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06
dezembro

A Psicanálise, Froboenius Gobineau, a Etnografia, As religiões comparadas... Mas, pelo amor de Deus, não levem Mais brancos ao candomblé!

Escrito por  João Stattmiller
Publicado em João Stattmiller
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Cheguei ao Lubango numa terça feira de Junho a bordo dum Antonov da Voangol, vinha fugindo, como um refugiado político, das peripécias da vida que em Luanda não está fácil. Armado com a minha nikon e uma trouxa de roupa suja, o pretexto era uma visita ao projeto dos Gambos com o intuito de recolher imagens (estava especialmente interessado em fotografar o ritual da circuncisão que acontece nesta altura do ano e também algumas artes locais como a cestaria e a olaria) para as comemorações do 10º aniversario da ADRA mas podiam usar-me para o que achassem pertinente, afinal um homem no campo pode também ter algumas outras utilidades. Apesar do pretexto festivo o meu espírito estava nas lonas, há momentos da vida em que nos sentimos um lixo, quando cheguei dormi, dormi e dormi. Ao acordar dei conta que uma colega estava na sala de reuniões com um grupo de crianças do “Ondjila” e um monte de lixo. Separavam o lixo, preparavam-no e, a pouco e pouco, iam surgindo flores, quadros, bonecos e muitas outras coisas bonitas. Era o sítio indicado para passar a tarde solarenga, entre mim e o conteúdo da sala havia no mínimo uma sensação de identidade. Nem mais, fui até lá e disse: "também eu estou precisado de reciclagem, de passar de lixo a coisa bonita". Mexi no lixo e em mim próprio e senti-me bem. Como que por acaso a sala estava cheia de posters com frases fortes ilustradas com fotos lindas de bébés. Quando perguntei o porquê dos bébés alguém respondeu: então não sabes? Este é o mês da criança. E nesses dias a sede da ADRA no Lubango encheu-se de crianças brincando, dançando, cantando e rindo.  

Mesmo assim a espera pelo pessoal do projeto parecia interminável e a minha necessidade de fugir para longe para onde só ficamos com os bichos e as estrelas chegou ao ponto de querer arrancar até à Chibia montado nas traseiras duma IFA onde poderia ter a possibilidade de apanhar algum transporte até Chiange. Um meu querido amigo tirou-me o sentido daí através duma proposta de fim de semana em sua companhia, acedi. Fomos até sua casa e, em companhia de duas mboas que com ele partilham o cubico e a vida, almoçámos pirão com jinguinga  e morangos para a sobremesa. Bebemos vinho sul-africano e ouvimos Stan Gets com o trio de Bill Evans, atrevo-me a dizer que foi uma experiência mística, não só porque rezamos a agradecer aos deuses pelo manjar mas também porque abrimos os corações  e fomos ver o pôr do sol no miradouro da Leba, uma visão magnífica que guardarei sempre comigo. No dia seguinte era Domingo, preparamos o farnel e num grupo giro fomos almoçar à Tundavala, frango de churrasco com batatas fritas e salada regado a Savana, uma cidra danada de boa. A carrinha “four-by-four”, equipada com o conveniente leitor de CD (quem disse que four-by-four não kuia), debitava os blues maravilhosos de Keb Mo e a fantástica fusão de Stanley Clark há medida que íamos subindo até às nuvens. A Tundavala recebeu-nos generosa com um sol radioso e um céu limpo, mais uma visão divina de uma das muitas maravilhas desta terra. Imaginámos um voo de asa delta e um teleférico ligando o céu a terra lá em baixo, e para quê a asa delta se alguns afiançaram até que pessoa pode voar só assim sem mais nada, como aconteceu no Uije quando um feiticeiro vindo do Moxico aterrou ruidosamente no telhado da Delegação do Ministério da Agricultura para espanto dos presentes, o homem veio voando todo nu e disse mesmo que já tinha voado até ao Congo e ao Brasil para fazer uns trabalhos e buscar poderes que ele sabia estarem por lá, o segredo de tais voos estava num pau mágico que inserido no anus transforma homem em foguete,  estórias que se contam e momentos que se vivem intensamente.

No dia seguinte lá estava eu e a minha nikon no escritório aguardando ansiosamente que o pessoal do projeto dos Gambos ultimasse os preparativos para a viagem até Chiange. Juntei-me a eles e depois de uma manhã remendando pneus de socorro, trocando óleos dos carros, apertando porcas e parafusos, arrumando como era possível as gentes e coisas, partimos. A viajem fez-se numa estrada de asfalto, com direito a paragem no mercado da Chibia para vender um cabrito, até à Chibemba a mais ou menos 140 km do Lubango, ai tomámos o desvio em direção a chiange que são mais 22 km numa boa picada que foi reabilitada pelo projeto. Chegámos a Chiange ao fim da tarde, ainda a tempo do Lito, um jovem mulato bem disposto que é motorista do projeto, me levar a visitar alguns kimbos na área, o kimbo do tio Pedro que toma conta dos cavalos do projeto foi especialmente interessante, com as suas três mulheres e uma profusão indeterminável de filhos o tio Pedro que diz, com orgulho, nunca ter saído daqui, apesar de ter alguns filhos em Luanda na tropa, assume-se como um homem feliz  e acha que essa coisa de ter três mulheres só faz confusão na cabeça das gentes da cidade, por aqui é normal, é a nossa tradição e elas até se dão bem umas com as outras, cada uma tem a sua cubata e a sua cozinha mas na hora de comer sentamos aqui (um conjunto de paus dispostos em quadrado como bancos a volta de uma fogueira no centro do kimbo) todos juntos e cada um traz o que tem. Assim, diz ele, as coisas são mais justas, quando trago um saco de açúcar ou sal divide-se igualmente por todas e cada uma leva a porção que lhe cabe  na sua cozinha. Eu, para além das casas delas, tenho a minha própria casa e passo dois dias em cada casa, tenho que ser cuidadoso com isso porque senão sai confusão. Isso das mulheres para ele é normal, aquilo que o preocupa mesmo é o roubo de gado que se tem feito sentir com muita força aqui na área, segundo o tio Pedro o problema é que os filhos e sobrinhos são aliciados por ladrões de fora para roubarem gado aos seus pais e tios e como a juventude de agora já tem ambições diferentes e querem coisas caras que encontram nos mercados têm de roubar para poder consegui-las. A conversa foi boa e no fim o tio Pedro brindou-nos com uma garrafa de leite azedo (mahini) e sete ovos. Regressamos à base do projeto em Chiange depois dessa incursão pelos kimbos carregados com leite azedo, ovos, batata doce e uma galinha. Era já noitinha, mas mesmo assim resolvi dar umas voltas a pé pela vila enquanto preparavam o jantar.  Chiange, a sede do município dos Gambos, uma pequena vila do interior onde a está a base do projeto, é uma vila simples, com uma só rua, uma esquadra de polícia, um bar, uma bomba de gasolina e um pequeno mercado. A vila é relativamente antiga, foi construída no tempo colonial como se nota nas vivendas logo à entrada que agora servem de poiso para os funcionários do aparelho administrativo do estado. O comboio diz-se que já veio até aqui mas nada sobra da antiga linha, a água e a luz são também ausentes pelo menos da forma como a vila se projetou com ambições a sede de município. A questão da luz dava um filme (já fiz mesmo a proposta a um produtor conhecido) a vila tem um gerador que funciona das 18 ás 22 horas quando há combustível e o velho gerador não encontra nenhuma maleita que o obrigue a parar, mesmo assim são poucas as pessoas que necessitam de tal luxo pois a generalidade dos habitantes da área nunca teve necessidades tão sofisticadas. O dono do bar e a sua senhora fazem parte da pequena minoria que tira partido da eletricidade pondo a aparelhagem que compraram na Namíbia a debitar som em distorção para espanto da pequenada que fica se acotovelando na entrada para assistir ao pé de dança dos mais velhos. O ritual repete-se com a regularidade possível, tendo em conta os caprichos do gerador, e pode ser considerado um dos momentos altos da vida social de Chiange, um verdadeiro "happening". 

Na primeira noite, depois do momento social, voltei para a base da ADRA onde se encontrava um pessoal do Cunene, dois colegas do cunene tinham trazido com eles um grupo de tratadores de gado recém formados que vinham à Huíla para trocar experiências com os seus pares de cá. Nessa noite assistimos (graças ao gerador e ao motorista do projeto, o Lito, que trouxe a cassete do Lubango) ao filme “Tudo Maus Rapazes” o típico filme de ação americano estilo Estallone, um grupo de presidiários rufias é aliciado por um major do exército para ir salvar a filha de um milionário americano raptada por um grupo de guerrilheiros no Vietname com a promessa de perdão da pena e liberdade para os sobreviventes. Muitos tiros, explosões e mortes depois a menina é salva e a missão cumprida. A rapaziada gostou tanto que alguns pediram até para repetir. Estes americanos são f...

A necessidade de se desligar o gerador e a perspetiva de uma partida matinal para o campo conseguiu demover os mais insistentes e poupar os meus olhos e ouvidos já cansados a mais duas horas de tormento. Na manhã seguinte enchemos o Land Rover e a carrinha Toyota com as bicuatas próprias de quem vai para o campo, as tendas, sacos cama, mantas, colchões, pneus de socorro, três galinhas, um cabrito, hortícolas, panelas, canecas, quatro grades de cerveja, quatro gericans de água. Montámos na viatura e a estrada era nossa. Comigo estavam os doze do Cunene mais o Lito (o motorista), o Sr Amandio (o cozinheiro) a Mariana (técnica do projeto dos Gambos) e a Isabel (animadora do projeto dos Gambos) que levou a sua filha, a pequenita Berci que lá foi também qual Alice no pais das maravilhas. O grupo tinha o seu quê de bizarro. O Land Rover onde seguia tomou a dianteira, para não comermos a poeira justificou o Lito sorridente. As picadas eram uma espécie de trilhos esburacados abertos pelas errancias das manadas em busca de pasto, no tempo da chuva aqui não vale a pena, esses barros são impossíveis de transpor de carro foi dizendo o Lito. Mesmo agora na estacão seca a impossibilidade dos caminhos desafia os condutores mais criativos. A primeira paragem foi a 12 km no Pocolo, um conjunto de três casas e um depósito de água com ares de antigo entreposto comercial mas agora completamente arruinado. Sentámos debaixo de uma árvore com alguns mais velhos da área para discutir as questões relativas ao tratamento do gado e como a discussão se deu em Mongambwe traduzido para Humbe e Kwanhama não entendi nada exceto as referências à Camwenha e ao carbúnculo interno e externo, ou por outras palavras, antrax. De vez em quando a Isabel ia-me traduzindo algumas passagens e explicando o que se estava a passar. As mulheres monganbwe sentadas respeitosamente a alguns metros da árvore olhavam-me como se fosse assim uma espécie em vias de extinção. Cedo percebi que o branco com máquina fotográfica introduzia uma formalidade e importância invulgares neste tipo de encontros. Se a minha avó me visse agora, o orgulho que teria, as suas preces foram finalmente atendidas, o neto da velha kaluanda havia sido promovido a branco e afinal branco por estas bandas é mesmo um estatuto e por isso ela achava que atrasar a raça não valia a pena. A mobilidade social naquele tempo, aos olhos da minha avó, consistia numa cuidadosa seleção genética para se clarear a tez.  Talvez por isso os seus filhos casaram com brancas e no netinho já só um observador atento encontra os traços da mestiçagem. Ali naquele lugar, debaixo da árvore percebi finalmente as palavras de Vitorino Nemésio e senti como pode ser real o seu sentimento de branco, alienígena. 

Fotografei as mongambwes e depois de uma despedida com palmas os carros retomaram a marcha pelas tortuosas picadas dos Gambos, mais 35 km até ao Panguelo um lugar onde construímos uma escola e um posto médico em adobe rodeado por alguns kimbos, Panguelo é o primeiro vértice do chamado triângulo dos Gambos, como é conhecida a área de intervenção. Quando chegámos o Sr Amandio apressou-se a tirar as panelas pois seria ali o almoço da rapaziada. Enquanto ele preparava o pitéu fomos esticar as pernas até um kimbo próximo onde encontramos para meu espanto um branco com a pele curtida pelo sol no meio dos “seus povos” como dizia, era o Totinha,   um comerciante branco que anda por aquelas bandas trocando bebida e mantimentos por gado, fala perfeitamente a língua local e conhece a área como a palma das suas mãos, recebeu-nos efusivamente e convidou-nos para a sua cubata onde nos ofereceu pirão com carne seca, torresmos e cerveja quente, aliás a cerveja quente é uma das especialidades locais nestas áreas onde a energia elétrica nunca chegou. Quando lhe disse o nome de um tio meu que também anda por estes matos ficou radiante, então tu és sobrinho do fulano, estão a ver como é,  os brancos são assim, nunca se perdem.

Perguntei-lhe como poderia encontrar uma área onde se estivesse a fazer a circuncisão e ele deu-me indicações preciosas. Como íamos para a Taka pediu-nos que levássemos algumas coisas para uns amigos que tem por lá, uma cesta com seis cervejas para o Pandy Kaunda, uma garrafa de Kota (uma aguardente) para o Muakundula que é irmão do soba da Taka, outra para o Kaluhamo e uma para nós como oferta de cortesia. O Apolo dos doze do Cunene aproveitou para comprar mais cerveja usando os rands que trouxe do Cunene e que o Totinha aceitou com agrado depois de fazer umas contas no seu relógio com calculadora. Enquanto derrubávamos o peixe seco com pirão que o Sr Amandio preparou lá passou o Totinha num Unimog estilo Mad Max carregando os “seus povos” e dizendo: "tenho que ir a chiange e eles só querem andar comigo".  As suas gargalhadas ecoavam alto no meio da poeira que ia deixando para trás até desaparecer no horizonte. O que diria o Nemésio... 

 

 
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