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  • Retalhos da nossa história – CXXV - Governador António Emílio Severino de Avelar
22
junho

Retalhos da nossa história – CXXV - Governador António Emílio Severino de Avelar

Escrito por  Fernando Faria
Publicado em Fernando Guerra
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Orador brilhante e político astuto e controverso, o Dr. António Emílio Severino de Avelar foi o governador civil do distrito da Horta nomeado a 30 de Janeiro de 1896 para o lugar que vagara com a saída do Dr. Amâncio Pinheiro. Esteve no exercício do cargo até Fevereiro de 1897, altura em que o Ministério de Hintze Ribeiro foi substituído pelo Gabinete progressista de José Luciano de Castro. 

O Dr. Avelar fora eleito líder distrital dos regeneradores em 22 de Outubro de 1895 e, porque se manteve no exercício dessas funções até ao derrube da monarquia, - mais precisamente até 31 de Outubro de 1910 quando aqueles se dissolveram e aderiram em massa ao partido republicano - desempenhou papel proeminente na vida política do distrito. Aliás, os 15 anos em que esteve à frente do partido regenerador, deram-lhe ainda mais poder e visibilidade, pois o seu protagonismo já há muito se evidenciara, numa situação partidariamente fluida e numa proclamada “independência” que, ora o fazia pender para os progressistas, ora o aproximava dos regeneradores. Personalidade influente e discutida, o Dr. Avelar foi ainda chefe do distrito da Horta em duas outras ocasiões: de 29 de Junho a 5 de Outubro de 1910, nomeado pelo Governo de Teixeira de Sousa – o último da monarquia - e, já na I República, de 6 a 30 de Janeiro de 1915 por designação do Ministério de Vítor Hugo de Azevedo Coutinho. 

Natural da freguesia da Conceição da cidade da Horta, António Emílio Severino de Avelar nasceu a 29 de Janeiro de 1843 e era filho do tabelião da comarca António Severino de Avelar e de Raquel Emília de Sousa. Frequentou o Liceu Nacional e a Escola Médico- Cirúrgica de Lisboa onde se formou em 21 de Julho de 1866. 

Emigrou para o Brasil em busca da fortuna que, afinal, viria encontrar no Faial, para onde regressou pouco depois, aqui abrindo “o seu consultório, exercendo a clínica com uma actividade e perícia não igualada até então” . Facultativo do partido municipal (5.1.1876), cirurgião-médico do hospital da Santa Casa (4.12.1887), Guarda-mor da Estação de Saúde (24.1.1879) e Subdelegado de Saúde (18.8.1900), o Dr. Avelar passou à situação de aposentado por decreto de 16 de Junho de 1903.

Dedicou-se igualmente ao ensino, como professor de Matemática e Física no Liceu da Horta, sendo seu reitor em três diferentes épocas: de 23 de Abril de 1868 a 10 de Outubro de 1871; de 15 de Fevereiro de 1872 a 14 de Setembro de 1879 e de 27 de Junho de 1881 a 12 de Março de 1890, num total de quase 20 anos.

No campo político, o Dr. Avelar presidiu à comissão executiva da Junta Geral do distrito da Horta de 31 de Agosto de 1879 a 16 de Março de 1880 e de 3 de Maio de 1881 a 22 de Abril de 1885, tendo igualmente sido presidente da mesma Junta Geral – a “Junta Grande”, na gíria popular – de 1 de Maio de 1882 a 30 de Abril de 1885 e de 1 de Maio de 1886 a 31 de Dezembro do mesmo ano.

Gravitando então na órbita dos progressistas e contando com o apoio destes, o Dr. Avelar aceitou disputar a minoria nas eleições de 20 de Outubro de 1889 – que tacitamente seria do partido regenerador - conseguiu ser eleito deputado pelo círculo da Horta derrotando o candidato regenerador, que era o Dr. Manuel de Arriaga Nunes, líder desta força partidária. Apesar de não ter chegado a exercer o mandato, por a Câmara haver sido dissolvida na sequência do Ultimato da Inglaterra a Portugal de 11 de Janeiro de 1890, jamais se livrou da acusação que lhe faziam os mais ortodoxos membros daquele partido de se haver mancomunado com os progressistas. De qualquer modo foi com a sua escolha em 1895 para a chefia do mais antigo dos partidos rotativistas – na qual muito se empenhou o Conde de Ávila, através do governador Amâncio Pinheiro – que os regeneradores recuperaram forças e se alcandoraram aos lugares do poder, com ele ou o genro Visconde de Leite Perry a ocuparem quer a chefia do distrito quer a representação popular na Câmara dos Deputados. 

Amigo de infância e contemporâneo de estudos na Horta e em Lisboa do Conde de Ávila, manteve com ele uma longa e intensa correspondência de que existem arquivadas imensas cartas. Deste acervo essencial refiro apenas um ou outro excerto, para melhor se entender como era a vida nestas ilhas, desde os meandros da política e da sociedade até aos negócios mais ou menos lícitos. 

Assim, numa missiva de 15 de Junho de 1896 e que era resposta a uma do Conde, o governador Avelar informa-o que presidiu “à festa da inauguração do teu retrato na escola das Angústias, que esteve esplêndida”. Discursou e “disse a teu respeito o que o meu coração e a nossa velha amizade me ditou de justiça e só desejo que todos os filhos desta formosa terra te imitem no amor pátrio e nobreza de sentimentos” .

 Em outra carta, datada de 30 de Maio de 1897, Avelar agradece “de todo o coração” as “bondosas palavras que reconheço ser dum amigo verdadeiro” e comunica que faz “a diligência de organizar o partido como deve ser para ter força e disciplina que sobre tudo faltava”. E aludindo às grandes negociatas já então praticadas, escreve: “É preciso que os nossos amigos aí aprendam com os progressistas como se faz a política. Miguel [da Silveira] acaba de obter importação de milho para ganhar contos de reis e é com pólvora inglesa que faz guerra. É por isso que compram votos a 5. 000 reis. Eu gasto do pouco que possuo e tudo é sacrifício; porque sabe bem que as fortunas aqui são pequenas e não permitem loucuras” . 

Em Novembro de 1898 exulta “pela nossa vitória sobre o nosso inimigo, que ficou derreado e desesperado” e volta a insistir no fortalecimento do “nosso partido no distrito nas condições de solidez e força a manter o prestígio regenerador nestas paragens”. É que, acrescenta ele, “o Miguel continua exportando o seu milho e nós com os granéis atulhados e nada de despacho”. E, para que não subsistissem dúvidas, esclarece que “não calculas o trabalho que tenho tido para tirar da cabeça deste povo a América; mas se continua um Miguel a dispor do trabalho dos outros com assentimento do Governo, serei eu que me porei à frente do movimento para evitar a ruina deste pobre povo que está sendo explorado do modo mais escandaloso que se pode imaginar”. Ainda espera, todavia, “que não chegaremos a tais extremos e que o império da lei se restabeleça”. 

 O Miguel, quase sempre presente nas cartas de Avelar era, como assinalei, o chefe do distrito Miguel António da Silveira, líder dos progressistas, acusado, “à boca cheia, de fazer descarado contrabando com o milho importado dos Estados Unidos, sem pagar impostos, mas que se devia destinar simplesmente a colmatar as faltas nas ilhas do distrito e que o governador, abusivamente, exportava para o continente, locupletando-se com os imorais lucros”.   Terá sido tão grande o escândalo, que os progressistas se viram obrigados a afastá-lo da chefia do distrito e, apesar de continuarem a governar o País acabaram por, inesperadamente, sair derrotados nas eleições de deputados de 1899, as quais sucessivamente proteladas pelos progressistas só se realizaram a 28 de Janeiro e 11 de Fevereiro de 1900, respectivamente, nos círculos de São Roque (composto das ilhas Pico e Flores) e da Horta (Faial e Corvo). Mas a vitória da oposição regeneradora naqueles dois círculos eleitorais, sendo humilhante para os progressistas, foi acima de tudo o resultado da liderança partidária do regenerador Severino de Avelar. A esta vitória não “cozinhada” outras se seguiriam, a elas se juntando a escolha para o governo do distrito de personalidades ligadas ao Dr. Avelar, em especial do seu genro Leite Perry, como, a seu tempo, teremos ocasião de referir. 

Para já, e em síntese, assinale-se que o faialense Dr. António Emílio Severino de Avelar, governador civil da Horta em três ocasiões – duas na Monarquia e uma na República - era casado com Jesuína da Silva Avelar e que a sua única filha, Antónia Avelar, casou com o Dr. José Bressane de Leite Perry ( mais tarde Visconde de Leite Perry) o qual, a partir de 1895, altura em que o seu sogro passou a chefiar os regeneradores locais, exerceu cargos importantes, designadamente presidente da Câmara da Horta, governador do distrito e deputado às Cortes. 

Ainda em vida o Dr. Avelar ficou perpetuado na toponímia da cidade da Horta por deliberação de 29 de Outubro de 1896 da Câmara Municipal, que “sob proposta do vereador padre Ávila” decidiu “que a rua que vai desde a do Carmo pela rua acima do Livramento até à rua Cônsul Dabney se denominasse Rua do Médico Avelar” . Pouco tempo depois foi agraciado com a carta de Conselho por decreto de 1 de Fevereiro de 1897. 

Faleceu a 5 de Fevereiro de 1917 e foi alvo das maiores homenagens, porque fora, na opinião de um diário local, “um grande caudilho político, importante vulto da nossa terra e um dos homens de maior destaque dos últimos tempos” .  

 
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