É verão. Tempo de férias. Até o Gordon resolveu dar uma passadita pelos Açores, possívelmente em gozo de férias, porque mesmo furacão tendo direito a férias, tem consciência que ilha é lugar chique. Diferente. Aprazível. Ilha, seja ela qual for, traz sempre um misto de sensações – um aroma, uma cor, uma saudade, uma capacidade de sonhar… mas isso paga-se muito caro e nós, quais andróides, rebelamo-nos por vezes porque Deus nos deu essa capacidade.
E o Gordon, insensato, resolveu fazer uma visita de causar pânico e passível de produzir efeitos nefastos, Açores fora. Ficamos cerca de uma semana aguardando, conjecturando, fazendo dele tema de conversa. Não medo. Os açorianos são valentes, não é um furacãozito à toa que os derruba, que lhes trama a vida. Estão habituados a terramotos, sismos, ciclones, vendavais, enxurradas, ventanias, tudo isto e muito mais e não ligam meia. Mais furacão, menos furacão…
Ele foi chegando cheio de genica, aquela genica própria de qualquer furacão que se preze. Logo iniciou estragos, até que se recordou que havia algo importante meio esquecido. E, aí retrocedeu. Camuflou-se. Mudou de nome. tempestade tropical. Repensou e achou não ser suficiente. Então desviou-se, deu às de vila diogo, qual cachorro vadio, medroso, rabinho caído, desapareceu. E, aposto, não volta tão cedo. E porquê? Não falta de vontade, mas medo. Muito medo ao ter conhecimento que a troika andava por aí à solta e que a qualquer momento atacava. E nada resiste a uma troika, nem um Gordon. O que é um furacão comparado com uma troika? Ela logo lhe diria o que é bom para a tosse, porque, amiga troika é Deus no céu e você na terra.
Assim sendo, o furacão, travestido, sabichão, retirou-se rápido, não antes de ter arrumado um problemão com a meteorologia, tal como Galileu Galilei arrumou com o santo ofício ao afirmar que a terra se movia.
Conclui-se a veracidade do ditado que diz Deus escrever direito por linhas tortas. Ora, vejam só, se não tivéssemos uma troika tão eficiente, tão nossa amiga, que nos visita amiudadas vezes, nunca com outros intuitos que não proteger-nos dar-nos carinho e amor, teríamos sido atingidos por um furacão e esse, sim, seria capaz de nos roubar tudo até a vida, num ápice, coisa que a troika nunca faria, porque troika que é troika, pode matar lentamente, cuidadosamente, afectuosamente, com todos os condimentos e muito contrariada, porque ela é a nossa segunda mãe.
Ela gosta de nós vivos. Sabe da inteligência de se chegar aos bons e ser um deles. É por isso que não descola. Mas nós somos bem comportados e vamos pensando que não há noite longa que não encontre novo dia.
Fui repetitiva. Mas, que fazer? Foi um alívio falar da troika. Sempre falamos do que mais amamos. Espero que os leitores me compreendam. Não joguem o jornal no lixo. Encarecidamente vos peço. É que, nada mais deprimente do que ao virar a esquina duma qualquer rua da vida, topar com a nossa crónica espreitando, tampa fora, dum qualquer mal cheiroso recipiente de lixo!