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03
fevereiro

Mudar

Escrito por  Jorge Costa Pereira
Publicado em Costa Pereira
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1. Já escrevi nestas páginas que a construção da unidade político-administrativa dos Açores à volta da solidariedade partilhada no crescimento e nas dificuldades é um desafio permanente e nunca plenamente atingido. Assegurar o desenvolvimento económico e social dos Açores, a concretização do crescimento harmonioso e integral de todas as ilhas, respeitar os seus ritmos próprios, assumir como objectivo da prática política a justiça e a equidade no direito ao desenvolvimento e ao progresso, tudo isto, mais do que reivindicações do tempo presente, são questões fulcrais para a sobrevivência da nossa Autonomia regional.

E promover uma Autonomia açoriana geradora de desenvolvimento e progresso só será conseguido enquanto nela todas as ilhas se sentirem tratadas com justiça e equidade. Por isso, governar os Açores é olhar para todas as ilhas e definir estratégias de desenvolvimento para além de interesses eleitoralistas e de visões concentracionistas. Governar os Açores é respeitar essa realidade única e inultrapassável de que a nossa riqueza reside também na nossa diversidade, que cada ilha é um mundo de igual dignidade e que a harmonia se faz de investimento repartido, tendo em conta as dificuldades do tempo presente.

2. A poucos meses do fim da sua governação, não tenho hoje dúvidas de que Carlos César ficará na história dos Açores como o governante que até agora mais fundo cavou as divergências e aprofundou a distância no desenvolvimento entre ilhas, privilegiando umas em detrimento da grande maioria, que se vê estagnada e a cada dia que passa esvaziada da sua maior riqueza: a dos seus filhos que saem e não voltam.

Basta analisar a crua realidade demonstrada pelos últimos Censos para concluirmos que cinco ilhas dos Açores (Santa Maria, Graciosa, Pico, S. Jorge e Flores) atingiram mínimos populacionais históricos, Terceira e Faial estagnaram e S. Miguel é a única ilha a crescer com significado.

3. Há uns meses, o insuspeito Cunha de Oliveira, declarava ao "Diário Insular" que "...a prova de que ainda não há nos Açores desenvolvimento harmónico é o retrocesso populacional" e acrescentava: "não duvido que o actual sistema autonómico esteja em vias de colapso".

4. Também o insuspeito e nosso conterrâneo Fernando Meneses, em Julho passado, dizia ao "Diário Insular" que "com a estagnação na Terceira e Faial e crescimento em S. Miguel, observa-se uma preocupante diminuição de população nas restantes ilhas que, a manter-se, conduzirá a prazo a uma verdadeira desertificação", acrescentando desassombradamente que a "concentração de serviços em S. Miguel apoiada nas novas tecnologias e justificada com a racionalização dos meios e dos custos" implicou "graves consequências ao nível do emprego nas ilhas mais frágeis".

5. Um outro insuspeito, Osvaldo Cabral, definiu assim esta governação regional em relação à maioria das ilhas dos Açores: " Não há grandes investimentos, não se aposta nas pessoas, ignora-se a produção local, dificultam-se as acessibilidades, incentiva-se a importação, promete-se betão e esquece-se a educação."

6. Só a cegueira completa pode impedir que se reconheça a gravidade e as consequências da situação presente.

Só uma acéfala obediência permitiu que, em todos estes anos, a governação de Carlos César tenha encontrado apenas elogio, compreensão e defesa no aparelho partidário do PS do Faial.

Só o mais abstruso seguidismo pode justificar as mais disparatadas desculpas dadas por responsáveis locais para o incumprimento, adiamento ou simplesmente cancelamento de promessas solenemente feitas aos Faialenses. Cheio de razão, desabafava em voz alta um conselheiro, num dos últimos Conselhos de Ilha, afirmando não compreender qual o problema de se exigir ao Governo Regional a ampliação da pista do aeroporto da Horta, pois tinha sido o próprio Presidente do Governo a prometer tal investimento!

7. Ainda hoje é claro que não há no PS do Faial uma única personalidade a quem se possa recorrer e que tenha o mínimo peso a nível regional. E, como se não bastasse isso, os responsáveis partidários locais, presentes em várias instituições, temem quotidianamente a sua sombra: veja-se a dificuldade que é em arrancar nessas instituições uma posição em defesa desta terra e destas gentes. Se é contra o Governo da República ainda vai que não vai; mas se está em causa o Governo de Carlos César, o receio, as explicações, o agora é que vai ser, o adjectivo, a oportunidade, tudo justifica um arrazoado de palavras que dilua a crítica e esmoreça a justa reivindicação em favor desta terra e destes Faialenses que maioritariamente nestes anos confiaram e acreditaram neste Partido Socialista e nestes seus dirigentes.

8. O actual poder socialista já há muito pôs de parte o objectivo de construir a unidade político-administrativa dos Açores à volta de uma solidariedade partilhada no crescimento. Administrando alguns rebuçados em alturas estratégicas para tentar calar o eleitorado da maioria das ilhas, Carlos César aprofundou a prática de ter umas ilhas filhas e outras enteadas. E, ao lado dele, tem estado, desde 1996, Vasco Cordeiro, colaborador e participante desta perversão da Autonomia que hoje vivemos.

Este ano, em democracia, temos nova oportunidade de mudar o nosso futuro. E sabemos todos bem que não é com quem nos trouxe até aqui e com quem nos conduziu a este estado de coisas que podemos mudar o que quer que seja nos Açores!

 

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