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05
julho

Base das Lajes: mais areia para os olhos

Escrito por  Carlos Enes
Publicado em Carlos Ferreira
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Por mais que se queira acreditar na boa vontade do Governo da República, há atitudes que indiciam um desprezo por todos aqueles que vivem angustiados com o processo que se está desenrolando em torno da Base das Lajes.

Há poucos dias este jornal noticiava que os representantes dos trabalhadores da Base andavam há seis meses esperando resposta a um pedido de audiência aos ministérios da Defesa ou dos Negócios Estrangeiros. Julgo que a resposta nunca chegou nem sabemos quando poderá chegar. 

Para além de não receber os interessados, os esclarecimentos que o Governo podia prestar são no mínimo confrangedores. Nos finais de Abril, os deputados do Partido Socialista eleitos pelos Açores colocaram duas simples questões aos mesmos ministros. As perguntas relacionavam-se com uma notícia de que havia intenção por parte dos americanos em despedir os trabalhadores mais novos com todas as consequências sociais daí decorrentes. Esta posição teria sido ventilada numa reunião da Comissão Bilateral, não tendo havido qualquer reação por parte do Governo português na referida Comissão. 

Com as referidas perguntas os deputados pretendiam saber se o Ministro confirmava a proposta norte-americana e se concordava com ela. Caso contrário, que medidas pretendia propor para, na inevitabilidade dos despedimentos, minorar as consequências sociais e económicas que pesam sobre a ilha Terceira.

Como das outras vezes, a resposta chegou, mas, como das outras vezes, ficamos na mesma. O Gabinete do Ministro dos Negócios Estrangeiros informou-nos que este Ministério “tem acompanhado permanentemente as negociações com o Governo dos Estados Unidos da América relativamente à reestruturação da Base das Lajes. Desde o início deste processo que a grande preocupação do Governo português é a de evitar ao máximo os prejuízos para os trabalhadores portugueses desta base e para a economia da Região Autónoma dos Açores”.

Aqui está uma resposta muito esclarecedora e com ela, se calhar, pretende-se acalmar os espíritos dos mais irrequietos: o Governo está preocupado, o Governo zela por nós, o Governo não nos vai deixar mal.

Sabemos que há questões que não podem ser assoalhadas na praça pública, mas também sabemos que em nome do “segredo de Estado” se encobre muito desleixo. Quem for juntando as peças do puzzle chegará facilmente a esta triste conclusão: o Governo da República anda a “ver a banda passar”, pois os zunzuns que vão surgindo nunca revelaram qualquer empenhamento profundo em procurar soluções que servissem os interesses dos Açores. O Governo da República não faz ondas, por razões que devem andar no segredo dos deuses, mas os deuses também se descosem e um dia havemos de saber boa parte da verdade.

Entretanto, por mais paradoxal que pareça, a defesa da manutenção da Base das Lajes com as capacidades militares atuais, passou a ser feita pelos próprios americanos. Na Câmara dos Representantes já foi aprovada uma emenda a travar o processo, até haver uma explicação global por parte do Governo americano sobre a política de redução dos efetivos na Europa. Outra iniciativa legislativa, ainda não aprovada, procura evitar a perda de influência da América perante o possível interesse dos chineses na base portuguesa. Por outro lado, um grupo de congressistas, onde se incluem alguns de ascendência açoriana, alerta para as desvantagens da redução dos efetivos militares na Bases das Lajes.

Tudo indica que estas iniciativas não surgem por acaso. Ou seja, elas coincidem com diligências e encontros feitos pelo Presidente do Governo Regional, Vasco Cordeiro, com várias entidades americanas.

Daqui resulta que, mesmo não se sabendo o conteúdo dessas reuniões, o facto é que elas se desenrolaram e revelam o empenhamento do Governo Regional em defender uma política que nos seja favorável. Gostaria de dizer o mesmo em relação ao Governo da República, mas não vejo sinais desse empenho. 

 

 

 

 

 

 

 

 

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