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11
novembro

Chamava-se Carolina Street Curry da Câmara Cabral

Escrito por  José Arlindo Armas Trigueiro
Publicado em José Trigueiro
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 A FAIALENSE QUE SE TORNOU PRINCESA (4)

Casamento ortodoxo a bordo da fragata russa e o fim da história

(Continuação)

[Na capela da fragata russa (11)] Por causa do véu e das rosas, a coroa não pôde ser posta na cabeça de modo que o príncipe Gagarin e dois outros oficiais se revezaram a segurar a coroa por cima da cabeça de Carolina. Depois de algumas preces e cânticos, o padre, seguido pelo casal e este, por seu turno, seguido por dois oficiais que seguravam as coroas, deu três vezes a volta ao altar, tendo todos de dobrar-se por o tecto ser baixo e por a cauda do vestido de Carolina ser comprida, os oficiais tiveram muita dificuldade em manter-se perto dela. Depois disto as coroas foram retiradas, foi trazida uma pequena tigela com vinho sacramental e o padre levou-a aos lábios de um e em seguida do outro, e isto três vezes até ter sido consumida a última gota. Havia um grande homem de cabelos claros que salmodiava numa voz profunda peculiar, lendo de um grande livro. A seguir a isto o barão Maidell segredou-nos que eu tinha de ir com ele para o Kajute. ‘Que mais haverá ?´ pensei, não me lembrando  nesse instante que Kajute era a palavra alemã para camarote. Mary e o Dr. seguiram-nos. Em cima da mesa estava um prato redondo com um grande pão preto e um saleiro de vidro em cima. O barão disse-me que eu devia segurá-lo nas minhas mãos e fazer o sinal da cruz. Ele segurava na mesma imagem dourada. Ficámos de pé em cima do tapete e então o par de noivos veio e ajoelhou diante de nós e desempenhámos os nossos papéis e depois beijámos cada um deles. O príncipe inclinou a cabeça até ao chão diante do comandante. Depois os outros ‘padrinhos’ fizeram a mesma coisa, seguindo-se uma grande quantidade de beijos e de apertos de mão. O príncipe beijou cada um dos oficiais seus camaradas. Uns ‘smacks’, como disse George, que pareciam realmente arrancados. Em seguida veio o champanhe e foram feitas saúdes, e depois fomos levados a visitar o navio. Após voltarmos para terra [em pequena embarcação] alguns de nós desceram a cumprimentar as senhoras que estavam no hotel e só encontraram a Sr.ª Richardson. A banda russa veio a terra às quatro [horas] e tocou no Jardim Público. Fomos quase todos e estava lá quase toda a cidade. A banda dos Artistas [Artista Faialense] estava lá também e sentia-se um forte espírito de emulação».

 

Retratos dos príncipes Carolina Mershersky e Constantin Mersherky, conforme publicação do Dr. António Ourique Mendes no Boletim Cultural da Horta, Volume IX 1989-90, cujos originais lhe foram facultados pelo Eng.º José Filipe de Mendonça Athayde de Carvalhosa, 3.º sobrinho neto de D. Carolina, residente em Lisboa, com a devida deferência e sem qualquer interesse monetário, visando apenas levar aos leitores uma história romântica e verdadeira. 

As despedidas dos russos do Faial iniciara-se no dia 13 de Maio (1866) com a maior cordialidade e já com bastante saudade. O príncipe Mershersky e Carolina foram despedir-se a casa dos Dabney. «A pobre Carolina estava muito emocionada e pediu para ver todos os criados», segundo escreveu Roxana Dabney.

Esta descreve que «O camarote de Carolina tinha um aspecto muito agradável, com uma linda rede. Mary e o príncipe fizeram a cama. A primeira coisa que o príncipe fez foi espetar um prego num canto e pendurar o ícone com uma lamparina por baixo. (Vim a compreender mais tarde como era sincera a sua fé)». 

Depois de cerca de três anos da fragata “Dimitri Donskoy” entrar no porto da Horta pela primeira vez, e dois meses depois do casamento de Carolina, essa fragata deixou a ilha do Faial em 15 de Maio de 1866. Despedida cheia de tristeza, com tempo sombrio, apesar da banda estar a tocar. Com todos os oficiais de pé no tombadilho da popa acenando com os lenços, ao mesmo tempo que os canhões disparavam uma saudação, os príncipes Mershersky acenavam da janela do camarote (12).

O jornal “O Fayalense”, de 20 de Maio de 1866, escreve que a fragata de guerra russa “Dimitri Donskoy”, sob o comando de Maidell, saiu no dia 15 do porto da Horta com destino a Plymouth, Inglaterra, transportando 678 tripulantes e 2 passageiros.

A primeira carta de Carolina, depois da sua saída, chegou à Horta em Agosto desse ano de 1866. Era dirigida aos pais, proveniente de S. Petersburgo. Carolina ainda estava muito cansada da viagem, porque tinha viajado de Moscovo até lá numa horrível carruagem sem molas. Havia sido muito cordialmente recebida em casa do pai do príncipe, pela família e pelos amigos. Essa carta, bem como a recebida dias depois, em Setembro, foi lida em casa dos Dabney e talvez por outros amigos de Carolina. (13).   

Imagina-se que a menina Carolina, então pouco viajada, deverá ter sofrido imenso ao deixar tão longe a família, os amigos e o ambiente que desfrutava na ilha do Faial, onde todos se conheciam e a admiravam… Pretendentes não lhe faltavam conforme afirmava Roxana Dabney.

Em Setembro (em 10 e 22), Carolina escreveu uma extensa carta ao Padrinho – Richard W. Dabney – narrando pormenores da sua vida em Tula, Kaverino, Rússia, localidade onde os Mershersky viviam. Ficava próxima de S. Petersburgo para onde o príncipe Mershersky convidava o sr. Charles W. Dabney a visitar a Rússia. E, a terminar, Carolina escreveu: «Confio em Deus, como desejou que eu fizesse e como sempre faço. Espero que Ele nos ajudará e nos concederá o prazer de vê-lo dentro de dois ou três anos, pois planeamos visitar mais uma vez o Faial. Receba saudades da sua “afilhada” que o respeita e é a sua mais afeiçoada. CAROLINA MERSHERSKY»(14).

O pai de Carolina, José Curry da Câmara Cabral falecia em 13 de Janeiro de 1868 com grande pesar da família e dos amigos (15). Embora já tivesse 79 anos, a morte do pai de Carolina deve ter contribuído para aumentar as suas saudades da família e da ilha do Faial.

Assim, em 21 de Maio desse ano, quando os Dabney foram ao cais da cidade à espera de outros amigos, Roxana e a família verificaram que vinham no navio de Lisboa Carolina Mershersky e seu o príncipe Constantino Mershersky. Roxana escreveu ainda que «Mary Curry e o irmão, Miguel, tinham saído ao encontro deles». E acrescenta a seguir que «O príncipe Mershersky, à boa maneira russa, beijou-me a mão mas eu não lhe beijei a testa, como frequentemente se faz na Rússia» (16). Era notória a falta que Carolina sentia do pai, recentemente falecido, acompanhada da saudade dos amigos faialenses.  

A estada dos príncipes Mershersky na cidade da Horta prolongou-se por vários meses, sempre em interessantes convívios com a família e com os amigos, designadamente com a família Dabney.

Em 28 de Novembro de 1869 Carolina deu à luz na cidade da Horta o seu primeiro filho, «um pequeno príncipe (Sacha)», no dizer de Charles W. Dabney (17). O casal viria a ter dois filhos: Alexandre Mershersky, que nasceu em 28-11-1896, foi Tenente da Marinha Imperial Russa e veio a ser fuzilado em Yalta, na Crimeia, em 9-6-1927, e Waldemar Mershersky, de quem nada mais sabemos. Do príncipe Alexandre Mershersky sabe-se que casou duas vezes e teve dois filhos: o príncipe Constantin Alexandrovitch Mershersky e Vladimir Alexandrovitch que também terá sido assassinado em Yalta, mas em 1918. Como se sabe, a Rússia em 1917 foi objecto de uma feroz revolução comunista ditatorial, cujo regime se manteve até 1989.  

Quanto à princesa Carolina Mershersky, que terá estado em Lisboa em 1889, onde tinha alguns familiares, sabe-se que veio a falecer em S. Petersbougo, Rússia, em 2 de Maio de 1904. Do marido, príncipe Constantin Mershersky, pouco mais se sabe, salvo que nasceu em Ogerewevo, Kascira, Tula, Rússia (18). 

Esta é a história que me apraz deixar registada da faialense que se tornou princesa.                                                                                                                                                                             (Fim)

Bibl: Roxana Dabney, 1806-1871, “Anais da Família Dabney no Faial”, Volume 3, (2006), co-edição do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta; Lima, Marcelino, “Famílias Faialenses”, (1922), pp. 241-245, Minerva Insulana; Leite, José Guilherme Reis, “Enciclopédia Açoriana”, Internet, Centro de Conhecimentos dos Açores, ed. da Universidade Católica Portuguesa e do Governo Regional dos Açores; Mendes, Dr. António Ourique, Boletim do Núcleo Cultural da Horta, Volume IX 1989-90, Horta (reprodução das fotografias facultadas pelo Eng. José Filipe de Mendonça Athayde de Carvalhosa, com a devida deferência); Forjaz, Jorge, e Mendes, António Ornelas,“Genealogias das Quatro Ilhas: Faial, Pico, Flores e Corvo”, (2009), Vol. 1.º, p. 725, e Vol. 4.º, p. 2659, ed. Dislivro Histórica.

 

(11).  Dabney, Roxana, 1806-1871, “Anais da Família Dabney no Faial”, Vol. 3, (2006), pp. 269 e 270, ed. do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta.

(12). Dabney, Roxana, 1806-1871, “Anais da Família Dabney no Faial”, Volume 3, (2006), pp. 272 e 273, ed. do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta.

(13). Dabney, Roxana, 1806-1871, “Anais da Família Dabney no Faial”, Volume 3, (2006), p. 296, ed. do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta.

(14). Dabney, Roxana, 1806-1871, “Anais da Família Dabney no Faial”, Volume 3, (2006), pp. 298 e 299, ed. do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta.

(15). Dabney, Roxana, 1806-1871, “Anais da Família Dabney no Faial”, Volume 3, (2006), p. 360, ed. do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta.

(16). Dabney, Roxana, 1806-1871, “Anais da Família Dabney no Faial”, Volume 3, (2006), p. 382, ed. do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta.

(17). Dabney, Roxana, 1806-1871, “Anais da Família Dabney no Faial”, Volume 3, (2006), p. 481, ed. do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta.

(18).  Lima, Marcelino, “Famílias Faialenses”, (1922), pp. 241-245, Minerva Insulana; Forjaz, Jorge e Mendes, António Ornelas, “Genealogias das Quatro Ilhas: Faial, Pico, Flores e Corvo”,(2009), Vol. 1.º, p. 725, e Vol. 4.º, p. 2659, ed. Dislivro Histórica.

 


 

 

 

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