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01
março

Oportunidades Ambientais em Itália

Escrito por  Frederico Cardigos
Publicado em Frederico Cardigos
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 Pegando em tudo o que lá estava, tirei a mão do bolso da frente das minhas calças e, entre diversas lembranças activas e passivas da minha existência recente, encontrei um bilhete de acesso aos equipamentos do Parco Nazionale delle Cinque Terre, em Itália. Este Parque Nacional foi classificado por, entre outros factores menos importantes, encerrar testemunhos de uma relação sustentável e secular entre o homem e a natureza que moldou a paisagem com terraços agrícolas que se estendem desde o nível do mar até aos 500 metros de altitude das montanhas circundantes. São patamares paralelos que, quais curvas de nível, estavam cultivados com vinha e de onde se produzia um vinho com qualidade. Graças ao Parque, parte desta vinha está novamente cultivada, produtiva e com rendimento.

Curiosamente, quem visitasse esta área antes da sua classificação teria uma visão completamente diferente. Veria, nesse caso, cinco vilas decadentes e presas a uma perspectiva de vida pouco acima da miséria. Graças à energia, capacidade de gerar consensos e visão de um antigo Presidente de Câmara de uma destas vilas, em 2004 a área foi classificada como Parque Nacional e uma parte dela, correspondente à zona com vinha, certificada como Património da Humanidade.

O contraste, segundo os próprios habitantes, é extraordinário. Agora, com mais de dois milhões de visitantes pagantes por ano, a área é rentável e inverteu o declínio demográfico até junto da população mais jovem. Não se pense que o processo tem sido consensual, sem esforços ou sem limitações. Tudo está regulado e o Parque é omnipresente no espaço. Não há esquina que não tenha uma placa que relembre a existência do Parque e, sempre que justificável, explicando e determinando as regras de utilização ou publicitando o investimento efectuado. O nível de intervenção é tão incisivo que, mesmo para entrar dentro das vilas, se tem de provar que se é morador ou pagar o respectivo preço. São inúmeras as cancelas controladas pelos funcionários do Parque. Ou melhor, na realidade, o Parque, oficialmente, tem apenas dois funcionários. O emprego é dado por três cooperativas dinamizadas pelo Parque ou através de protocolos de cooperação que o Parque mantém com diversas entidades, incluindo a polícia. Desta forma indirecta, os transportes públicos pertencem ao Parque, o Parque tem vários restaurantes, o acesso ao mar é controlado pelo Parque, o comércio está baseado em produtos do Parque e grande parte do emprego é dado pelas cooperativas que o Parque montou. Todas as famílias estão, de uma forma ou de outra, presas ao Parque.

Este é um autentico regime Orweliano, montado em volta de um visionário que teve a capacidade de mudar a vida desta população para muito melhor. É histórica a relação razoavelmente tolerante que os italianos mantêm com os seus ditadores, desde o tempo dos romanos… Aqui, mais uma vez, comprova-se.

No reverso da medalha destas imposições, encontramos os investimentos com origem no Parque e que se distribuem por todo o lado. Estas obras, num local com evidentes limitações ambientais, tornam a vida possível, até mesmo tentadora... As verbas vêm do Ministério do Ambiente e das enormes receitas que o Parque gera. Embora o método me levante dúvidas, porque tenho muito amor à liberdade, o que é facto é que, neste local, as limitações ambientais viraram ao contrário as decadentes perspectivas de cinco vilas.

As comparações entre o Parque Nazionale delle Cinque Terre e a Paisagem da Vinha da Ilha do Pico impõem-se. Será este o caminho que a Paisagem da Vinha deve seguir? Será  este o modelo que se ajusta? Tenho dúvidas. Preciso de mais dados. Tentei conhecer o mentor da área italiana. Tenho tantas perguntas na minha cabeça. Infelizmente, uma doença grave impediu-o de se encontrar connosco e os seus colaboradores mais próximos, até eles, não sabem parte das respostas que procuro. Ponho na minha lista de trabalhos de casa tentar convencê-lo a ir à reunião que organizaremos na Ilha do Pico no final de Abril. Dizem-me que não será nada fácil, “a doença é muito grave”… 

Olho novamente para o meu bilhete. Em letras enormes é referido que os cinco euros que paguei dão para, durante um dia, entrar nos centros de interpretação do Parque, efectuar os percursos pedestres e andar em todos os transportes públicos, incluindo o comboio. Multiplico cinco euros pelos 2 milhões de visitantes anuais e a luz faz-se: aqui o Ambiente não é uma limitação, é uma oportunidade dourada.

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