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20
abril

JACOB JEREMIAS TOMAZ PEREIRA (1922-1999) Despachante alfandegário, emigrante e investigador históri

Escrito por  José Armas Trigueiros
Publicado em José Trigueiro
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Nasceu na freguesia da Fazenda, concelho de Lajes das Flores, em 25 de Junho de 1922. Depois de doença súbita afectada por acidente cerebral anterior, viria a falecer em 19 de Março de 1999 num hospital de Fresno, Califórnia, cidade para onde emigrara em 1972.

Era filho de Mariano Tomaz Pereira, um combatente da 1.ª Guerra Mundial, pelos EUA, que o afectou gravemente, e de Maria José Jeremias Tomaz Pereira, senhora prendada de distintas qualidades humanas e culturais. Descendia de ilustres famílias florentinas de origem nórdica, de cuja linhagem se orgulhava.

Na escola da sua terra natal fez a instrução primária com excelente aproveitamento, motivo pelo qual logo seguiu para as cidades da Horta e de Ponta Delgada, onde concluiu o Curso Geral dos Liceus. Aí foi um aluno brilhante, tendo suspendido o ensino para prestar Serviço Militar, essencialmente prestado em Tavira. Quer em S. Miguel, quer no Continente Português, granjeou importantes amizades e simpatias que lhe serviram para enriquecer o seu nível cultural. Em Tavira manteve especial convívio social, com destaque para os tradicionais bailes nas eiras, onde os corridinhos algarvios tinham especial supremacia.

Regressado à ilha das Flores, desempenhou profissionalmente na vila das Lajes, durante vários anos, o cargo de Despachante Oficial da Alfândega da Horta; desempenhou também o lugar de solicitador judicial da Comarca das Flores, não obstante reconhecer a sua falta de formação jurídica para o efeito. Paralelamente, com o florentino José de Freitas Silva, estabeleceu aí, durante alguns anos, a Drogaria Florentina, Ld.ª, de que foi sócio-gerente. Essa empresa, para além de perfumaria e drogaria, vendia medicamentos, sob a responsabilidade dos médicos municipais, servindo assim as populações das freguesias limítrofes, numa altura em que apenas havia uma farmácia na vila de Santa Cruz.

Mas foi como intelectual e investigador histórico que Jacob Tomaz se distinguiu, fazendo então importantes relacionamentos nessas áreas.

Jacob Tomaz foi o grande obreiro da edição dos “Anais do Município de Lajes das Flores”, conjuntamente com o poeta florentino Pedro da Silveira, que a Câmara Municipal, sob a presidência de Fernando de Freitas Silva, efectuou em 1970. Nela foram inseridos importantes estudos históricos deles sobre o concelho das Lajes das Flores, na sequência dos trabalhos manuscritos feitos pelo autor, João Augusto da Silveira (em 1848/49) e por seu sobrinho Padre João Augusto da Silveira (em 1876). Refira-se, a propósito, que, em 2009, o historiador Francisco Gomes preparou uma 2.ª Edição dessa obra que o referido Município editou.

Jacob Tomaz colaborou com Armando Cortes-Rodrigues na recolha de folclore florentino para o Cancioneiro Geral dos Açores. Igualmente colaborou com outros investigadores que se interessavam pelos assuntos florentinos, designadamente com o Tenente Coronel José Agostinho, na pesquisa de aves, plantas, rochas e outros assuntos de interesse histórico das Flores.

Recolheu o folclore das Flores, designadamente o que Francisco António Gomes seleccionou para o livro que a Câmara Municipal de Lajes das Flores, da responsabilidade de Cristiano Gomes, editou em 1986 com o título de “Subsídios para o Cancioneiro Popular da ilha das Flores”. Igualmente recolheu música e letra do folclore florentino, gravando vários números, nomeadamente o que Maria Antónia Esteves introduziu no seu disco “Canto do Prisioneiro”, relativo à “Música Tradicional Açoriana”.

Manteve amistoso relacionamento com a família de Roberto Mesquita, designadamente com a sua viúva D. Maria Alice Lopes de Mesquita e com sua irmã Maria Leonor, durante a década de 1940, das quais conseguiu obter alguns poemas inéditos do autor de “Almas Cativas”. Assim, foi com base nalguns desses poemas, das histórias desse relacionamento e de outros elementos históricos que o escritor Manuel Ferreira escreveu “O Segredo das Almas Cativas”, editado em 1991 pela Câmara Municipal de Santa Cruz das Flores.

Durante a sua vida colaborou em vários jornais, com artigos sobre os mais variados temas, sobretudo de interesse histórico e cultural, designadamente no “Jornal de Tavira”, “Correio dos Açores”, “Diário Insular”, “Diário de Notícias”, “Correio da Horta”, “O Telégrafo”, “As Flores”, “A Ilha” e “Portugal Madeira e Açores”.

Dos seus muitos artigos históricos por ele publicados, registamos alguns que mantemos em arquivo, editados pelo Correio da Horta: “Alvilda e a sua Lenda”, “Naufrágio da Barca ‘Modena’”, “Horta - New Bedford – Quatro Anos de Viagem de Manuel Borges de Freitas Henriques”, “Freitas Henriques – Suicídio de um Cônsul”, “Scrimshaw e ‘Colecções’”, “Os Baleeiros e o Scrimshaw” e “Alguns Ascendentes de Manuel do Nascimento, de seu Primo Manuel Borges e Uma Pirata de Marfim do Visconde da Praia da Vitória”.

Foi durante vários anos presidente da Direcção da Cooperativa de Lacticínios Senhor Santo Cristo dos Milagres da Fazenda das Lajes, bem como mordomo da Irmandade do Divino Espírito Santo da mesma freguesia, cargos que desempenhou com dinamismo e inteligência.

Foi Presidente da Comissão Concelhia de Assistência de Lajes das Flores e Provedor da Santa Casa da Misericórdia do mesmo concelho. Para além desses cargos de interesse social, foi vereador da Câmara Municipal de Lajes das Flores, onde desempenhou as funções de Vice-Presidente, durante o primeiro mandato da Presidência de José de Freitas Silva, iniciado em 1948.

Refira-se que todos estes cargos foram por ele gratuitamente desempenhados.

 Por dificuldades financeira, já que foram extintos os despachos alfandegários que efectuava nas Flores e por ter sido proibida a venda de medicamentos na empresa de que era sócio, emigrou com sua mãe e tia, em 1972, para os EUA, onde fixou residência na cidade do Fresno, Califórnia. Contava já 50 anos de idade.

Aí, depois de passar por serviços vulgares na indústria hoteleira, trabalhou numa repartição de finanças públicas, onde tinha por funções o controlo das declarações de impostos. Frequentara, durante vários anos, ao mesmo tempo que trabalhava, o “Fresno City College”, cujo curso universitário interrompeu, devido a um grave derramamento cerebral.

Apesar de viver longe da sua terra natal, continuava intimamente ligado e apaixonado pela investigação histórica açoriana, designadamente pela da sua querida ilha das Flores. Assim, a convite do Dr. Eduard Mayone Dias, colaborou no “Primeiro Simpósio Sobre a Presença Portuguesa na Califórnia”, durante a década de 1980. Nele apresentou um trabalho, “Shenandoah Canção de Ida e Volta”, sobre a canção “Santiana” que do folclore dos EUA chegou às Flores trazida pelos baleeiros florentinos.

Durante a sua vida sempre recolheu objectos antigos, onde constavam, designadamente, imagens, louças, selos, livros, moedas, medalhas e marfins ou “scrimshaws”, com elevado interesse histórico.  

Assim, em Julho de 1988, doou ao Governo Regional dos Açores 31 “scrimshaws”, que seriam a maior colecção privada da especialidade (orgulhava-se de ser superior à da família Kennedy) – conforme evidenciou uma revista americana que cheguei a observar. Nessa doação incluiu 210 cartas por ele recebidas do cientista açoriano Tenente-Coronel José Agostinho, que abordavam temas de interesse científico (1). Aquela colecção de “scrimshaws”, que se encontra no Museu dos Baleeiros das Lajes do Pico, possui grande valor histórico. Desses “scrimshaws”, que terão tido origem nas baleeiras americanas do século XIX, destaca-se o que foi elaborado por Manuel Borges de Freitas Henriques (assinado e datado pelo autor) com o desenho da “Mulher Pirata”, de que fala Pedro da Silveira, e que pertencera ao Visconde da Praia da Vitória (2). É desse autor que Pedro da Silveira escreveu que “Lenda ou verdade, teria sido um dos amantes da célebre «mulher pirata»”, facto este que Jacob Tomaz, que se considerava descendente de Manuel Borges, me afirmou repudiar (3).

Anteriormente, quando emigrou, havia deixado à Biblioteca de Angra do Heroísmo, da responsabilidade do Dr. Baptista de Lima, parte dos muitos livros que possuía, com o objectivo de os preservar para a posteridade, não obstante ter tido o desgosto de verificar, anos depois, que esses livros não foram ali encontrados. Várias deles eram obras inéditas, possuidoras de dedicatórias dos respectivos autores, que ele orgulhosamente guardara.

Jacob Tomaz distinguiu-se, sobretudo, como investigador histórico de elevado mérito, e era dotado de privilegiada inteligência e possuidor de elevada cultura.

 

BIBL: Entrevista ao próprio de 15-8-1984; Jornal “Correio da Horta” de 6-11-1984, 29-1-1985, 20-2-1985, 26-2-1985, 9-4-1985, 16-4-1985, 24-9-1985, 31-12-1985, 7-1-1996, 14-1-1986, 21-1-1986,18-3-1986, 25-3-1986, 1-4-1984, 26-8-1986,16-9-1986; entrevista ao próprio de 15-12-1992; Jornal “O Monchique”, de 25-5-1999; Trigueiro, José Arlindo Armas “Florentinos que se Distinguiram”, 2004, p. 257-261, ed.. da Câmara Municipal das Lajes das Flores, e “Fazenda das Flores - Um Século de Sucesso” (1900-2000), p. 323-326, ed. da Junta de Freguesia da Fazenda.

(1). Jornal “Correio da Horta”, de 12-7-1988.

(2). Jornal “Correio da Horta”, de 16-9-1986.(3). Roberto Mesquita, “Almas Cativas e Poemas Dispersos”, (Cronologia p. 228), edição ÁTICA de 1993

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