“Só não entende o coração quem não sabe escutá-lo”. (Boneco)
Resolveu, e bem, o Teatro de Giz associar-se às comemorações dos 120 anos do nascimento de Almada Negreiros (1893-1970), levando à cena a peça “Antes de começar”, escrita em 1919 por esta figura ímpar do modernismo português do século XX.
As primeiras peças de Almada datam de 1912, e a última de 1965. Na totalidade da sua produção nesta área, o destaque vai para “Deseja-se Mulher” (1928) e “Pierrot e Arlequim” (1931), que marcam uma rutura com a narrativa teatral naturalista, através de uma escrita fragmentária e profundamente poética.
Essa poética está bem patente em “Antes de começar” (cena única). Num teatro de marionetas, um boneco e uma boneca, fora do olhar do Homem (o manipulador, o bonecreiro), ganham vida própria, encontram-se, conhecem-se, brincam, descobrem o coração, crescem. Acima de tudo, libertam-se dos fios da solidão que os cerca. Agora que não estão manietados, falam da amizade, do amor, da vida, das relações humanas porque é precisamente esse o teatro de Almada – o dos sentimentos, das emoções e estados de alma.
Fui ver e gostei. Desde logo, o público é colocado na perspetiva de quem vê o teatro de dentro para fora, já que é convidado, antes do início do espetáculo, a uma “visita” pelos labirintos da teia do Teatro Faialense. E dos bastidores ninguém sai, pois a representação da peça ocorre dentro do palco, o qual é partilhado por atores e público.
O resultado é um espetáculo de grande beleza estética e plástica, montado, inteligentemente, pelas encenadoras, Flávia Carvalho e Lia Goulart. Interpretações avassaladoras de César Lima (boneco) e Maria Miguel (boneca) que se transfiguram na composição das suas personagens. Irrepreensível o trabalho de corpo e voz, bem como a relação com o espaço. Eis o ator como centro, sujeito e criador onde habita o texto, aquele que torna visível o invisível. Boa conjugação de trabalho de ator com a funcionalidade do dispositivo cenográfico, concebido por Tomás Melo, e com a eficácia do desenho de luz de Bruno Carvalho. É que, nos tempos que correm, a arte é já o domínio da técnica. (Sou do tempo em que se dizia que a arte começa onde a técnica acaba…).
Não sei do que mais gostei. Se da fisicalidade e da movimentação cénica de César Lima, se da tocante e inocente ternura posto nas inflexões de voz de Maria Miguel. Do que tenho a certeza é que o teatro não é mais do que um jogo, uma brincadeira. Atuar é jogar, brincar e estar disponível. Em inglês, diz-se “play”, em francês “jouer”, em alemão “spielen”. Só em português é que se diz representar (verbo que não contempla o conceito jogo/brincadeira).
Nota positiva para os figurinos (de Carolina Aguiar, Susana Valinhas e Joana Silva) a funcionarem na perfeição, sendo de realçar a réplica do icónico fato do Almada Negreiros “futurista” no corpo de César Lima.
Longa vida para o Teatro de Giz, que, buscando novos paradigmas, continua a reinventar a esperança.