autonómica e no caminho percorrido desde as primeiras campanhas autonomistas ainda no século XIX.
Criou-se, indevidamente, a ideia de que a globalização nos faria a todos iguais, insulares e continentais, porque teríamos a mesma alimentação, vestiríamos as mesmas marcas, consumiríamos os mesmos produtos, incluindo os televisivos. O isolamento esbateu-se e com ele a noção das diferenças. Nada mais capcioso.
Os continentais começaram a ver os ilhéus como sorvedouros de dinheiros públicos, tão próximos do centro do país e tão exigentes e reivindicativos. Esclareça-se então a opinião pública sobre a realidade insular no Continente, não contra o Continente. E informe-se o Senhor Ministro que uma emissão comandada de Lisboa é completamente diferente de uma emissão comandada dos Açores.
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