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28
março

Páscoa…

Escrito por  Maria Antonieta Avellar Nogueira
Publicado em Maria Antonieta Avellar Nogueira
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SEMANA SANTA chegando. Penso ser esta época do ano que mais respeito me merece e muitas lembranças traz, lembranças essas que procuro guardar, não necessariàmente dum tempo melhor, mas em que ainda se estava descobrindo o mundo e tudo era novidade.

Confesso, por vezes tendo voltar ao passado, quando o presente oferece não beleza, não respeito, não sinceridade, não nada. Psicanaliticamente será uma rejeição, quem sabe? Sinto que parte de mim precisa entender este mundo caótico e outra parte deixa-se levar. Parte de mim esquece a oração principal, na ânsia das subordinadas. Muitas vezes caem as palavras soltas, sem valor aparente, que, antes pensamento, agora pronunciadas . Cada vez acredito melhor que somos mais a junção das nossas hesitações que das nossas decisões.

E nesta Páscoa com muitos judas, como varrê-los da memória, esquecê –los, ignorá-los.? Não vencê-los. Não enfrentá-los. Não nada! Eles proliferam por aí à rédea solta, a cada esquina, mais e mais, escurecendo as nossas vidas, enquanto nós, os outros, a fatia menor, quais mariposas na escuridão, buscando luz, na eminência de queimar as asas.

Os judas multiplicaram-se talvez culpa nossa, porque passámos uma grande fatia de existência a ignorar. Sem agir. Fomos fundando mentalmente nossa utopia, não uma utopia permanente mas formada por oásis e miragens  d ´ oásis criando sonhos de vencer, de encontrar, de reencontrar, de ganhar, de crescer. Vivemos beirando o abismo e foi a vertigem desse abismo que nos tramou a vida. E tramou tanto que acabamos liquefeitos no melting-pot em que nos chocalhámos

E, enquanto os anos passando, obtivemos uma maneira espantosa de nos afastarmos dos problemas, fugindo à realidade, saltando à margem, arranjando  jeitinhos salvadores, eles foram arquitetando e pondo em prática a melhor maneira de nos infernizar a vida.

Agora os judas são uma maioria. Se um incomodou tanto, imaginem! Será que os sem abrigo, esperando o sono sem sonho, as crianças com fome, os velhos sem conforto nem carinho, os jovens com diplomas na mão, sem trabalho, sem futuro à vista, os que emigraram e os que terão de emigrar, quais cisnes frágeis na revoada, numa rota sem destino, buscando algo incógnito, os reformados, contando tostões, acabrunhados, uma vida de canseira, descontos feitos e agora a decepção . Poderá esta gente ter uma Páscoa? Onde está a Páscoa deles? Onde está a felicidade deles? Não sabem? Não imaginam? Estão todos lá no Calvário, pregados na cruz, gemendo, suando, sofrendo horrores! Dias, meses e anos. Calvários repletos de infelizes que não vão ressuscitar. Até faz doer o peito! Certamente, um dia, Deus irá recebê-los, acarinhá-los e recompensá-los .

E os judas? Os senhores do mundo, os culpados, os gananciosos, os ladrões travestidos de gente honrada, sanguessugas, fazedores de desaforos, hipócritas, falsos donos da verdade, inventores da maldade, mentira e roubalheira? Para onde irão um dia? Aqui não tem calvário, mas que deviam ser desmascarados  na praça pública,  deviam.

Sei que não fica bem numa Páscoa falar com o coração na boca. Mas é a triste realidade. Perdoem. Para suavizar vou terminar, recordando a Páscoa da infância. As cerimónias do senhor Padre Francisco, lá na aldeia. A alfazema, as camélias enfeitando a igreja e as casas, os sorrisos, o bem querer, a distribuição de prendas pelos mais pobres. Um deles qualquer na nossa mesa, feito família. Os beijos, os afectos, o folar da mãe… Os desejos de Páscoa feliz, vindos do coração. Era a época de olhos nos olhos.

Esta, a Páscoa, a Semana Santa, a Ressurreição do Senhor. Então o mundo em que gente gostava de gente… Para os de coração tranquilo, Festas Felizes

 

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