A FAIALENSE QUE SE TORNOU PRINCESA (2)
(Continuação)
Por volta de Maio de 1864 os Dabney propiciaram um passeio de Carolina à cidade de Bóston, EUA. Ela foi na companhia de Roxana Dabney, que afirmaria que fizeram «uma viagem muito agradável, uma viagem deliciosa para Carolina que foi recebida por todos os nossos amigos com a maior cordialidade, o que não era surpreendente, porque ela era um pessoa muito atraente, graciosa e simpática». Em Agosto já tinham regressado à cidade da Horta e cada vez se estreitavam mais as relações entre as famílias Dabney e Curry (5).

Esta é a baía da Horta, ainda antes de ter a doca, semelhante à que existia no tempo em que a fragata russa escalou o porto da Horta na década de 1866.
Terá sido durante essa permanência na Horta que o barão Maidell, comandante da fragata, fez aos Curry o pedido de casamento de Carolina para o Príncipe Mershersky.
Roxana Dabney escreve que Carolina tinha o carácter mais ingénuo e franco que ela já vira. O seu principal conselheiro era o Cônsul Charles W. Dabney, a quem ela confiava os mais íntimos sentimentos da sua juventude. Assim, em Junho de 1865 escreveu-lhe em inglês a seguinte carta (7):
«Sr. Dabney: Caro Senhor. — A bondade e amizade que sempre me mostrou cria em mim o desejo de lhe dar a conhecer a súbita mudança que ocorreu na minha vida. Roxie [Roxana] deve ter-lhe contado, mas penso que devo ser eu própria a dizer-lhe, que dentro em breve, o Sr. Mershersky regressará ao Faial. Parecerá estranho, a si e a toda a gente, pensar que decidi o meu futuro num tão curto período de tempo. Parecerá um passo muito irreflectido mas fique o Sr. Dabney certo de que não o é, os nossos corações são misteriosos e difíceis de entender. A minha decisão de aceitar as propostas que me foram feitas terá diferentes interpretações, menos a única verdadeira. Gostaria de desfrutar da simpatia de todos mas pretendo apenas mostrar os meus sentimentos aos meus amigos e assim devo dizer-lhe, com sinceridade, que só o meu coração é que decidiu esta importante questão, só o meu coração, fique certo disto. Reconheço o risco e sei que posso estar sujeita a muitos contratempos mas estou feliz com o presente e deixo o futuro a Deus, em quem sempre depositei a minha confiança. É muito duro deixar o meu país, a minha família e os meus amigos e abrir mão da minha própria língua! Sem dúvida que acreditará que os meus sentimentos são suficientemente fortes para me levarem a abandonar todos os que conheci e amei até ao presente. Não pode acreditar, tenho a certeza, de que o fiz por capricho ou por desejo de alcançar uma posição independente ou melhor, só o amor pode obrigar alguém a fazer sacrifícios destes. Que lhe posso dizer mais? Apenas que preciso de conhecer a sua opinião para ser inteiramente feliz. Com muito respeito sou sempre
Amiga grata e muito sincera ………………CAROLINA STREET CURRY»
A seguir se transcreve a resposta de Charles W. Dabney à carta de Carolina:
«Cara menina Curry: Ao regressar [da casa do] do Monte Carneiro ontem ao meio-dia encontrei o seu bilhete de ontem, cujo conteúdo me proporciona a prova muito gratificante de que tem consciência dos sentimentos que nutro por si e os aprecia. É verdade que Roxie, sabendo quanto me interessa a sua felicidade, me deu a conhecer as circunstâncias principais que ocorreram neste notável caso. A princípio, confesso, senti-me alarmado no que respeita à sua felicidade, mas a reflexão levou-me às seguintes conclusões. Não é um caso para ser julgado pelas regras comuns de prudência. Os caminhos da Providência não são para ser penetrados pelos conhecimentos dos mortais, pois uma correcta apreciação da nossa insignificância proíbe a presunção de sermos sujeitos da interposição divina. Mas, por outro lado, há alguém que duvide da omnisciência do “Todo-poderoso”? O seu caso é tão extraordinário que é fortemente sugestivo de uma orientação superior e, como exprimiu um desejo de saber quais são os meus sentimentos em relação a ele (desejo esse que aprecio inteiramente), isso permite-me a gratificação de declarar que, tendo a mais perfeita fé na bondade do “Todo-poderoso”, eu teria agido como agiu.
Renovando-lhe a certeza &ec… &ec…sou C. W. D.»
No dia 24 de Novembro de 1865, viajando num vapor que chegou de Lisboa, o príncipe Mershersky chegou à Horta, certamente viajando no navio português da carreira. Nesse dia os Dabney visitaram os Curry e maravilharam-se com a felicidade que lá encontraram (8). Embora não se saiba, imaginamos que o príncipe tenha passado algum tempo na cidade da Horta. O príncipe deverá ter entrado de férias ou passado à disponibilidade certamente para vir ao Faial casar com a sua amada Carolina. Não sabemos quanto tempo permaneceu nesta cidade da Horta dessa vez, mas, ao que sabemos é pouco provável que tenha deixado a ilha durante os meses que se seguiram.
Na véspera do casamento (14-3-1866), Carolina escreveu a Charles W. Dabney o seguinte bilhete: «Prezado Senhor, - Certa da sua bondade e simpatia que sempre mostrou ter por mim, espero que não me negue o prazer de ser um dos dois padrinhos que quero que participem na minha boda, amanhã à tarde às cinco horas - CAROLINA CURRY».
A resposta por escrito do Cônsul Americano foi imediata: - «Minha querida menina Carolina Curry, Dado que confessou de uma maneira tão lisonjeira que tem consciência da minha simpatia, pode imaginar o apreço com que recebi a alta distinção que me conferiu. Fique certa, minha querida menina Curry, da sinceridade com que me subscrevo. Sou amigo obrigado - CHARLES W. DABNEY» (8).
(Continua)
Bibl: Roxana Dabney, 1806-1871, “Anais da Família Dabney no Faial”, Volume 3, (2006), co-edição do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta; Lima, Marcelino, “Famílias Faialenses”, (1922), pp. 241-245, Minerva Insulana; Leite, José Guilherme Reis, “Enciclopédia Açoriana”, Internet, Centro de Conhecimentos dos Açores, ed. da Universidade Católica Portuguesa e do Governo Regional dos Açores; Forjaz, Jorge, e Mendes, António Ornelas, “Genealogias das Quatro Ilhas: Faial, Pico, Flores e Corvo”, (2009), Vol. 1.º, p. 725, e Vol. 4.º, p. 2659, ed. Dislivro Histórica.
(5). Dabney, Roxana, 1806-1871 ,“Anais da Família Dabney no Faial”, Vol. 3, (2006), pp. 200 e 203, ed. do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta.
(6). Dabney, Roxana, 1806-1871 ,“Anais da Família Dabney no Faial”, Vol. 3, (2006), pp. 218 e 218, ed. do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta.
(7). Dabney, Roxana, 1806-1871, “Anais da Família Dabney no Faial”, Vol. 3, (2006), pp. 224 e 225, ed. do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta.
(8). Dabney, Roxana, 1806-1871, “Anais da Família Dabney no Faial”, Vol. 3, (2006), pp. 243, e 261, ed. do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta.