Considerando que um dos desígnios da economia açoriana é o turismo, com um nível de clientela que se pretende de qualidade, com consciência ambiental e com rendimentos médios, houve uma aposta ao nível governamental no sentido de tabelar a restauração ao mesmo nível.
Para atingir esse patamar de qualidade na restauração, condizente com uma política de hotel de 4 estrelas, foi necessário investimentos altamente qualificantes, quer ao nível do ensino profissional, com a abertura de escolas hoteleiras e de cursos de restauração, e também teve como consequência a exigência nos apoios financeiros a conceder ao setor privado.
Ora, esta situação requer vários raciocínios sobre a nossa realidade, virtudes e fragilidades. Na verdade, o patamar de partida da nossa restauração açoriana era baixo, apesar da virtude da nossa gastronomia, o número de restaurantes era reduzido, o serviço não satisfatório, a formação pouca e pouca diversificação.
Este nivelar por cima, pela exigência e pela qualidade, tem os seus frutos e as suas vicissitudes. De facto, houve um grande desenvolvimento da restauração e simultaneamente de unidades de qualidade para satisfazer o aumento da clientela turística.
Todavia, teve como aspeto menos positivo a barreira que se criou em muitos sítios e ilhas açorianas, que não se reviam neste modelo, onde não foi possível chegarem as inovações das escolas profissionais, com cursos de hotelaria e restauração, e onde ter que construir um restaurante com tal nível de exigência, para um público reduzido, não seria sustentável e o investimento seria inviável.
Isto é, ao nível prático, os dinheiros públicos serviram apenas para os grandes mercados, ficando os pequenos de fora, criando-se mais uma injustiça no desenvolvimento mais equilibrado das nossas ilhas, em diversos setores.
E como não havia apoios para os vulgares snack bares das pequenas ilhas, muitos destes se foram degradando ao longo dos anos, criando-se uma situação de restaurantes novos nas ilhas maiores e snack bares degradados nas outras.
Este disparate das políticas de incentivos ao investimento na restauração foi apenas reconhecido muito tarde, só agora se permitindo baixar o patamar de exigência e está-se a dar a oportunidade para estabelecimentos de restauração, que não apenas restaurantes caros, poderem aceder aos financiamentos comunitários e modernizarem-se, servindo assim a população local e a turística.
E o Faial? Está no comboio da frente ou deixou passar a oportunidade e está no grupo das ilhas menos apoiadas neste setor? Infelizmente está neste último!
Vimos aparecer os hotéis de 4 estrelas mas a restauração a não acompanhar esse crescimento e não assistimos à renovação desejável na nossa rede de snack bares, salvo felizes exceções.
Vimos aparecer frentes mar com restauração incluída, mas no nosso caso não. O exemplo das Portas do Mar, com investimento público, seguido de investimento privado em restauração, é um excelente exemplo de requalificação urbana sustentável, assim como a frente de restauração criada na Praia da Vitória.
A Horta deixou fugir uma possível requalificação com o sismo de 98, deixou fugir a requalificação com o Urbcom, deixou infeliz e injustamente fugir, agora com a construção do novo porto, a oportunidade de oferecer restauração de qualidade. Tal como nunca teve nas mãos destes governantes um saneamento básico que também requalificasse a cidade e a virasse para o turismo e a restauração. E só agora se fala em projetos de arquitetura de requalificação da frente mar duma das mais belas baías do mundo, nesta atual conjuntura. Sabe a pouco…
Mas, apesar desta má governação do governo regional, que deu essa possibilidade e investiu noutros locais com oportunidades de aparecer nova restauração, acompanhado pelo município da horta que, neste particular domínio, nada tem apoiado os empresários, devem os empreendedores faialenses meter mãos à obra e continuar a reivindicar condições para desenvolver uma restauração condizente com a oferta das unidades hoteleiras de que dispomos, com o número de voos e turistas que temos, os quais não nos podemos dar ao luxo de não os receber como merecem.
Temos, assim, a oportunidade de apresentar candidaturas a este sistema de incentivos (devidamente alterado) e de modernizar e inovar na nossa restauração, para que a Horta continue a crescer na sua qualidade de oferta turística, recuperando o tempo perdido, e dando uma bofetada em quem não acreditou neste setor e apenas apoiou tascas.