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15
março

MAS…

Escrito por  Maria Antonieta Avellar Nogueira
Publicado em Maria Antonieta Avellar Nogueira
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Acredito que não há adversativa mais adversativa que um “mas”. A força que três letrinhas tem! É incrível. Pode-se estar num grupo de amigos, muito felizes, uma conversa animada, até mesmo tecendo elogios a alguém ausente, que ofereça um rol de boas qualidades, quando, sem mais senão alguém lança despreocupadamente um “mas”. Foi o fim. Estragou tudo. Aquela palavra teve  mais  poder de destruição que uma bomba atómica. Todo o resto ficou zerado.

Ora vejamos: É o melhor aluno, mas… Um vizinho excelente, mas… A sua doença não é grave, mas… Palavrinha danada,  hein ? Quem terá sido o inventor dela ? Quem a terá simplificado? Só tenho a certeza que, se fosse palpável, desdobrável, seria uma cascavel, uma gota de arsénico, uma palavra com um milhão de letrinhas.

À  custa desta adversativa, quantas pessoas terão perdido a alegria e a confiança? Ainda se a maldita surgisse sozinha! Mas não! Vem sempre após algo simpático para borrar a escrita. Quando a pessoa transborda de alegrias, certezas, confianças, ela cai como uma bomba e derruba tudo.

Ora, tendo ela irmãs mais simpáticas, menos vadias, menos tenebrosas tais como contudo, todavia ou mesmo porém, por que não empregá-las? Certo que cairíamos no mesmo buraco, mais airosamente.

Por que será que estou perdendo tempo com esta insípida conversa? Dando-lhe importância não merecida. Mandá-la às urtigas. Até porque a esta altura o leitor virou a página, enjoado e passou a olhar a tv, quem sabe tentando desvendar o enredo troika, coelho, relvas e que tais. Confesso, a minha intenção era desviá-lo dessa novela, que nem o “mas” merece!

Me desculpem. Não será fácil ler isto. Uma crónica é algo que sai de nós. Ali estão pedaços da nossa maneira de ver as coisas, do nosso sentir, do nosso querer, das nossas certezas e incertezas, das nossas verdades e das nossas vaidades. E até das nossas loucuras. E, assim  sendo é fácil vê-la com olhos de entender e perdoar.

Não gosto de reler o que escrevo, porque aí, penso ver com os olhos do leitor. E tudo pia mais fino. Não há meias medidas. Não há contemplações. Não há tolerâncias. Ficam a descoberto os deslizes. Os esconderijos atrás das palavras. As metáforas. Os senão, os mas, os porquês. O elogio errado. A procura dele. A tentação sórdida de atingir uma certa essência. Críticas reacionárias travestidas de progressistas, eu sei lá!

Penso por vezes que me estou a repetir. A nossa memória é uma desarrumação. Como sou teimosa, vou agarrar mais uma que me dá agora um  jeitão. As reticências. Ora, aqui entra o leitor, aquele género de leitor, que está sempre d´olho atento  e que encontrando-me na rua me questionou acerca dos três pontinhos que tenho por hábito colocar às vezes aqui e além.

Embora nâo seja meu hábito armar vendaval vindo do nada, eu explico. É muito simples. Eu uso aqueles três pontinhos ( como você disse), porque tenho prazer em plantá-los ali. Acho uma gracinha. Dão um toque. Um bom ar.  Um requinte. Destroem neuróniozinhos  frágeis. Uma doideira!

Não era isto que queria ouvir?Pois bem. Explico melhor. Um dos maiores prazeres da minha vida é explicar. Explicar muito. Bem explicadinho. Varrer da cabeça de certas pessoas ( que não tiveram explicador), teias, mofos e  cotões. Bem, continuemos. Aqueles tres pontinhos são sinais gráficos que foram baptizados com o nome de reticências. Curioso! Reticências. Cheira a farmácia. Dê-me uma embalagem de reticências para as dores de cabeça. Soa bem! Daqui podia sair uma nova crónica. Quem sabe? Neurónios e reticências.

Continuando. As  reticências são muito importantes, dado que tem o condão de poupar palavras que gostaríamos de dizer e não dizemos, ora porque não nos apetece, ora porque não queremos meter o leitor em encrencas.

Estamos conversados. Confesso, expliquei no intuito de assim retirar daí o que de genérico tem que possa ajudar outro caso semelhante. Espero não me seja atribuído qualquer intuito polémico ou de revide. E aqui fica, por hoje, o último ponto. O final.

 

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