Bem precisamos hoje de levantar o esplendor de Portugal, rebuscando por entre as brumas da memória o exemplo daqueles que tentaram evitar que o país vivesse encafuado numa apagada e vil tristeza. Não tenho dúvidas que muitos fizeram o melhor que puderam enquanto sobraram forças, mas o impacto no coletivo foi o que se viu e se vê. Raramente, estivemos na mão-de-cima e não consta que o Salvador nos tenha posto a mão-de-baixo, como faz à criança desamparada.
Saltando do passado para o presente, pretendo chamar a atenção nesta crónica para os novos egrégios avós, que povoam o nosso quotidiano, que estão hoje desempenhando um papel fundamental para evitar que a nossa sociedade se desagregue ainda mais.
Sem mandar recado, com Passos manhosos, a realidade, a dura realidade bate às Portas do desprevenido cidadão que nunca pensou ter de enfrentar adversidades deste calibre. A cada dia que passa, vamos tomando conhecimento de situações dramáticas, derivadas do desemprego ou do aumento das rendas da casa. As privações, que sempre afetaram uma parte significativa da sociedade portuguesa, começaram a atingir sectores da classe média com habilitações académicas que, até há bem pouco tempo, lhes davam um estatuto confortável.
Há dias tive conhecimento de dois casos de pessoas próximas que podem servir de exemplo.
Paulo, engenheiro, trabalhava numa empresa que encerrou as portas. Os “ganchos” que a mulher, arquiteta, vai conseguindo são insuficientes para fazer face às necessidades de quem tem dois filhos em idade escolar. As despesas correntes do dia-a-dia, sem luxos, e a elevada prestação da casa devoram os parcos recursos agora existentes. Foram obrigados a entregá-la ao banco, indo viver na companhia dos pais dele. O carro só é usado em casos de extrema necessidade e todos os esforços são canalizados para que nada falte aos filhos.
D. Genoveva, viúva e acabada de se reformar, viu a vida recuar muitos anos. Sem se conformar com a incerteza da percentagem dos cortes previstos na sua “reformazinha”, sempre manteve a esperança de que esta “gente que nos governa há de ter juízo para travar o descalabro”. Deixou a memória a vaguear pelos difíceis anos da infância, mas não desanimou: “os meus netos não passarão pelo mesmo” – jurou para si própria, no silêncio da sua raiva.
Humberto e Filomena, com cursos técnicos médios, estavam os dois desempregados há meses. Sem dinheiro para pagar a renda da casa, que fora atualizada, partiram para Moçambique. À conta dos pais de Filomena ficaram dois filhos a frequentar o ensino primário, e o Gaspar, um gato de pelo abundante que, julgo, não irá pedir a demissão. Não errou nas previsões, porque nunca as fez, nem consta que tivesse ingerido swaps tóxicos. Mas com toda a certeza terá de esquecer os enlatados do supermercado, para se contentar com uma cabeça de chicharrinho do porto de S. Mateus.
Os pais de Filomena sorriem de contentamento com a sua nova função a tempo inteiro, apesar dos sacrifícios. O sr. Joaquim até já emagreceu uns quilitos nas caminhadas de ida e volta para a escola, “um bom remédio para o castrol”. Os dois miúdos ainda dormem no antigo quarto da mãe, mas quando crescerem, o rapaz terá que passar para o sofá da sala ou para uma cama desmontável no corredor. Da porta para dentro tudo são camas, exclama D. Adriana, lembrando-se do rancho de irmãos que foram criados à molhada, nas enxergas espalhadas pela “falsa”.
Os dois casos que acabo de referenciar reproduzem-se por esse país, às centenas, aos milhares. E neste contexto de crise, os novos egrégios avós transformam-se num esteio indispensável a esta sociedade. Lutaram ao longo da vida para assegurar um futuro condigno aos seus rebentos, acalentaram o sonho de que uma licenciatura era sucesso garantido para eles, esperando que fossem os filhos a socorrê-los no outono da vida.
Esta história contada há uns anos, ninguém acreditaria nela. Mas ela aí está e com tonalidades bem mais negras do que as descritas. Bem sei que esta geração não recusa uma almofada a filhos e netos para repousarem a cabeça, mas não merecia mais esta provação.
Viveram acima das suas possibilidades para merecer tal castigo? Tenho dúvidas. Do que não duvido é de que estes avós tinham direito a uma vida mais sossegada. O que mais me impressiona é que nas jornadas de protesto lá estão eles a dar o exemplo, ao sol ou à chuva. Não podemos exigir que redobrem forças para nos guiar à vitória, mas estão fazendo o seu melhor para não nos deixar cair em derrota.
A continuar por este caminho, com ou sem novas caras ministeriais, esta será a última geração a poder fazê-lo. Os avós que se seguem terão muita dificuldade em assegurar uma reforma condigna à sua sobrevivência individual, quanto mais reparti-la com filhos e netos. Este é o resultado da política d´Os amigos do Gaspar, o tal que finalmente reconheceu ter falhado. Espero que o senhor guarda Serôdio, personagem inventada pelo cantor Sérgio Godinho, para o álbum do mesmo nome, ponha esta malta na ordem. Já não é sem tempo.